JLIA, CONFISSES DE UMA DROGADA
Ttulo original: JULIE, CONFESSION D'UNE DROGUE DE QUINZE ANS

Captulo 1

Tu disseste-me, meu amor, para nunca temer a verdade e que poderia, daqui em diante, confessar-te tudo, pois s as minhas mentiras te magoariam. No entanto, no momento 
de me confessar, tenho medo.
Vou perder-te. A verdade, a minha verdade, no a suportars. Julgas conhec-la. Aceitaste aquela que julgas que eu sou: uma rapariguinha ferida que esteve prestes 
a morrer e que conheceu o medo e a vergonha.  grande a tentao de me calar, de aceitar a felicidade que me ofereces. Foste tu que me prometeste: "De futuro, o 
pesadelo acabou, repousa sobre mim. Farei de ti, com o tempo, a mulher mais feliz do mundo. Precisas primeiro de te curar. Ajudar-te-ei com todas as foras da minha 
vontade, da minha ternura e do meu desejo tambm."
Eu respondi: "Sim... salva-me, obedecer-te-ei, mas tenho receio. E se tu fracassares, se j nada puder salvar-me? Eu no vivi um simples pesadelo, eu desci aos infernos. 
Achas que se volta de l impune, inocente, sem cicatrizes repugnantes?"
E pronto. Como quiseste, cheguei a casa da tua av,  casinha do Cotentin onde passaste todas as tuas frias da infncia, da adolescncia. Aqui, preveniste-me, aprenderei 
enfim o que  a verdadeira vida, com os seus gestos simples, as suas felicidades aprazveis, as suas obrigaes alegres. Regressar demasiado cedo para junto da minha 
famlia parecia-te perigoso. Convenceste o meu pai da necessidade desta estada. Agradeo-te.  certo que me enganei a respeito dele e da mulher. De qualquer modo, 
ainda no estou preparada para voltar a viver de novo com eles.
As poucas horas que aqui passmos juntos, antes de voltares para Paris, foram talvez das mais felizes da minha curta vida. O acolhimento, as lgrimas que vieram 
aos olhos dessa velha senhora que me recebia porque tu lho tinhas pedido... H alguns meses, eu teria desatado a rir maldosamente por causa de tanto sentimentalismo. 
Esta noite, ao comear a escrever este caderno, desesperada, tenho de me conter para no soluar.
Sou indigna do que tu me ofereces, do que ela me oferece!
Logo que o teu carro desapareceu na curva da estrada de Cherbourg, ela perguntou-me se podia tratar-me por tu e pediu-me para eu fazer o mesmo, porque hoje em dia 
toda a gente se tratava por tu e ela achava muito bem. Em seguida, avisou-me:
- Jlia, em minha casa sers livre, s no poders recusar os bons pratos que pretendo preparar para ti e ensinar-te a cozinhar. Tu precisas de recuperar o teu aprumo. 
Mas eu tenho bons discos e bons livros: adoro msica e literatura. E, alm disso, hei-de confiar-te algumas receitas... para se ser feliz: sou um pouco feiticeira, 
conheo-as.
Infelizmente, Etienne, meu querido, eu sei que, para mim, para ns,  demasiado tarde. As receitas so ineficazes. Eu falava-te de inferno. Nesse inferno, no houve 
apenas a queimadura das chamas, as torturas inimaginveis para quem as no suportou, houve tambm a lama, lama na qual eu me atolei, por vezes para satisfazer prazeres 
inominveis.

Tu julgas saber tudo de mim, porque, como mdico, estudaste linha a linha o meu dossier de doente, de drogada. Visto que entre ns a verdade  uma obrigao, pois 
qualquer mentira mataria irremediavelmente o amor, devo confessar-te que ns, os drogados, curados ou no, somos os mentirosos mais astutos que se possa imaginar, 
o nosso poder de dissimulao  demonaco. Gostamos de dissimular porque isso nos d a iluso de sermos, assim, mais fortes que os nossos juzes, os nossos censores, 
os nossos inimigos e em geral aqueles que pretendem proibir-nos de viver num mundo diferente do deles - em nome da moral, da nossa sade e das leis sacrossantas 
de uma sociedade que ns desprezamos incondicionalmente.
Eu divago, meu amor. O meu objectivo no  defender-me de ti, mas sim confessar-me sem nada deixar na sombra. Ao princpio, tambm a ti eu mentia, porque tu eras 
mdico, pior, um analista, e cada uma das tuas perguntas me parecia uma armadilha, apesar de noutros momentos te considerar como o meu nico amigo. Mais tarde, quando 
comecei a estar apaixonada por ti, menti-te por medo, medo que me desprezasses, que quisesses livrar-te do meu "caso", que te provocasse horror! A partir da, confessei-te 
apenas o que me era impossvel esconder-te: o meu dossier mdico testemunhava as drogas tomadas, os delitos cometidos, as duas tentativas de suicdio, os trficos 
de que era culpada, as minhas condenaes. Fui mesmo ao ponto de reconhecer o prazer que me tinham dado certas experincias sob o efeito dos estupefacientes, incluindo 
experincias sexuais. Tu ouvias-me com uma tal pacincia! Ora quem  que, antes de ti, alguma vez me tinha escutado, ouvido? Quando te fiz a descrio dos terrveis 
sofrimentos que nos so causados pela dependncia de certas drogas duras, como a herona ou a morfina, apercebi-me de que tu j no me consideravas apenas como tua 
doente. A alegria e a esperana invadiram-me! Agora, estou aterrorizada e sinto vontade de morrer. A verdadeira Jlia no te ir causar problemas? Mas terei eu coragem 
de me matar? Se tu me abandonasses, certamente tornaria a ficar vulnervel, fatalista, voltaria para junto dos meus antigos companheiros, para perto desses que foram 
longe de mais num mundo de loucura para poderem ter a possibilidade de se reinserir numa vida normal. At ao dia em que, como tantos outros, eu seria vtima de uma 
overdose, voluntria ou inconsciente. H muitas mais do que aquelas que as estatsticas apontam. Mas as famlias, envergonhadas, fingem tratar-se de um suicdio, 
murmuram... "foi um desgosto de amor... um insucesso escolar... um traumatismo ignorado...". Alguns mdicos, apiedados, querendo honrar a respeitabilidade dos amigos, 
a memria das vtimas, passam uma certido de
bito ocultando a palavra "estupefaciente".
Deves perguntar a ti prprio onde  que eu quero chegar, meu bom Etienne.
A parte alguma! Quero apenas expor-me perante ti sem armas nem armadura. Quero deixar de mentir, de te mentir.

Um s dia passado junto da tua av abriu-me os olhos. Se a tivesse conhecido mais cedo, ela poderia talvez ter-me servido de modelo. Embora mais velha do que eu 
mais de meio sculo, como me parece mais nova, mais dinmica e mais corajosa do que eu! Como esta noite de Maro est muito fresca, ela perguntou-me se eu seria 
capaz de preparar uma grande fogueira na chamin. No meio das cinzas, algumas brasas brilhavam ainda. Sim, isso eu sabia fazer. Enquanto eu escolhia e depois colocava 
cuidadosamente os ramos secos e depois as achas, ajoelhada em frente da chamin, ela disse-me:
- No te voltes. Ouve-me, mas no me respondas. Sou to velha aos teus olhos que no consegues imaginar-me a fazer disparates, a ser criticada pelos meus pais, a 
zangar-me com eles por no me compreenderem, por me imporem obrigaes idiotas! E no entanto isso sucedeu. E s Deus sabe como eu me revoltei, mais tarde hei-de 
contar-te em detalhe. Tive tambm uma grande desiluso amorosa, aos dezassete anos, de modo a ficar desgostosa para sempre dos homens, das suas traies... Quem 
no sonhou com uma bela morte romntica entre os quinze e os vinte anos? Mas isso  idiota, e mais idiota  uma pessoa suicidar-se lentamente, dia aps dia. Olha, 
no te irrites, Jlia, no te estou a pregar moral, falo-te assim porque levo aqui uma vida muito solitria, e ento as coisas do passado voltam por vagas. Digo-te 
isto apenas para que saibas que entre ti e mim existem menos diferenas do que julgas.
As chamas elevaram-se, e ela trouxe-me uma chvena de leite quente perfumado com canela. Tranquiliza-te, Etienne, serei ajuizada. No decidi escrever esta confisso 
 laia de testamento. Estou quase certa, apesar daquilo que escrevi mais acima, de que me curarei completamente, de que no haver uma recada.  falta de "branca", 
no roubarei as anfetaminas da farmcia, no inalarei qualquer frasco de acetona nem a garrafa de tira-ndoas que vi na casinha do tanque. O teu amor "desintoxicou-me" 
completamente, mais do que os cuidados que recebi no hospital.
Mas...
Oh, meu amor, amando-te como te amo, como aceitar a ideia de que um dia, mesmo quando deixar de ser uma rapariguinha irresponsvel, possa vir a ser tua mulher, ter 
filhos teus?
J no sou irresponsvel! J no sou tambm uma rapariguinha! No tenho quinze anos, quase dezasseis. Tenho cem, mil! Demasiados anos para poder fazer um homem feliz.
 para que tu compreendas e no me tornes as coisas mais difceis que preciso deixar-me contar-te a minha histria mesmo nos seus mais pequenos detalhes, correndo 
o risco de me repetir, de te cansar. No sou escritora, mas aliviar-me- reviver contigo o que foi o calvrio banal que fez de mim, com a idade em que as nossas 
mes ainda certamente brincavam com bonecas, uma drogada, uma doente, e bem pior ainda.
Devo comear pelo princpio. Peo-te que me leias at ao fim! Sim, sei que muitas vezes ters a tentao de atirar para longe de ti esta acumulao de horrores, 
de degradaes, de humilhaes e de loucuras suicidas. Mas eu preciso de me libertar destas recordaes que me minam mais seguramente que um cancro. Prefiro perder-te 
por me ter exposto perante ti do que usar o teu nome pelo facto de tu amares aquela que julgavas que eu era. No poderia suportar muito tempo esta mentira, voltaria 
a cair nos meus erros. Voltaria aos meus demnios. Tu acabarias por me odiar. Mais vale perder-te agora do que vir a ser rejeitada por ti mais tarde.

Estamos hoje a 21 de Maro de 1984, primeiro dia da Primavera. Ladeando a pequena casa situada na estrada de Diguleville, a dez minutos do canal da Mancha, duas 
enormes mimosas em flor perfumam o campo circundante. Estas rvores de sol, nesta regio! H tambm uma palmeira, mas o vento de oeste trar chuva. Gosto deste contraste. 
Ouo a tua av. Parece que, na sua juventude, lhe chamavam a bela Hlne; ela ainda  bela, com os seus cabelos brancos manchados de grandes madeixas de um louro 
metlico, o perfil afilado do seu rosto magro com olhos de um azul-acinzentado, muito meigos. Depois de termos jantado por volta das sete horas, deixei-a a fazer 
uma pacincia. Ela estava instalada em frente da chamin, com o calor da fogueira a corar-lhe a cara. Ela afirma que as suas mos mexem maquinalmente nas cartas, 
permitindo ao seu esprito organizar o que tem a fazer no dia seguinte. Prometi-lhe no apagar a luz muito tarde. Ela no ousou dizer-me que viria aconchegar-me 
a roupa e dar-me um beijo. Sou velha de mais, no  verdade, para esse gnero de gestos? Eu tambm no ousei reclam-los!
Amanh de manh iremos fazer compras a Cherbourg no seu pequeno automvel e, se o tempo estiver bom, levar-me- ao Nez de Jobourg. Mostrar-me- atalhos por onde 
eu poderei regressar a p. Ela acrescentou a rir que conduzia com prudncia, no como tu, que muitas vezes s tomado, por um piloto de frmula um.
 verdade, meu querido, que a tua me se parece com a tua av Hlne, e que o teu pai, mdico, como tu,  um homem extraordinrio, e que os pais dele... no, no 
quero evocar tanta felicidade. O contraste com a minha prpria juventude  demasiado penoso. Apercebeste-te da sorte que tiveste?
No desejo acusar ningum. No entanto, as coisas foram bem mais difceis para mim.  talvez uma questo de destino ou de poca... Tu nasceste em 52... eu, em Junho 
de 68. Tu s Sagitrio, vais a direito para a frente como a flecha do archeiro celeste, eu sou Gmeos, sou inevitavelmente dplice.
O pior, talvez,  que durante os primeiros treze anos da minha existncia julguei ser a criana mais feliz do mundo, com uns pais que adorava e dois irmozinhos 
dos quais eu era o dolo. A vida era fcil em nossa casa. O meu pai, industrial de electrnica, no tinha, creio eu, qualquer problema de dinheiro. Muitos amigos 
frequentavam a nossa bela casa na regio da Touraine... 
Para qu mostrar-me inutilmente modesta? Eu era muito bonita nessa poca, parecia que j tinha quinze anos. Os rapazes no se cansavam de me repetir que estavam 
loucamente apaixonados por mim... e isso,  claro, agradava-me. Depois havia o jovem colaborador do meu pai, filho, de um dos seus velhos amigos. O meu pai casou 
tarde, aos trinta e nove anos, com uma rapariga vinte anos mais nova do que ele.
Tenho de explicar-te quem  Frdric Langlet. Em 1982, ele tinha vinte e sete anos, era alto, inteligente, muito sedutor, um pouco misterioso. Diziam que tinha uma 
ligao amorosa com uma mulher casada. Eu tambm acreditava nisso, e, inconscientemente, sem dvida, andava ciumenta, pois tinha por ele uma dessas paixes no formuladas 
como outras tm por um actor de cinema.
Todo o mal partiu sem dvida da. E que mal! Como vs, no foram precisos mais do que dois anos para me fazer mergulhar no mais profundo dos infernos. E sa de l 
graas a ti, ao teu amor? Sem o risco de uma recada pior? Creio que esta confisso, mesmo que me faa perder-te, me ajudar a reencontrar-me.

Mas, mais do que a qualquer rapaz, eu adorava o meu pai. Admirava-o. Colocava-o acima de qualquer outro homem. No estava longe de pensar que ele devia seguir uma 
carreira poltica, atingir os mais altos destinos! Desejava, evidentemente, que ele se orgulhasse de mim, o que de facto acontecia, pois eu ia muito bem nos meus 
estudos: estava j no terceiro ano moderno, e queria entrar mais tarde para Cincias Econmicas. O meu pai chama-se, tu sabes, Robert Pelletier, e Brigitte  aquela 
a quem eu chamava mam...
Perdoa-me, j  tarde, estou muito cansada. As minhas recordaes de um certo dia meteram-me subitamente medo. Vou tentar adormecer rapidamente, pois tenho receio 
de, apesar das minhas boas intenes, ir mexer na farmcia da tua av.
Como sabes, ainda estou vulnervel, terrivelmente vulnervel. No posso permitir que a tentao de esquecer seja, uma vez mais, demasiado grande. E, como tambm 
sabes, qualquer medicamento pode, rapidamente, servir de droga. Uma recada, no meu caso, seria incurvel.
Isso eu no quero, no, no quero!

Captulo 2

Dormi com a janela toda aberta, bem agasalhada sob as mantas. Um Sol vermelho acaba de aparecer por entre os ramos nus de um freixo, tapando um pedao de cu. O 
aroma das mimosas perfuma o meu quarto, misturado com a frescura da manh. Tudo  cor-de-rosa e azul  minha volta. Ouo mexer na cozinha, no andar de baixo. Mas 
tenho tempo. No mostrador luminoso do despertador que tu me ofereceste, sobre fundo preto, os nmeros luminosos marcam 6e 5. Os pequenos dois pontos que assinalam 
os segundos so como pulsaes de um corao: do teu corao, do qual devo lembrar-me a cada instante, como me disseste antes de me deixares. Como fico surpreendida 
com a alegria que me causam, palavras que outrora teria considerado tolas! Ser feliz com uma pequenina coisa quando algumas passas de haxe, um xuto de heroa ou um 
snifo de coca nos arrastam para volpias incomparveis, inimaginveis para aqueles que as no conheceram, esses burgueses moralistas, essa gente para quem s interessa 
a sua conta bancria, o seu carro e o seu televisor!
Oh, eis que recomeo! Ns, drogados incorrigveis, temos uma linguagem e um discurso montonos, sempre com os mesmos argumentos estereotipados. Perdoa-me. No quero 
que tu julgues que lamento os xtases, indiscutveis,  certo, que os estupefacientes e os alucinogneos de diversos gneros nos proporcionam. Pois os sofrimentos, 
corolrios inevitveis dessas sensaes paradisacas, ultrapassam em horror todos os prazeres, mesmo os mais fortes e mais surpreendentes, que antes se sentiram.
A minha confisso tem dois objectivos: contar como eu me desmoronei to depressa e por que razo me sinto indigna de ti, indelevelmente suja, para sempre marginal, 
expulsa desse jardim do Paraso que descobri demasiado tarde que existia, numa vida infinitamente menos banal e menos aborrecida do que eu supunha. A vida que conhece, 
estou certa, a tua av.
Parei de escrever para ir tomar com ela um copioso e maravilhoso pequeno-almoo. Em seguida, descemos at ao mar. A praia de pedras da enseada de Saint-Martin orlava 
um mar calmo, de um verde-plido atravessado por claridades turquesas. Grandes nuvens cobriram momentaneamente o Sol, e um pouco de vento encrespou a superfcie 
da gua.
- Tu andas a escrever o teu dirio, Jlia? 
-  mais uma confisso, mamie. 
- No, chama-me antes Hlne. Falaremos mais  vontade, como velhas amigas. - E acrescentou: - Tens razo.  preciso, por vezes, fazer o ponto da situao para aqueles 
que amamos e para ns mesmos.  a melhor maneira de evitar os mal-entendidos. Vou dar-te um pequeno cofre onde poders guardar o teu caderno. Tem uma chave. Assim 
no precisars de ter receio da curiosidade dos outros. Era onde eu fechava as cartas do meu namorado, mais tarde meu marido, o av de Etienne.
Agora, como o tempo est bom, estou instalada no jardim, debaixo de uma das mimosas. O seu perfume  to intenso que me mete medo. E se eu passasse a ter necessidade 
desse perfume? Vs como agora desconfio de qualquer prazer? Ontem, tinha comeado a falar-te da Brigitte!

Evidentemente, tu conheces o essencial da histria. E a ela, j a viste. Trinta e cinco anos, encantadora, parecendo ter apenas trinta, extremamente bem feita, elegante. 
Finalmente, os seus soberbos cabelos louros venezianos, parecidos com os meus, o que fazia com que toda a gente falasse na semelhana entre ns. Eu devia ter desconfiado, 
pois, certamente, outros sabiam, mas o segredo fora bem guardado at ento. Ao mesmo tempo, Brigitte sorria com um pequeno sorriso de aquiescncia. Eu devia ter 
reparado nisso. Mas o meu pai parecia alegrar-se tanto com essas semelhanas... Uma famlia feliz! No o disse j? Certamente! No so sempre as mesmas imagens de 
alegria, e de pesar que desfilam perante os nossos olhos quando ns recordamos?
Nessa poca, com os meus amigos, raparigas e rapazes, eu refazia diariamente o mundo, mal feito pelos nossos pais, avs e antepassados, mesmo sendo eles gentis. 
Habitvamos ento perto de Tours, depois de termos sado de Cannes quando eu tinha um ano. O que explica sem dvida, em parte que os novos conhecimentos do meu pai 
ignorassem um drama que eu ignorava ainda mais do que eles. Ningum fizera coisa alguma para acender a minha lanterna.
Em 1982, j a marijuana e o haxixe circulavam quase livremente nos liceus, mesmo na provncia. Mas o seu consumo, era reservado apenas aos "grandes". Como eu estava 
adiantada nos meus estudos, alguns dos meus colegas tinham j quinze anos ou mais. Eu tinha fumado com eles uma ou duas vezes um charro no decorrer de certas festas 
bastante inocentes. Isso no me fizera rigorosamente nada, a no ser provocar-me tosse quando tentara engolir o fumo! No me sentia tentada. A minha vida era divertida 
e apaixonante mesmo sem isso. Jogava tnis, ia  piscina, sonhava com grandes viagens... e um pouco com a chegada do Prncipe Encantado. Ainda por cima, a droga 
metia-me medo. Houvera, durante o Inverno, uma sinistra histria de overdose que terminou com a morte de um aluno de Matemtica Superior. Apesar dos esforos da 
famlia para camuflar o drama, atribuindo-o a um acidente devido  fadiga, e  ingesto em excesso de excitantes, do gnero de Maxiton, tendo em vista a preparao 
para o ensino superior, fora aberto um inqurito, o qual revelou que o rapaz se injectava desde h vrios meses com herona, que chegara mesmo a cometer alguns roubos 
para arranjar a droga e que nessa noite, estando deprimido, injectara uma dose demasiado forte. Outros alunos, interrogados, tinham reconhecido entregarem-se a estupefacientes. 
Retiraram-nos do liceu para os confiar a diversos estabelecimentos de desintoxicao. O caso acabou por ser abafado. Mas duas famlias pelo menos foram profundamente 
feridas por essa terrvel tragdia. A me do rapaz que morreu deu entrada numa casa de sade, pois a sua mente no suportou o choque. O pai de uma rapariga implicada 
na histria, criticado no seu meio profissional, viu periclitar os negcios...
Tu tiveste razo, Etienne, em me dizer um dia que ns no nos destrumos apenas a ns prprios, quando seguimos por esse caminho, mas que ferimos tambm, por vezes 
gravemente, aqueles que mais amamos. Eles nem sempre so responsveis. E muitas vezes so sem o saberem.

Volto portanto a esse famoso sbado do ms de Junho, oito dias antes de completar catorze anos. O tempo estava magnfico, um desses dias esplndidos em que parece 
impossvel existir a infelicidade. 
Tinha ido  piscina, e a me de uma amiga minha trouxera-me de carro.
Encontrei Frdric Langlet na sala. Ele corou ao ver-me e acendeu nervosamente um cigarro. O meu pai disputava um torneio de brdege no clube de golfe. Os meus irmos 
Eric e Emmanuel tinham ido, passear com os seus amigos.
- A mam no est? - perguntei eu. - Ests sozinho?
- Brigitte disse-me que ia ao cabeleireiro a Tours, deve estar a chegar. Eu pensei que...
No terminou a frase. Eu tinha ainda os cabelos molhados; sacudi-os e arranjei-os vagamente, aproximando-me do espelho antigo existente por cima da chamin. Frdric 
aproximou-se por trs de mim. Era muito alto. Inclinou-se sobre o meu pescoo, aflorou-o como por brincadeira com a ponta dos lbios e murmurou:
- Ests a tornar-te verdadeiramente uma rapariga crescida, uma rapariga sedutora.
Voltei-me. O seu olhar, de um castanho aveludado, desceu sobre os meus seios, ainda pequenos mas que despontavam por baixo da Tee-shirt, depois fixou-se na minha 
boca. Tenho uns lbios muito sensuais. At tu, meu querido, mo costumas dizer...
- E j tens algum apaixonado?
- Vrios, o que  que tu pensas?
- Nenhum preferido? - No ia contar-lhe que pensava muitas vezes nele, que no estava com certeza apaixonado por mim! Apenas um pouco curioso! O som da voz dele 
tornou-se mais rouco.
- Eles beijaram-te?
- Evidentemente! 
Eu gabava-me, mas ele comeava a irritar-me. Por fim, afastou-se para dizer:
- E acariciaram-te! Parece que as raparigas hoje em dia so precoces.
No o bastante, pois se assim fosse eu t-lo-ia compreendido. Aproximei-me dele at quase lhe tocar, provocante e inconsciente. Ele estremeceu e suspirou:
- Ah, estas pequenas Lolitas!
S mais tarde compreendi, porque um amigo me emprestou o livro de Nabokov. Mas Frdric era ainda um homem muito novo. Em teoria, eu sabia evidentemente o que era 
o desejo, o amor fsico. Entre a educao sexual, a liberdade de linguagem que reinava l em casa e aquilo que contavam as que eram um pouco mais velhas do que eu 
e que j tinham tido alguma aventura amorosa, eu nada podia ignorar da prtica amorosa, excepto essa prtica. Encolhi os ombros e afastei-me, fazendo uma pirueta 
sobre as minhas sandlias brancas.
- Oh, no vais com certeza pregar-me moral, pois no? Perguntar-me se sou ainda virgem, avisar-me de todos os gneros de perigos, sobretudo se no tomar a plula! 
Afinal, s um pouco antiquado.

Evidentemente que eu era ainda virgem e no fundo no sabia nada de nada, a no ser a mecnica da procriao, que no ensina grande coisa sobre o prazer. Ele atraiu-me 
bruscamente, brutalmente mesmo, contra si. O que eu ignorava, sobretudo, era a violncia do desejo masculino, de como ele podia mostrar-se exigente, longe de qualquer 
sentimentalismo. Frdric colava-se contra mim. Eu no podia ter dvidas do estado em que ele se encontrava. O sexo dele estava to duro que me magoava atravs do 
tecido leve do meu vestido. A sua boca apoderou-se da minha, abrindo-me os lbios, metendo-me a lngua entre os dentes. Eu estava assustada, pensava que ele tinha 
endoidecido. Os beijos dos meus namoros do liceu eram muito tmidos ao lado daquele... As mos dele apertavam-me os seios com fora e a sua respirao era ofegante. 
Balbuciou:
- Como tu me agradas, meu Deus, desejo-te, entrega-te a mim, vers, ensinar-te-ei, ser divino, minha queridinha, no tenhas medo... 
Como no havia de ficar perturbada? J no somos cisnes brancos! O meu corpo era o de uma mulher, com as suas exigncias. No sers tu. Etienne, como mdico, que 
me poders contradizer. De resto...
Ah, meu querido, no sabia que seria to difcil de contar! Teria sido melhor se eu tivesse cedido? Afinal, talvez me tivesse amado, me tivesse pedido mais tarde 
em casamento. Mas eu descobri de repente que no o amava. No amei seno a ti, isso pelo menos devers sab-lo. Com verdadeiro amor, s te amei a ti, e amar-te-ei 
mesmo que, como eu receio, seja preciso afastar-me de ti.
- Frdric!
O grito de Brigitte separou-nos. Exprimia uma tal surpresa, uma tal clera, tive a sensao de uns tais cimes que me libertei do meu companheiro, repelindo-o com 
as duas mos apoiadas no peito dele. Depois voltei-me e encarei-a. Com lbios trmulos, a "mam" ficara imvel  entrada da porta. Os seus olhos verdes faiscavam, 
sombrios, indo do rosto de Frdric para o meu. No mesmo instante, tive a impresso de que ela nem sequer me via. Nesse dia descobri pela primeira vez a cobardia 
masculina.  sem dvida por tu seres diferente, Etienne, pelo menos assim o espero, que tenho confiana em ti. Peo-te que no traias nunca essa confiana. Isso 
seria mais forte do que eu. Nunca te perdoaria a minha decepo.
Frdric recomps-se. Com ar despreocupado, com voz irnica, suspirou:
- Ah, estas garotas. Pretendia mostrar-me um passo de dana, uma nova dana onde se representa o amor. Pergunto a mim prprio o que sero capazes de inventar e at 
que ponto isto poder chegar!
Ele avanou rapidamente para ela, beijou-lhe a mo, e eu tive a impresso de que os seus lbios se demoravam exageradamente, subiam para o pulso. Esse gesto chocou-me? 
Ou seria por causa da sua mentira? Tive a certeza de que eles os dois eram amantes, e uma imensa revolta me submergiu. A minha me, que eu respeitava incondicionalmente, 
apesar da sua juventude, que fazia com que as pessoas exclamassem: "Julgava-a irm de Julie. Me dela  impossvel!", a minha mam, to meiga, to atenta aos meus 
pequenos desgostos, sempre pronta a defender a minha causa quando o meu pai queria mostrar-se mais severo - a nossa gerao de raparigas extraordinariamente livres 
irritava por vezes esse homem de mais de cinquenta anos -,no passava de uma esposa infiel! 
 engraado como ns, que queremos libertar-nos dos velhos tabus, que estamos sempre prontas para todas as manifestaes "pela liberdade sexual da mulher", permanecemos 
reaccionrias quando se trata dos nossos pais...

No entanto, as coisas teriam podido ficar por a. Eu teria ficado profundamente magoada, mas no diria nada. A vida, em casa, continuaria como dantes. Aquele tipo, 
compreendi-o, era-me totalmente indiferente, ou melhor, era-me terrivelmente antiptico. O pior seria o facto de ele ser associado do meu pai, que sentia por ele 
uma espcie de simpatia quase paternal, protectora.
Brigitte falou por fim, e fez mal em interpelar aquele homem num tom que eu considerei de conivncia. Dessa vez, senti-me ferida por causa do meu pai. Ele estava 
a ser vtima de uma mulher que poderia ser sua filha e que troava dele, ao mesmo tempo que aquele a quem ele considerava o seu melhor amigo o traa tambm.
Aos treze anos, no se aceita tal gnero de coisas. Brigitte ordenou a Frdric:
- Deixa-nos. Mais tarde falaremos. Agora preciso de conversar com ela.
Essa frase apenas serviu para confirmar as minhas suspeitas. Sim, tinha na minha frente dois amantes, culpados. Ele ficou com certeza satisfeito por sair da situao 
to facilmente. Devia calcular que quanto mais demorasse a explicao mais tempo teria para arranjar um libi para lanar as culpas sobre mim. Quis afastar-me. Brigitte 
disse-me para ficar. Sugeri:
- Queria ir tomar duche, mam. 
Parecia-me que se evitasse aquela conversa seria como se nada se tivesse passado. Trataria de fazer com que esse Frderic Langlet no se cruzasse mais no meu caminho. 
O resto no me dizia respeito. O importante era que o pap no desconfiasse de coisa alguma, que no sofresse! Eu no queria saber de nada!
Foi ento que um raio me atingiu! Sim, no vejo outra imagem, pois fui fulminada! Brigitte, com uma voz gelada, irreconhecvel, declarou:
- Eu no sou tua me.

Captulo 3

.. Eu no sou tua me... 
Tinha ouvido mal, compreendido mal, aquelas palavras no podiam ter sido pronunciadas.
Mas a voz prosseguia, impiedosa, cruel:
- E tu, infelizmente, pareces-te com ela! Comeas cedo! S que eu no te deixarei estragar a minha vida, nem a de Jacques, nem a dos meus filhos, pois eles so realmente 
meus filhos. Tu...
Teria ela pensado que eu ia comear a gritar, que me lanaria sobre ela com as unhas de fora? Contudo, nesse momento, a verdade no chegara ainda ao meu crebro. 
Eu julgava apenas que a minha me me ralhava, e revoltava-me. Afinal, a culpada era ela! Mas as palavras jorraram da sua boca, e foi como se ela mas cuspisse na 
cara.
- A tua me abandonou-te quando tinhas quinze dias. Fugiu com o amante, o melhor amigo do teu pai, claro, o que  clssico. O que  menos vulgar  ter coragem de 
abandonar a sua prpria filha recm-nascida. Que sejas filha de Jacques ou desse indivduo pouco importa. A nica verdade  que nunca quiseram sequer ter notcias 
tuas. De resto, mais tarde separaram-se. Ela vive em Paris. Voltou a casar, creio eu.
O telefone tocou nesse instante, quebrando o silncio aterrorizado que se seguiu a esta declarao. Brigitte atendeu. Era o meu pai. Ela falou-lhe ternamente, como 
de costume. No eram eles considerados "os eternos pombinhos"? Para mim, isso foi de mais.
Fugi para o meu quarto e fechei a porta  chave. Tinha vontade de vomitar. A minha me abandonara-me, Brigitte no era minha me, os meus irmos eram apenas meios-irmos. 
E o meu pai... Meu Deus, iria tudo recomear de novo para o meu pai? Mais uma vez trado, ridicularizado, e de novo pelo seu melhor amigo? No, isso no podia ser! 
Ele devia ser prevenido, castigar, afastar o traidor, expulsar a intrigante. Eu odiava Brigitte com a mesma intensidade com que a tinha amado. Mas no ousava enfrentar 
imediatamente o meu pai, desferir-lhe o golpe fatal. Queria dormir primeiro. Ao acordar, o meu esprito estaria mais fresco.
Procurei um sedativo na farmcia da casa de banho. No havia nenhum. Apenas um frasco com ter. Eu sabia que dantes anestesiavam os operados comter e depreendi 
que se o cheirasse ficaria sonolenta. Molhei o meu leno no ter, depois de me estender sobre a cama, com as janelas fechadas e os cortinados corridos. Aspirei profundamente, 
aplicando o leno sobre a minha boca entreaberta. Adormeci. Ningum me incomodou, nem nessa tarde nem  noite.
Acordei ao romper do dia com a boca pastosa e uma dor de cabea terrvel. Prezisava de agir. Desci para a casa de jantar, onde, ao domingo, tomvamos o pequeno-almoo 
todos juntos, antes de nos dirigirmos  igreja de uma aldeia prxima para assistirmos  missa.
- Atrasada, como de costume - murmurou, sorrindo, o meu pai.

Que rosto despreocupado! O facto de Brigitte nada lhe ter dito ainda mais me convenceu da sua culpabilidade: preferia calar-se e no falar no caso ao seu marido. 
Essa dissimulao era bem prpria dela. No se tinha ela mostrado capaz de desempenhar na perfeio o papel de "verdadeira" me e ao mesmo tempo enganar o meu pai 
sem que ele tivesse a mnima desconfiana?
- Saiste ontem  noite. A que horas te deitaste? Aproveitaste a nossa ausncia para sares. Com a tua idade,  talvez um pouco cedo de mais para andares a correr 
os boums. E alm disso ningum sabe o que vocs andam a fazer. Todas essas histrias de droga me preocupam. Ns, com a tua idade, escondamo-nos para fumar um cigarro, 
mas agora o haxixe...
- No te enerves, Jacques. Est tudo bem, no
 verdade, querida?
A hipcrita! Elegante, serena, sorria-me quase ternamente.
- No! Est tudo mal. 
Levantei-me, afastando a minha chvena de ch e sem ter tocado nas torradas. A minha cadeira, caiu.
- No tenho fome, no irei  missa, estou doente, doente de desgosto, e Brigitte sabe perfeitamente porqu.
As trguas estavam quebradas. Brigitte corou. Os maxilares do meu pai crisparam-se. Eric e Emmanuel ergueram as cabeas.
- Brigitte? 
Ela tentou recompor-se, salvar a situao.
- No prestes ateno.  uma idade m para as raparigas, est nervosa, mostra-te paciente. Eu vou falar com ela.
Cheio de admirao, embevecido, o meu pobre pai suspirou:
- Tu s boa de mais para ela! Ah, se eu no te tivesse!
Era preciso abrir-lhe os olhos. Lancei pela segunda vez:
- No! - E acrescentei, dirigindo-me unicamente ao meu pai: - Eu  que preciso de falar contigo. Vou para o meu quarto e espero-te l. Deixa-os irem sozinhos  missa!
Quando ele foi ter comigo, o carro, conduzido por Brigitte afastara-se h j bastante tempo. Teria ela tido tempo de o avisar do que se passara, entre ns? E que 
mentiras teria proferido para conservar o seu belo papel? Antes de me deixar abrir a boca, o meu pai estendeu os braos para mim, mas eu no me atirei para eles. 
De cabea baixa, ele murmurou:
- Devamos ter-te confessado a verdade muito mais cedo. Eu queria, mas Brigitte impediu-me, alegando que tratava de ti desde o teu nascimento, que no tinhas conhecido 
outro rosto debruado sobre o teu bero, que eras a pequenita dela, o seu primeiro beb, que te tinha amado a ti... mesmo antes de me amar a mim. - No tomando em 
considerao a minha expresso de troa, prosseguiu: - Sem ela, que teria sido de ns, de ti e de mim? J no estou zangado com a tua me. Ela era to nova! Da mesma 
idade que Brigitte. Brigitte cuidou de ti e no era tua me, mas apenas uma rapariga que ganhava a vida a cuidar de crianas...
- E seduziu o pobre abandonado! Uma sorte ele ser rico e... ter casado com ela.
De que baixezas somos capazes, meu querido, quando sofremos! Eu sentia-me terrivelmente infeliz. O meu pai teve um sobressalto.

- Pequena imbecil! No sei o que  que fizeste ontem, pois Brigitte recusou-se a contar-me o que a obrigou a revelar-te que no era tua me... mas se soubesses de 
que abnegao deu provas! Era uma rapariga muito bonita. O mais estranho  que, fisicamente, ela se parecia com Nadine, a minha mulher. Os mesmos cabelos quase ruivos, 
os mesmos olhos verde-acinzentados. A tua me tinha apenas mais trs anos que ela. Eu  que era muito mais velho. O mal partiu sem dvida da.
O qu? Ele saberia que tambm Brigitte o enganava? Admitiria isso? Aos treze anos, mesmo hoje em dia, no podemos admitir um compromisso desses. O meu pai recapitulava 
as suas recordaes sem me prestar ateno.
- Eu estava muito apaixonado por Nadine. Incondicionalmente confiante, orgulhoso por ter uma filhinha to linda. Nesse dia, tive uma reunio com enviados do Ministrio 
da Indstria e depois um jantar, que se prolongou. Em Cannes, onde ns morvamos ento, a tua me tinha dispensado Brigitte, dizendo que a me dela iria fazer-lhe 
companhia. De resto, j se levantava h uma semana e podia muito bem dar-te os biberes. Recusara-se a amamentar-te. No tinhamos criada interna, apenas uma mulher-a-dias 
que saa s seis da tarde. Quando voltei, muito depois da meia-noite, Brigitte esperava-me na sala, chorosa. Receei primeiro a mais terrvel das desgraas... que 
tu tivesses morrido... ou ela, a minha mulher. Brigitte no ousou olhar-me de frente. Entregou-me uma carta, murmurando: "Tambm tenho uma." Eis tudo! A tua me 
partira com o seu amante. Pedia-me perdo e deixava-te aos meus cuidados, porque no se sentia com fibra maternal... e, sendo eu mais rico que Pierre-Jean, sim, 
o meu melhor amigo, era prefervel para todos que fosse eu a ficar contigo.
Qualquer outra pessoa teria pena deste homem, no  verdade? Mas eu, a sua filha, gritei:
- Esta tambm te deixar, a menos que prefira contentar-se em enganar-te. Decididamente, s cego!
As duas bofetadas atingiram-me em cheio antes de eu ter terminado a frase.
- Como te atreves? Mas tu s uma vbora. Decididamente, pareces-te com a tua me. No entanto, contigo, as coisas no se passaro como com ela. Tenho ainda qualquer 
coisa a dizer sobre o assunto. Vou tirar-te do liceu. Tanto pior para os teus exames. Vou meter-te num colgio interno, onde te ensinaro.
No era evidentemente a linguagem adequada para falar comigo. Mas ele estava muito ferido e tinha absoluta confiana em Brigitte! O poder dela sobre ele era ento 
invencvel? Fiquei furiosa, gritei, ameacei, inventei sem sequer me aperceber disso, contando que, tendo surpreendido Frdric Langlet a tentar beijar-me, ela lhe 
fizera uma cena como uma mulher s pode fazer ao seu amante, e que depois me injuriara, louca de cimes, no receando confessar que casara com ele apenas por piedade... 
e interesse...
Que terei dito mais? O meu pai recuava, olhava-me com desgosto, com dio. Por fim, vencido, gemeu:
-  horrvel!
Eu triunfava, repetia:
- Sim, ela  horrvel, meu pobre pap.
E tentei abra-lo. Ele repeliu-me, sem clera, sem censuras, mas com uma grande expresso de desprezo:
- Tu  que s horrvel! To nova e j de tal modo desprezvel!

A porta fechou-se, e eu no compreendi imediatamente o que me sucedia. Ele no acreditava em mim, renegava-me! Tambm ele! Ento, j no tinha nem pai nem me. Brigitte 
devia agora detestar-me. Nesse instante, lamentei todos os beijos que ela me dera at ento, mesmo quando eu estava desgostosa. Por isso, visto que toda a gente 
me renegava, resolvi fugir.
Uma hora mais tarde, tendo levado comigo apenas a minha escova de dentes, duas Tee-shirts, uns jeans, alguns slips e um minsculo co de pelcia que eu considerava 
como a minha mascote, fui ter com Jean-Marie Mesurat, o meu melhor amigo. Ele tinha uma grande moto, uma Yamaha.
Nessa noite estvamos em Paris. Ele foi-me levar a casa duns amigos dele. Tinha de regressar a Tours para ir buscar dinheiro. Voltaria, no dia seguinte, o mais tardar 
dois dias depois. Eu devia saber, afinal, que ele gostava de mim. Ele guardaria o meu segredo. Ficaramos juntos. Jean-Marie no sabia a minha idade. Julgava que 
eu me aproximava dos dezasseis anos. No o desenganei. Entreguei-lhe uma carta para o meu pai. No emendava nada do que lhe dissera, pelo contrrio. Cada uma das 
palavras dessa missiva est gravada na minha memria.
Estaria eu j louca? Antes de regressar, Jean-Marie planeava, repetia queamos ser felizes, mas eu sentia-me muito perturbada para partilhar essa alegria. O que 
eu sentia ferver em mim era o dio. Sabes que o haxixe acentua os nossos humores. Eu rejubilava ao pensar na minha vingana. E escrevi:
"Pap. 
Acusaste-me de representar uma comdia, de denegrir, a meu belo-prazer, uma mulher que me criara, que me amara e que cuidara de mim como a minha me recusara fazer. 
No quero discutir mais isso. No menti. s livre de acreditar mais nela do que em mim. Parti porque nunca aceitaria ser metida num colgio interno. Estou em casa 
de amigos. Os pais dele escrever-te-o se o desejares. Quero prosseguir os meus estudos em Paris. At aqui tenho sido boa aluna. Porque iria mudar? Indica-me um 
"correspondente". Visit-lo-ei regularmente. Mas preciso de uma penso para viver decentemente e pagar a minha alimentao queles que aceitam receber-me. No merece 
a pena vires ou enviares Brigitte. No vos falarei. Detesto-vos, detesto o vosso gnero de vida, a vossa hipocrisia. Se me mandares procurar pela polcia, se tentares 
levar-me  fora, se conseguires at fazer-me internar num colgio interno, provocarei um escndalo tal que os deixar por terra. Eu j nada tenho a perder. A minha 
liberdade... contra o meu silncio!"
Oh, Etienne, hoje envergonho-me. Parece-me que devia ler livros bem ridculos para escrever este gnero de carta. Mas escrevi-a sob o efeito da erva e do haxe que 
fumei, sem contar com os biscoitos com doce de haxe que comera para ficar a par com os outros. Teria bastado, apesar das ameaas que eu certamente no teria coragem 
de pr em execuo, que meu pai me viesse buscar e me falasse ternamente para eu ter voltado docilmente para casa? E se, nesse momento, Brigitte me tivesse tomado 
nos braos... explicado tudo?

Quarenta e oito horas mais tarde recebi um cheque confortvel e o endereo de um casal em casa do qual eu teria obrigao de almoar, a partir da, todos os domingos. 
Alm disso, devia transmitir regularmente as minhas notas a um advogado cujo nome e morada se encontravam juntos. O meu pai no tencionava ceder s minhas chantagens: 
agiria segundo os meus resultados e o meu comportamento. O Dr. Ferran entregar-me-ia todos os princpios do ms, em mo prpria, uma quantia que me permitiria viver 
decentemente. Eu dar-lhe-ia conta das minhas despesas. E, logo que atingisse a idade legal para a minha emancipao, as diligncias necessrias seriam empreendidas.
O meu pai assinava essa resposta sem uma palavra afectuosa. Em P. S. dava-me a morada e o novo nome da minha me. Habitava em Neuilly, na Rue du Bois-de-Boulogne...
Quando comecei a chorar, os meus novos amigos rodearam-me e anunciaram-me que iam dar uma grande festa em minha honra. Eu devia pr-me bonita e no pensar mais em 
coisas tristes. Abraavam-me, beijavam-me, consolavam-me, falando docemente e dizendo: "O amor... s o amor importa! E ns amar-te-emos, tu s a nossa irmzinha. 
Vers, aqui sers feliz. Nada mais tem importncia."
Secaram-me as lgrimas, ofereceram-me pequenos presentes absurdos, arranjaram-me a minha "cabana" pessoal. Dessa vez, quando voltei a chorar, foi de alegria: amavam-me, 
amavam-me finalmente!
Adormeci apertando a minha mascote contra mim.

Captulo 4

Ah, essa festa! - O loft onde estavam instalados os meus novos amigos servira anteriormente de armazm de tapetes. Os antigos locatrios tinham abandonado amostras 
de tecidos que agora formavam uma espcie de traje de arlequim no pavimento. Nas paredes viam-se tecidos indianos e africanos, de cores violentas, mscaras vindas 
do Extremo Oriente, instrumentos de msica exticos trazidos das suas viagens pelos membros da "comuna" ou pelos seus amigos de passagem. Biombos protegiam o espao 
que cada um arranjara como domnio reservado, com o bricabraque das suas recordaes, dos seus objectos pessoais. Estavam na sua maior parte cobertos por posters 
psicadlicos ou representando vedetas de jazz. Finalmente, o imenso aposento estava perpetuamente envolto em nuvens de incenso, de aromas de pachuli e de almscar.
Nessa noite, alm disso, havia flores por toda a parte, j um pouco murchas, que as vendedoras do mercado de flores tinham deixado. As garrafas de coca, de limonada, 
e tambm de vodca estavam alinhadas atrs do bufete, sobre o qual se amontoavam as vitualhas mais variadas trazidas pelos nossos convidados.
Deslumbrada por esse cenrio e pelos trajes extravagantes da assembleia - onde nem faltava um punk -, esqueci as ameaas que enviara ao meu pai na carta que lhe 
escrevera depois da minha chegada a Paris.
Jean-Marie apresentara-me aos seus amigos, anunciando que eu ia fazer dezasseis anos. Ningum pareceu supor que eu tinha menos dois. Todas as raparigas da comunidade, 
embora mais velhas, eram to delgadas que os seus corpos andrginos eram de adolescentes. Nessa poca, eu tinha mais seios e ancas do que elas. A droga ia encarregar-se 
da minha cura de emagrecimento! Eu tinha levado oitocentos francos de casa, todas as minhas economias. O bastante para a minha participao, durante quinze dias, 
nas despesas da alimentao. Entretanto, o meu pai enviar-me-ia com certeza os seus cheques. Tinha a certeza de que ele no me mandaria procurar. Com efeito, deviam 
estar todos encantados por se verem livres de mim. Pelo menos, era o que eu pensava.

Em dois dias apercebera-me de que os meus novos amigos se drogavam. Alguns contentavam-se em fumar haxixe, mas continuamente, desde manh  noite. Nesses primeiros 
dias, quando eles me passavam um joint, eu contentava-me em aspirar pequenas baforadas, que lanava fora como o fumo de um cigarro vulgar. S o cheiro, misturado 
com o do incenso, bastava para me fazer mergulhar numa sonolncia feliz, e deixei-me prender nos braos de um rapaz muito meigo, muito perdido nos seus sonhos, e 
que me acariciava os cabelos e os ombros, sem exigir mais, recitando poemas em ingls que eu no compreendia. Esquecia. Nessa idade, rapidamente voltamos a ser felizes. 
Nessa noite, descobri bruscamente, porque eles no se escondiam, que, dos onze que ns ramos, duas raparigas e trs rapazes se injectavam. Eu sabia que esse p 
branco, diludo num pouco de gua que eles aqueciam numa colher, era herona. Jean-Marie voltara a partir para Tours. Sentia-me um pouco assustada e jurava a mim 
mesma que no chegaria nunca quilo. Justamente nesse momento, uma rapariga que devia ter uns vinte e cinco anos e que era bastante assustadora, duma magreza esqueltica, 
com uns olhos de um azul-acinzentado, hipnticos, que me subjugaram, estendeu-me a palma da mo. No cncavo vi um p branco. Eu era totalmente incapaz de discernir 
a diferena entre o aspecto da farinha, da herona, do sal fino ou da cocana.
- Snifa, v, beb. Vers como depois te sentirs como os grandes.
Os grandes! Eu no sentia desejos de me parecer com eles. Eram pessoas como o meu pai e os seus amigos, como Brigitte e sem dvida todas as mulheres casadas, burguesas!
- O que ?
- Eh, snifa, tu vers... 
Aspirei com todas as minhas foras, como se me tivesse deitado  gua antes de nadar. Depois disso nada mais foi claro. Ter-se-o passado minutos ou horas? O rapaz 
que continuava a ter-me nos seus braos disse para a rapariga de compridos cabelos negros e encaracolados:
- Deixa-nos em paz!
- Ah, bom, tu s pela exclusividade, english, portanto se ainda no saltaste para cima dela poders agora aproveitar. As tuas passas tornam-te dbil, no?
- J disse para nos deixares em paz, percebeste?
Jef - lembrei-me de repente do nome dele - tinha na mo uma navalha, era um verdadeiro filme. Comecei a rir.
- Vai para o Inferno!
O meu terno ingls tomava ares de duro. Eu estava terrivelmente excitada. A rapariga em frente de ns gritava. Foram precisos trs ou quatro para a impedirem de 
se lanar com as unhas espetadas, visando os olhos, sobre o meu companheiro.
- Vem, vamo-nos embora.
- Para onde?
- Tu fazes muitas perguntas, tenho outros amigos, ficaremos bem, dar-nos-o um quarto; rapazes ricos, muito ricos; os pais no querem saber, esto quase sempre nos 
seus barcos. Ser bom, repara como estou excitado.
Ps a minha mo sobre o seu sexo endurecido, de uma dureza de ferro. Ao ver o meu sobressalto, adivinhou.
- No  verdade! Virgem ainda? Com a tua figura? Essa agora...  a primeira vez que isso me sucede, tu impressionas-me. No tenhas receio, eu sou meigo, isto vai 
ser... isto vai ser...

E foi! No dia seguinte, eu j no era virgem. Mas daquilo que se passara tinha apenas uma recordao imprecisa, muito terna, um pouco cmica, porque Jef se agitava, 
gemia e gritava muito. Sim, Jef era meigo, sonhador, via a sua vida como uma longa viagem atravs do mundo para a encontrar aqueles que no queriam nem guerras 
nem revolues, a no ser pacficas. Estava j condenado, mas nem ele nem eu, evidentemente, desconfivamos disso. Tinha vinte anos e recebia uns pequenos cheques 
de um tutor rico que vivia no Sussex; os seus pais tinham morrido num acidente de aviao, no decorrer duma viagem aos Estados Unidos, no sei sequer em que ano; 
Jef ficava nervoso quando evocava a sua infncia. Quem poderia compreend-lo melhor do que eu? Mas h dois anos que se injectava com herona, como de cocana, custa 
1.000 F... Era um pouco menos caro h dois anos, mas de qualquer maneira o dinheiro que ele tinha chegava-lhe apenas para comer, para ir ao cinema, ao Palace, e 
para dois dias de injeces... o que, no total, ultrapassava de longe o smig... mas obrigava-o a procurar constantemente expedientes. No compreendi imediatamente 
quais eram nem onde o iriam conduzir. Antes de fazermos amor, ele perguntou-me se as minhas amigas me tinham dado a plula. Eu no podia ficar grvida, pois era 
menor. Teria ele fugido se tivesse sabido a minha verdadeira idade? No o creio! Estvamos os dois de tal modo drogados... Jurei-lhe que no corramos riscos. Dessa 
vez tive sorte. Trs dias mais tarde tinha o perodo!
De certo modo... Etienne, esses dias da minha primeira semana de vida com Jef foram felizes, tranquilizadores. Aqui, embora no saiba se j to disse, sou obrigada 
a contar-te a maravilhosa viagem que me proporcionaram as primeiras verdadeiras experincias de consumo daquilo a que tu no gostas de chamar droga e preferes apelidar 
de estupefacientes... Mas que importam as palavras... francs, ingls, o nosso calo altera-se de dia para dia, diferindo por vezes conforme o bairro, a cidade, 
o meio. Estudantes ou pequenos vadios vindos dos subrbios mais pobres, jovens snobs dos bairros ricos, emigrantes rabes ou portugueses, cada um tem o seu snobismo 
e a linguagem correspondente. O "cavalo" no  o brown sugar, a coca tambm se chama "branca", e o termo chnouff s se usa na provncia, embora por vezes se empregue 
a palavra "Charley" para se ter o ar de estar actualizado. Bom, tu sabes isto tudo to bem como eu, o que no te falta so confidncias de drogados...
Volto a essa primeira noite. Certamente, alm das numerosas passas que eu tinha fumado, houvera tambm essa pequena pitada de p branco, primeiro recusada mas que 
mais tarde o prprio Jef me propusera. Nesse momento, ele j "partira" e sentia necessidade de ser acompanhado na sua viagem. Tive sorte?, ou a minha infelicidade 
ter sido o facto de tudo se ter passado duma maneira to formidvel dessa primeira vez para mim? No creio que pudesse ter sido de outra maneira, pois mesmo antes 
de ter fumado e snifado... j me sentia drogada! E feliz: por fim era livre, finalmente amavam-me, compreendiam-me! Ora, sobretudo relativamente ao haxixe, sabes 
como agudiza cada uma das nossas sensaes. Se eu nesse momento estivesse assustada pela minha audcia, desesperada por ter deixado a casa, angustiada com o meu 
futuro, a minha viagem teria sem dvida sido de tal modo aterrorizadora que no dia seguinte eu teria regressado, arrependida, para casa; teria pedido perdo ao meu 
pai, a Brigitte, e, quando muito rancorosa e manhosa, voltaria ao liceu, fazendo de conta, como os adultos, vergando-me aos costumes da nossa sociedade...

Mas eu, ao despertar, mais do que as recordaes amorosas, encontrei as de um extraordinrio priplo num universo onde tudo era luminoso, doce e exaltante ao mesmo 
tempo, tambm alegre, danante, sorridente, amigvel, sem problemas! Uma sensao de felicidade como eu nunca conhecera. Eis como foi, meu amor, e de resto tu sabe-lo, 
mesmo que te recuses a reconhec-lo, com receio de que, ouvindo-te, alguns ainda no drogados se deixem tentar: o grande, o nico perigo da maior parte das drogas, 
das mais duras s mais fracas, passando por todos os medicamentos, sejam eles quais forem,  que de incio do sempre um apaziguamento  angstia,  infelicidade, 
e muitas vezes nos transportam para um mundo de onde a fealdade, a maldade, a agressividade, a mediocridade esto excludas. Acabam tambm com a incompreenso de 
que os outros nos rodeiam e com o julgamento e a condenao que fazem contra ns!
 como se de repente fssemos transportados ao paraso e que, ai, um deus, uma presena, algo de irradiante, de exaltante, nos tornasse belos, leves, bons, apaixonados 
por este mundo maravilhoso e por aqueles que o povoam. Imagina o que foi isso para uma garota como eu!
Como  que no havia de sentir desejos de recomear o mais depressa possvel? Tanto mais que Jef me anunciava:
- Agora j no nos deixaremos. Tu vers, no nos amaremos como esses outros tipos que se casam e que decidem ter filhos por causa do apartamento que os pais lhes 
oferecero, dos abonos de famlia, das frias de parto e sei l que mais. Por pouco no calculam antecipadamente o montante da reforma, as heranas possveis, que 
carro compraro, em que escola iro meter os filhos, o que  que eles viro a ser, etc. Ns...
Recordo-me daquilo que tu me disseste um dia, quase maldosamente: que eu e os meus amigos ramos apenas burgueses, que talvez tivssemos sido mal-amados, mas que 
framos exageradamente mimados, e que o pior era o nosso exemplo ser nefasto, criminoso, muitas vezes, pois havia milhares de outros adolescentes, verdadeiramente 
infelizes esses, cuja infncia fora miservel, por vezes degradante, e que, com o nosso exemplo, eram indirectamente incitados a esses "parasos artificiais", tornando-se 
depois as mais lamentveis vtimas dos traficantes, dos grandes mas tambm dos pequenos dealers, que para conseguirem o veneno para si mesmos o vendiam adulterado 
- esses que no podiam comprar a droga aos porteiros dos bares chiques, onde, pelo menos, a mercadoria era boa, pura!
Eu sei! De incio no me apercebi disso. Nos primeiros tempos, vogava sobre uma nuvem. Mas mais tarde... eu prpria me injectei muitas vezes com branca em que a 
proporo de farinha, de lactose, era infinitamente maior que a de herona. Mas em certas ocasies a mistura era pior, ento... Espera, Etienne, no quero confessar-te 
tudo ao mesmo tempo. Tento contar-te os meus deslizes cronologicamente. No  fcil. As recordaes submergem-me, acumulam-se. No entanto, preciso de te contar. 
Perdoar-me-s se me repetir? Se por momentos me perder?

A casa em que Jef e eu nos instalmos, numa rua para os lados de Passy, era, como tu adivinhaste, de gente rica. Quadros, tapetes, mveis e objectos de valor. Apesar 
de teres de guardar segredo profissional, perdoar-me-s que no diga o nome daqueles que l habitavam, embora eles estivessem a maior parte do tempo ausentes de 
Paris. O pai do rapaz e da rapariga que nos deram abrigo tinha sido amigo do pai de Jef, embora este tivesse nascido em Londres e eles em Paris. Penso que o pai 
de Caroline e de Antoine S. era um fotgrafo internacional. A me fora modelo e continuava a ser um dos pilares da jet society. Mais tarde, vim a saber que eles 
prprios se drogavam h vinte anos, mas "inteligentemente"... isto , com boa mercadoria, sabendo calcular os riscos. No importa! Ele matou-se no ano passado ao 
volante do seu carro... numa linha recta... ao esbarrar contra um muro! E ela, a me, anda de casa de sade em casa de sade para se desintoxicar. Nunca mais os 
encontrei. Antoine teve sorte: apaixonou-se por uma dessas raparigas como ainda existem algumas: dinmica sem ter necessidade de excitantes, sensata sem se mostrar 
beata falsa e aceitando casar-se desde que pudesse prosseguir a sua carreira de decoradora floral, querendo ter trs filhos, mas desejando fazer um planeamento familiar... 
e achando ridculo fazer como toda a gente e drogar-se! Ele apaixonou-se loucamente por ela:  o melhor antdoto, mais eficaz do que qualquer cura de desintoxicao.
Para minha infelicidade, perdoa-me reconhec-lo, eu apaixonara-me por um drogado. Enfim, julgava-me apaixonada...
No tenho nada contra Jef: ele amou-me. Mostrou-se extraordinariamente gentil quando soube por que motivo eu desertara da casa paterna e ajudou-me na medida do possvel.
O meu pai, magoado pelas minhas insinuaes a respeito da minha madrasta, assinou todos os papis que me permitiam inscrever-me para o exame de entrada num liceu 
parisiense no terceiro ano. Eu no receava chumbar. Foi a minha nica sorte durante esses dois anos terrveis... a minha memria de elefante permitiu-me acumular 
conhecimentos bastantes para poder enfrentar qualquer examinador. Alm disso, sempre me apaixonou estudar no meio de todas as loucuras. De qualquer modo, tu deves 
sab-lo, h muitos professores que se drogam tanto como os seus alunos. As outras pessoas no se apercebem de nada se no houver um mal-estar na aula... ou se o 
estado de drogado no for evidente...
Para a admisso, bastou um pequeno empenho.
 certo que eu tinha ido cair no meio de um grupo de drogados mas que pertenciam  burguesia, a uma burguesia bastante rica. Com receio do escndalo e, tambm, para 
os deixarem em paz, a maior parte dos pais dos meus amigos cediam a muitos dos seus pedidos, e no s de dinheiro. Podiam quase sempre contactar alguma pessoa influente, 
em qualquer meio. Inscrevi-me no Liceu Fnelon. Mas, primeiro, houve as frias.
Por Jean-Marie, de passagem por Paris, soube que o meu pai e Brigitte, com os seus dois filhos, tinham partido para a Grcia. Eu recebera um cheque do meu correspondente 
oficial em Paris. Sem uma palavra, sem me avisarem dessa partida. Ningum se poder admirar que durante esse primeiro Vero de solido eu me tenha lanado num empreendimento 
de destruio: a minha prpria.
No ms de Junho festejara, sozinha, os meus catorze anos.
Jef tinha de regressar a Inglaterra. Chormos os dois quando nos separmos. Sabamos que no voltaramos a ver-nos. Ele partia em seguida para as ndias. No tencionava 
voltar a Paris antes de um ano ou dois.
- Talvez nunca mais - disse ele. Jef sabia que a droga o mataria. Morreu na Tailndia, com uma overdose. No pesava mais que trinta e sete quilos. Fazia mais impresso 
do que os cadveres vivos sados dos campos de concentrao, disseram-me... Isto foi h uns oito meses, quando eu prpria estava tambm a chegar ao fim. Quando me 
contaram, no me pareceu importante.

Ns morramos todos, um dia ou outro, desse modo. No era pior do que viver! Pelo menos, era o que eu pensava. E depois, meu querido, tantos rapazes, depois de Jef, 
tinham passado pelos meus braos, sobre o meu ventre, que eu mal me lembrava dele, o "primeiro".
Suplico-te que no tenhas cimes desses rapazes de passagem. Digo-te isto e ao mesmo tempo pergunto a mim prpria se algum homem apaixonado aceitaria... ah, tu julgas 
poder esquecer o que eu fiz? Eu receio que no.

Captulo 5

Depois de Jef partir, Jean-Marie, de regresso a Paris, tomou o lugar dele. Isto sucedeu naturalmente, numa noite em que tnhamos fumado muito. No fumvamos j simplesmente 
"charros", mas sim cachimbos de gua. Um americano que fora acolhido durante alguns dias na nossa comunidade tinha um haxixe afeg fantstico, e ns nadvamos todos 
na euforia, bebendo, danando. Estava muito calor, e quase todas as raparigas usavam vestidos de musselina indianos, de cores variadas e transparentes. Por baixo 
estavam nuas, algumas apenas com um slip. Os rapazes, de tronco nu, com umas calas to justas que no se podia ignorar se estavam excitados ou no. E, alm disso, 
o mais velho de entre ns, se era essa de facto a sua idade, porque muitos mentiam a esse respeito, tinha apenas vinte e dois anos!
Algum, com um ar misterioso, avanou com uma bandeja cheia de copos de limonada. Foi apupado, porque at ento s tnhamos bebido vinho, vodca, usque, enfim, aquilo 
que cada um conseguia roubar ao merceeiro da esquina. O roubo daquilo que nos dava prazer, alimentos ou bebidas, era aprovado; era uma maneira de nos distanciarmos 
das "boas pessoas", de mostrar a nossa revolta contra uma sociedade onde o mais insignificante comerciante nos parecia mais desonesto que ns. No falemos j dos 
nossos pais, a quem todos ns considervamos abominveis hipcritas. Tu bem sabes como os estupefacientes alteram a escala de valores: ns tomvamo-nos por anjos, 
por justiceiros, por vtimas obrigadas a transformar-se em carrascos!
Quando me entregaram um copo de limonada, hesitei. Sabia que, s vezes, os rapazes dissolviam pastilhas de LSD nessas bebidas aparentemente inofensivas para fazer 
ceder as mais rebeldes de entre ns. Mas Jean-Marie observou:
- No preciso de te enganar... tu pertences-me... sim,  cido... vais ver,  a melhor viagem que h. Eu estou aqui ao p de ti. No tenhas medo de nada.
Como toda a gente, eu lembrava-me de histrias horrveis. A rapariga que arranhara a cara toda, lacerando-se como se arrancasse uma mscara e gritando que uma nuvem 
nuclear a polura, tentando em seguida arrancar a pele ao amigo dela, que tambm estaria contaminado! Fora preciso lev-la metida numa camisa de foras antes que 
ela lhe arrancasse os olhos! E outra que, imaginando ser uma andorinha, se atirara contra as paredes at sangrar e depois se lanara pela janela, indo cair cinco 
andares abaixo, no ptio do prdio! Os pais dela, depois dessa desgraa, tinham-se suicidado, ambos.
- Tu s doida! Essas histrias dos jornalistas so para nos meter medo. Vers, entraremos no paraso, e no causa habituao. Pararemos depois desta experincia 
se ela te meter medo, mas vais ver como te libertar do teu passado, das tuas inibies.

Se Jean-Marie, mais velho do que eu quase cinco anos, soubesse a minha verdadeira idade, teria hesitado? Era um rapaz inteligente e muito lcido, decidido a todas 
as experincias, mas convencido de que tiraria delas um enriquecimento que o ajudaria, mais tarde, a afirmar-se no mundo intelectual. Confessou-me que desejava escrever 
e que tinha um deus, um modelo: o escritor Henri Michaux! No sei se ele ter tido xito. Os primeiros poemas dele foram publicados... mas de momento encontra-se 
preso por trfico de droga... A propsito de trfico: todos ns acabamos por o fazer, um dia ou outro.
Volto a essa noite de Agosto em que, pela primeira vez, tomei cido. Perguntei a mim prpria, Etienne, meu querido, como  que tu parecias conhecer to bem o que 
eu sentira no decorrer das minhas "viagens" e o que se passou em mim mais tarde, depois de j ter experimentado tudo, as anfetaminas, o pio, a cocana, e, nos dias 
de penria, a cola, o verniz e mesmo porcarias cuja composio ignoro, quando eu suplicava, a gritar, que me dessem fosse o que fosse, porque o meu corpo se dilacerava 
interiormente e porque no havia outro meio de apaziguar esses sofrimentos indescritveis que me faziam rolar por terra, no ser mais que um animal a desejar chegar 
ao fim! Oh, tu viste-me nesse estado. Como pudeste comear a amar-me quando eu era uma louca, repugnante, pois no era j muito bela, com os dentes estragados, os 
cabelos a carem em grandes madeixas.
No pequeno espelho que a tua av pendurou no meu quarto sou obrigada a sorrir, de lbios cerrados, pois infelizmente os meus dentes j no so muito bonitos, e o 
dentista vai ter muito trabalho para salvar o que puder. Mas os meus cabelos, graas a Deus, reencontraram o seu brilho. Encaracolam como antigamente e so to abundantes 
que o meu rosto fica um pouco perdido nesta cabeleira louca. - Tu gostas deles, e a tua av afirma que eu me assemelho assim a certos desenhos de Leonardo da Vinci...
 verdade, como  que tu sabias que, quando no so aterrorizadoras, as "viagens" provocadas pelo cido so, frequentemente, fericas, mgicas, paradisacas?  o 
seu maior perigo, pois, mesmo vrios anos depois, elas deixam, disseste tu, sequelas no nosso crebro, que ningum descobriu exactamente e que podem influir no nosso 
comportamento de uma maneira ainda mal definida.  tambm um dos meus receios. No por mim, mas porque tu me disseste: "Ns teremos filhos."
O efeito da limonada que bebi foi muito rpido, talvez por eu estar j drogada, por o estar desde h vrias semanas e a toda a hora!
Deixei de ver a sala em que nos encontrvamos. Os pares que danavam transformaram-se em ervas muito altas, ligeiramente agitadas por uma brisa tpida, ervas multicolores, 
cintilantes e que se tornavam cada vez mais brilhantes sob um cu cada vez mais quente. De tal maneira quente que eu despi bruscamente o meu vestido, descalcei as 
sandlias, tirei o slip e comecei a correr por entre essas ervas a cantar. Eu no era j uma adolescente com corpo de mulher, voltara a ser uma pequenita de trs 
ou quatro anos, num imenso jardim murado, e a minha me no era Brigitte, mas sim uma jovem mulher muito bonita, com os cabelos como os meus, mas que lhe chegavam 
at aos rins. Tambm ela se encontrava nua, tinha seios muito pesados, cintura fina, e gritava: "Cuidado, cuidado, no vs por a. So flores que crescem no vcuo, 
e se ds um passo nesse campo mergulhas num grande buraco e nunca mais me tornas a ver. No fundo desse buraco, espera-te o Diabo, que te assar como a um porquinho!"

Mas eu, correndo cada vez mais depressa, ria e fugia dos braos que queriam agarrar-me. Jean-Marie contou-me no dia seguinte que eu comeara a gritar: "Onde est 
o Diabo? Quero ver o Diabo!" E como estvamos todos completamente "carregados", como a temperatura era sufocante, como o cheiro do incenso e do haxixe se tornava 
tambm um excitante, os rapazes gritavam "Olha, o Diabo est aqui!", pondo-se nus, orgulhosos do seu sexo erecto. Para mim, todos esses corpos que se acariciavam, 
que caam por terra, misturados, eram
apenas um imenso canteiro, um campo de ervas loucas que me impediam de alcanar a imensa extenso de flores para a qual eu corria apesar dos avisos da jovem mulher...
Quando descobri que estava coberta de sangue e que na minha frente se estendia um imenso deserto com esqueletos esbranquiados de animais pr-histricos, o medo 
apoderou-se de mim...
Parece que comecei a rodopiar to loucamente sobre mim mesma que os outros, fascinados, me aplaudiram, julgando que eu danava para eles. Mas estaria Jean-Marie 
mais lcido que os outros? Estaria ainda capaz de se sentir responsvel por aquilo que me sucedia? O que sei  que ele compreendeu que as coisas no estavam a correr 
l muito bem para mim e que tentou levar-me para o pequeno quarto do apartamento para onde costumavam retirar-se aqueles que se sentiam mal por lhes faltar a sua 
droga habitual. Nem mesmo para fazer amor, ningum pensava nesse retiro reservado. Eu j no conhecia os outros. Debatia-me como uma louca. Tornara-me estrica e 
chamava a minha me para me socorrer, insultando-a por ela me ter abandonado e dizendo que ia morrer de sede no deserto. As minhas pragas eram obscenas, parecia 
que tinha sido criada no meio de prostitutas da pior espcie. Quando Jean-Marie tentou voltar a vestir-me, eu disse que o meu vestido estava envenenado e me faria 
morrer... Depois, ao que parece, adormeci instantaneamente. Hoje lembro-me apenas de uma queda vertiginosa no vcuo. Durante muito tempo no tomei mais LSD e no 
quis experimentar a mescalina com que Jean-Marie se drogava, sempre para imitar o escritor e pintor Henri Michaux que ele tanto admirava.
Fiz pior, sem dvida, muitas vezes sem mesmo me aperceber disso, "para experimentar", tomando tal ou tal droga mais ou menos rara que nos propunham amigos vindos 
dos quatro cantos do mundo: afrodisacos, alucinogneos utilizados por tribos primitivas, qualquer coisa... enfim! s vezes bastava o nome para ficarmos "altos", 
e sucedia-nos, quando um amigo perguntava se queramos "caar o drago", ficar stoned fumando qualquer mistura que se assemelhasse, mesmo de longe, ao brown sugar.
A maior parte desses que nos ofereciam drogas raras afirmavam que elas permitiam penetrar nos segredos do destino humano, morrer e depois ressuscitar como os xams, 
encontrar Deus... Nessa lenda nunca acreditei muito, evidentemente, mas...
Eis que volto a no terminar as minhas frases. No entanto, quando decidi fazer esta confisso, os acontecimentos que escalonaram o meu calvrio pareciam fceis de 
contar.  medida que vou fazendo a minha narrativa, eles confundem-se na minha cabea e perturba-me evoc-los. No que eu lamente esse tempo de loucura, pois essa 
experincia permite-me falar hoje da "droga" com todo o conhecimento de causa.

Mas pergunto a mim mesma se estou verdadeiramente curada, pior... se alguma vez  possvel uma cura completa dessa descida aos infernos e se no teria sido melhor, 
pelo menos para ti, no teres tentado salvar-me... no teres comeado a amar-me?
Eu estava h dois meses em Paris, em Agosto de
1982, portanto, quando aconteceu uma coisa de que no te falei, nem a ti nem a ningum. Eu tinha sido desvirginada... sem ficar grvida, por sorte. Depois aparecera 
Jean-Marie. Mas, contrariamente ao que lhe dissera, eu no ousara ir a um mdico para ele me passar uma receita de plulas contraceptivas. Com efeito, eu julgava 
que era nova de mais para ficar grvida! De certa maneira, eu era espantosamente inocente, ou antes, ignorante.
O perodo no me aparecia. Comprei o "teste de gravidez". No restavam dvidas: estava grvida! Anunciei isso a Jean-Marie, acrescentando que nem se punha a questo, 
evidentemente, de ter essa criana.
- Com certeza que no, mas tu podias ter tido cuidado. Eu julgava que tomavas a plula. s doida ou qu?
Aps algumas rplicas, o tom subiu e recriminmos um ao outro aquilo que anteriormente nos unira: as nossas revoltas contra a famlia, a minha fuga, o facto de ele 
me ter levado para Paris na sua moto, de me ter conduzido para casa dos amigos que me tinham drogado, de ter feito com que eu conhecesse Jef. Ele atirou-me  cara 
o dinheiro que me tinha emprestado, porque eu gastava muito a comprar erva, etc. Uma verdadeira zanga, como se fssemos um velho casal.
Foi nessa poca, nos dias seguintes, que tive de me render  evidncia: Jean-Marie no s no me amava como estava loucamente apaixonado por outra rapariga, por 
causa da qual ele fora para Paris. Se fizera amor comigo fora porque, nessa poca, ela estava em Itlia. De resto, qualquer rapaz e rapariga que se conhecessem tinham 
relaes ntimas sem que isso significasse coisa alguma, nem sequer que se desejassem. Era apenas uma maneira de se conhecerem um pouco melhor. E, alm disso, nas 
nossas idades a natureza fala, no  verdade?
Patrcia de A. tinha vinte e dois anos. Era uma verdadeira mulher, ela, no uma garota como eu. Alm disso era rica, tendo atrs de si toda uma famlia. No exactamente 
uma famlia como aquela para cujo apartamento Jef me levara. No tinha pais indiferentes, sempre em viagem, fingindo no saber o que faziam os filhos, nem pais como 
os meus, repelindo-os, por uma razo ou outra.
Falo muitas vezes dos nossos pais, dos pais dos drogados. No ser a ti que isso possa surpreender. Sendo psicanalista, s impelido a ver em todas as nevroses, em 
todos os comportamentos marginais dos seres humanos, especialmente dos adolescentes, uma responsabilidade paternal. Lembra-te... eu no sou da tua opinio. Sei que 
muitos pais bem piores do que os meus, alguns por ressentimento, outros por cansao, outros ainda por um excesso de severidade mal compreendida, tm por vezes filhos 
que, se no totalmente equilibrados, em todo o caso no se drogam, nem se tornam delinquentes, nem marginais.

Mas, de qualquer modo, sou obrigada a repetir que no conheo um nico pai ou uma nica me que no sejam, em parte, responsveis por problemas de que sofriam os 
meus amigos drogados - aqueles que no se limitavam a fumar um pouco de marijuana ou de haxixe, a engolir por curiosidade uma pastilha de LSD, a cheirar um tubo 
de cola ou a aspirar umas baforadas de ter ou uma pitada de cocana, mas que, sistemtica e voluntariamente, se envenenavam com herona, com morfina.... esses, 
dos quais muitos esto mortos!
A moda, o arrastamento no explicam estes dramas. No que me diz respeito, se eu no fosse uma rapariguinha desesperada, no me teria certamente injectado. E, se 
o tivesse feito, a primeira impresso teria sido suficientemente desagradvel para me impedir de recomear. Sem contar que, desde o incio, assisti ao martrio desesperado 
que vive um heroinmano quando est em carncia... Esse martrio presenciei-o sozinha, pois era Jean-Marie quem o sofria!
Na mesma manh em que lhe anunciara que estava grvida e que precisava de dinheiro para ir a um mdico que me fizesse um aborto - o mtodo mais simples, pois se 
recorresse a um hospital, como era menor, os meus pais seriam prevenidos -, Jean-Marie deu-mo. O que eu no sabia era que ele me dera o que devia ao seu fornecedor 
de "neve". Esperaria ele que esse pequeno traficante da Place Clichy lhe continuasse a dar crdito ou que algum amigo lhe emprestasse os dois ou trs mil francos 
de que necessitava diariamente?... Sim... tu sabes... chegam a precisar dessas quantias que ningum pode ganhar honestamente! E como  que as arranjavam, visto no 
trabalharem? De resto, se trabalhassem, no disporiam, evidentemente, de tais somas!  por isso que todos os verdadeiros junkies traficam, que as raparigas, e tambm 
os rapazes, se prostituem, se lanam em "golpes" em que so cmplices de verdadeiros gangsters que sabem bem o que fazem, pois esses nunca se drogam!
J te disse que Jean-Marie amava apaixonadamente uma outra rapariga. No mo ocultara. Era mais uma razo para eu me livrar duma criana para a qual eu no poderia 
nunca ser uma boa me e ele um pai responsvel. Era mais uma razo, pelo menos segundo, o modo de ver de Jean-Marie, para ele me ajudar materialmente. Fui ao mdico. 
Tudo se passou muito simplesmente, mas, certamente por se ter apercebido da minha extrema juventude, ele deu-me uma palmadinha no ombro e declarou:
- Farias melhor se voltasses para casa dos teus pais e deixasses de fumar essas porcarias.
Encolhi os ombros. No lhe tinha pago para ele me dar lies de moral. Voltei ao apartamento. Um grupo de holandeses, amigos de uma rapariga que fora para a Grcia, 
tinha chegado. s onze da manh estavam j todos completamente pedrados. Foram incapazes de me dizer onde estava Jean-Marie, mas pelas explicaes que me deram em 
mau ingls percebi que o meu amigo devia estar com problemas, que no se encontrava muito bem. Eu sentia-me esgotada e sangrava. H vinte e quatro horas que no 
comia. Bebi um caf antes de partir  procura de Jean-Marie atravs de Paris. Conhecia algumas moradas onde ele poderia estar. Bares de Clichy ou de Belleville, 
casas de amigos. Se no o encontrasse em parte alguma, iria a casa dessa rapariga, Patrcia, que vivia em Neuilly. Eu sabia que ela deveria ir no dia seguinte, ou 
no outro, para a propriedade dos seus pais em Saint-Tropez. Possuam outra nos arredores de Deauville. Eram pessoas da melhor sociedade... e da pior.

A tua av veio chamar-me. Ralhou-me por eu ficar muito tempo fechada no quarto enquanto l fora o Sol brilha. Creio que ela desconfia do que eu escrevo. Ontem  
noite disse-me:
- Confessar-se a uma folha de papel  o mesmo que confessar-se a um padre. Mas quem se confessa hoje em dia? Enfim, isso permite ao meu neto ganhar a vida, no  
verdade?
Creio que ela troava um pouco de ti e de todos os psicanalistas. E de mim tambm,  claro, embora com muita simpatia. Porque  que eu no encontrei mais cedo uma 
mulher como ela?

Captulo  6

Voltando da longa caminhada que nos conduziu pelo campo at ao Nez de Jobourg, depois pelo caminho aduaneiro at  baa de Ecalgrain, a tua av parecia menos cansada 
do que eu!
-  porque no ests habituada, ao vento, aos ares daqui, mas vais ver, dormirs sem sonhos. Com estes ares, nunca precisei de calmantes nem de excitantes. - Como 
se tivesse ficado incomodada com o que me dissera, a tua av beijou-me nas duas faces antes de acrescentar: - Minha pequena Jlia, no tentarei forar-te a contares-me 
os teus segredos. No est na minha natureza faz-lo, e alm disso Etienne ameaou-me com as piores represlias se eu te... importunasse. A palavra era mais forte. 
-  espantoso como toda a gente fala mal hoje em dia... enfim, eu sou de uma outra gerao! Sei apenas que quando fores um pouco mais velha te tornars mulher dele, 
e sei tambm que estiveste muito doente, e foste muito infeliz e que, de momento,  prefervel que no vivas em casa dos teus pais. Porqu? Isso sempre me pareceu 
um mistrio, que certos pais no queiram acolher os filhos que fizeram qualquer disparate. Eu, mesmo que os meus filhos tivessem cometido um crime...
Ri, dizendo-lhe que os filhos dela deviam, por definio, ser incapazes de cometer crimes. Isso seria impossvel com uma me como ela. Nessa altura, meu amor, podes 
acreditar ou no, tive de tal modo vergonha da minha vida que comecei a soluar. Ardia-me o peito, era como se umas garras me dilacerassem os pulmes, sufocava, 
oh, exactamente essa terrvel sensao de carncia... mas dessa vez no se tratava de carncia de droga... mas sim dessa carncia de afeio que me ferira to cruelmente 
aquando da minha fuga de casa. Dir-me-s que fui em grande parte responsvel por isso? Sem dvida! Mas recordas-te do choque que eu senti? Soluando, supliquei:
- Peo-te, mamie, se tens um soporfero d-mo. Juro que no me far mal; tenho necessidade de dormir. A fadiga, o vento no sero suficientes... preciso de dormir 
profundamente. Amanh de manh estarei melhor, mas esta noite preciso de dormir, de dormir!
Terei gritado estas palavras com tanta fora que ela tivesse sentido medo? Apertou-me estreitamente contra o seu peito, de tal modo que eu ouvia as pulsaes do 
seu corao, e comeou a chorar tambm, murmurando:
- Pobre pequena, minha pobre pequena, o que  que te fizeram?
Eu confessei:
- Isto foi mais forte que eu!... A minha me abandonou-me quando eu tinha quinze dias, e a outra, aquela que me criou, aquela a quem eu chamava mam, que eu amava...

- Chiu, minha pequenita, no digas nada. Tenho a certeza de que houve algo que tu no entendeste, um mal-entendido, sim, foi isso, um terrvel mal-entendido que 
fez sofrer toda a gente. De qualquer modo, no era razo para te deixares destruir. - E, sem te trair, Etienne confessou-me que te tinham deixado destruir. Encarregou-me 
de colar os pedacinhos, mas preciso que me ajudes, seno no conseguirei faz-lo, pois sou apenas uma velhota que vive afastada do mundo, sabendo muito pouco da 
vida moderna... a no ser atravs dos jornais, da rdio e da televiso, que por vezes deformam a verdade... tanto mais que a verdade no  muito fcil de conhecer, 
pois no?
A tua av andava de um lado para o outro na sala enquanto falava comigo, punha numa taa um ramo de primaveras amarelas colhidas junto de um talude.
Eu continuava a chorar.
- Tu ests cansada, por isso vamos fazer uma coisa. Sobe ao teu quarto, despe-te, veste o teu pijama mais quente e mete-te na cama.
- So apenas seis da tarde!
- Perfeito. Fecha os olhos e ser como se fosse noite. Respira a plenos pulmes o perfume da mimosa, pois  melhor que deixes ainda a janela aberta. Eu vou acender 
a lareira no teu quarto e depois preparar um bom jantar para ns as duas comermos l. Vamos fazer um festim, numa bandeja. S coisas boas, e abrirei at uma garrafa 
de vinho. Depois poders contar-me o que quiseres, se achas que isso te aliviar. Vers que nunca nada  to grave como imaginamos, eu sei-o bem, pois j vivi um 
pouco mais do que tu, passei pela guerra, por muitas outras coisas...
Como eu me preocupava com o trabalho que lhe estava a dar, ela riu-se.
-  bom ocuparmo-nos daqueles que amamos, no conheo mesmo melhor maneira para esquecer desgostos...
- Mas o horror, mamie... a morte antes do tempo?
- Chiu! Fecha os olhos, deixa-te levar como um nadador pela corrente, no estejas sempre a repisar no que se passou. Vai. J vou ter contigo.
Tenho a certeza, meu amor, de que a tua av te telefonou ontem  tarde depois de eu ter ido para o meu quarto. Ao princpio falava muito baixo, e eu no ouvia nada, 
mas de repente ergueu a voz, exclamando: "No, sobretudo no venhas! Deixa-me com ela. Farei melhor do que todos vocs, psicanalistas, que a encheram de perguntas. 
No me tomes por uma velha tonta, conheo bem os psicanalistas, leio revistas, livros, ouo-os falar na rdio... no te zangues, fazem um bom trabalho,  certo, 
mas Jlia agora s precisa de uma "boa" cozinha, de um "bom" sono e de ternura. De ternura, compreendes? Agora, meu rapaz, deixa-me em paz, que esta conversa vai-me 
custar uma fortuna. Quando precisarmos de ti, aviso."
O programa de mamie foi seguido ponto por ponto. Colocou duas grandes almofadas nas minhas costas para eu poder sentar-me e instalou sobre a cama uma pequena mesa, 
como aquelas que se usam para os doentes. Eu via as chamas na chamin e a luz das pequenas velas, porque, como a tua av observou, a sua luz  mais bonita do que 
a da electricidade e d um ambiente de festa. A tua av colocara tambm vrios ramos de mimosas numa jarra. Eu recomecei a chorar quando ela ergueu a tampa da terrina 
antiga. Cheirava bem, a creme de alhos franceses e a po torrado.
- Mamie, eu no sou digna de Etienne, no sou digna de entrar numa famlia como a vossa. Que vai ser de mim? 

- Minha querida, parece que estamos numa histria da Veille des chaumires. Tentemos ser um pouco mais modernas, sim? Isso no nos far mal nenhum. E mais realistas, 
tambm. Primeiro, come a sopa enquanto est quente. Em seguida, vais-me dizer o que pensas desta salada  minha moda. Os lagostins so frescos, vm de St-Vaast, 
e o queijo sou eu que o fao. O po tambm, porque agora na regio s se encontra po industrial. Tenho um truque para o fazer parecer sempre fresco e fofo. Hei-de 
ensinar-to.
Eu desconfiava que ela soubesse, mas precisava de ser eu a dizer-lho.
- Droguei-me at quase morrer, mamie. Fui transportada para Marmottan em coma, h seis meses. Fiquei muito tempo na reanimao e depois fiz uma cura de desintoxicao. 
Ao princpio, Etienne era apenas um mdico como qualquer outro, esperou que eu saisse do hospital para confessar que me amava. Quanto a mim, comeara a am-lo desde 
um certo dia em que ele me pegara na mo e me dissera: "Tu j no ests doente, Jlia. Tens necessidade de um amigo, de algum seguro e slido."
- Continua! 
Enquanto me ouvia, a tua av no parava de se ocupar de mim, servindo-me, fazendo-me pequenos sinais para que eu apreciasse o que ia comendo, deitando vinho no meu 
copo. Havia calor no quarto, mas l fora levantava-se um temporal.
O tempo muda de hora para hora nesta regio. Mas eu sentia-me extraordinariamente abrigada. O quarto estava fracamente iluminado. Mamie tirara a mesa de cima da 
cama. Ela mal comera. Tirou o seu tric da enorme algibeira do avental, murmurou que fazia aquilo por instinto e que no precisava de ver, mas que o toque das agulhas 
a baterem uma na outra a ajudava a ouvir melhor e que no gostava de ter as mos desocupadas. Era um hbito, afirmou, devido a tantas coisas que tinha sempre para 
fazer em casa.
- Estende-te. Conta.
- Mamie, ests a fazer de psicanalista!
- No estou a fazer de coisa alguma. Conta-me o que te fizeram, o que fizeste aos outros, isso tambm  importante, so s vezes essas cicatrizes que mais custam 
a sarar.
E eu comecei a falar, embora no desejasse faz-lo.
- Vivia com Jean-Marie, enfim, mais como amigos do que como amantes, embora fizssemos amor de vez em quando. Isso tem to pouca importncia entre ns, os jovens. 
Foi Jean-Marie que me levou para Paris na sua moto quando fugi de casa. Sem me fazer perguntas, simplesmente por eu lho ter pedido. Tinha mais cinco anos do que 
eu, estava a acabar o seu curso secundrio. Tinha inteno de continuar a estudar para mais tarde tomar conta do escritrio de importaes e exportaes do pai. 
Um bom negcio, cuja sede ele pensava transferir para a capital quando fosse scio do pai. Evidentemente, fumava e experimentara tambm as anfetaminas, as peps pills, 
para aguentar sem dormir e trabalhar ao mximo apesar das noites brancas e...
- Ser um super Don Juan! Houve um programa na televiso sobre as love pills, sabes, e eu estou ao corrente. No meu tempo, contudo, os rapazes de vinte anos no tinham 
necessidade de plulas... e ns tambm no...  verdade. Acreditava-se ainda no casamento, no vestido branco e na flor de laranjeira. E ento, esse Jean-Marie?

Eu julgava ter coragem para lhe contar tudo. No lhe falei de Jef. De resto, ele parecia-me j muito distante. E depois, Jef, Jean-Marie, os outros, meu querido, 
todos esses outros que tu no poders perdoar-me, tenho a certeza, e que no entanto no contaram, cujas feies eu esqueci... Ah, quando te imagino, a ler estas 
linhas. Mas estarei longe. Sozinha e longe!
- Andvamos juntos porque nos conhecamos de Tours. Foi ele que me ensinou a fumar, primeiro marijuana, depois shit, haxixe, se preferir.
Pelo meu silncio, a tua av percebeu que eu no queria contar mais, que me enervava falar da escalada que me fizera passar das drogas mais fracas para as drogas 
mais duras.
- A maior parte dos nossos amigos da comunidade tinha partido de frias, sendo substitudos por estrangeiros que no falavam francs. Eram mais drogados do que ns, 
do que eu, pelo menos. No me apercebera ainda de que Jean-Marie era um junkie, compreende, completamente intoxicado pela herona e pela morfina. Nesse fim de tarde... 
eu prpria passara um mau bocado e, para me ajudar, Jean-Marie dera-me uma grande soma em dinheiro, embora para ele o que representavam dois mil francos? Apenas 
dois gramas de "cavalo"!
O rudo das agulhas de tricotar parou. Eu no ousava erguer os olhos para a tua av. Percebi que ela estava chocada. Vi-a remexer as achas da lareira. Senti desejo 
de me calar. Com uma voz um pouco mais seca, mamie constatou:
- Julguei que conheciam a plula h muitos anos! Mas tu eras to nova! Como tudo isso  lamentvel! Mas continua, o passado  o passado. Etienne sabe? Suponho que 
ele queira ter filhos. 
- Mas eu ainda posso ter filhos, mamie. Fui a uma ginecologista, que me observou e foi categrica. Mas v, mesmo tu comeas a perceber que est tudo acabado para 
mim, que no mereo Etienne.
Eu j no chorava. Lembrava-me de um tipo taosta que repetia muitas vezes a frase de um filsofo chins: "Se temes o Inferno, salta para onde as chamas forem mais 
fortes." Continuei:
- Tnhamo-nos instalado no apartamento dos pais de Patrcia, a rapariga que Jean-Marie amava. Eu acabara por saber que tinha sido apenas uma distrao para ele. 
Ele no me enganara. Nunca me dissera que me amava. Quando voltei a casa aps o desmancho, como no o tinha encontrado em parte alguma, dirigi-me para o quarto onde 
habitualmente dormamos. Um quarto com uma moblia lacada preta e vermelha, misteriosa, extravagante como o resto da casa, excepto o grande salo de recepes. Os 
A. eram pessoas extravagantes, gente blas que gostava de corromper, mas isso no o sabia eu ainda. Nunca mais suportarei o vermelho. O espectculo que se ofereceu 
aos meus olhos... meu Deus... meu Deus... s de pensar nisso...
Isto nunca te contei, Etienne, porque tu me fazias perguntas a meu respeito e no a respeito dos outros. De resto, que te poderia dizer de novo? Provavelmente assististe 
a cenas ainda mais horrveis, viste mais drogados em carncia de droga. Mas para mim era a primeira vez. Eu amava Jean-Marie e algumas horas antes acabara de viver 
momentos que, por mais que se diga e que se pense, so dolorosos para uma rapariga. Sem querer romancear, o que  facto  que eu tinha feito desaparecer o que poderia 
ter sido o meu primeiro beb. Sim, sou incondicionalmente a favor do direito das mulheres  contracepo... mas o aborto, mesmo que seja feito nas primeiras semanas, 
deixa sequelas... na cabea!

Ao princpio, julguei que estava perante um animal: gritei!
- Cala-te ou ainda acabas por fazer com que os vizinhos chamem a polcia. melhor que me ajudes, ou acabo por enlouquecer, se o meu corao no rebentar antes disso. 
Procura qualquer coisa, procura, por amor de Deus,  impossvel que no haja nada nesta pocilga. Telefonei ao Alex e  Patrcia...
Jean-Marie resfolegava, andava de gatas pelo cho, procurava debaixo da cama, levantava a alcatifa com a faca, batia no cho como se este fosse um inimigo pessoal. 
Lanava obscenidades, injrias a Patrcia e aos pais num palavreado delirante. Vi-o de repente assoar-se com os dedos e atirar o ranho contra as paredes, dizendo 
que se aquilo continuasse cobriria todo o apartamento de dejectos, que aqueles patifes no mereciam outra coisa, que tinham at esvaziado a farmcia antes de partirem 
para o Midi! E no bar havia apenas meia garrafa de gin, com o qual ele tentara injectar-se, mas tinha deixado cair a garrafa.
- Se no me arranjas qualquer coisa, mijo e injecto-me com isso. Talvez me acalme.
Eu permanecia diante dele, petrificada. Bruscamente, ps-se de joelhos, arrastou-me e abraou-me os ps, suplicando-me que o salvasse, que sofria demasiado, que 
tinha um ferro quente no ventre, que tenazes lhe torciam as articulaes e que se isso continuasse...
Eu j no sabia que estava a falar com a tua av. Revia essa cena de Grand-Guignol e de como Jean-Marie e eu chorvamos e eu tentava levant-lo, repetindo-lhe que 
devia deitar-se, que faria o que ele queria.
- Dinheiro,  preciso dinheiro. Alex  um porco. Sabe bem que Patrcia pagar, mas no quer c vir, diz que eu j lhe devo muito, mas  mentira. E ele engana-me, 
da ltima vez havia mais lactose do que pura, e por isso fui obrigado a injectar-me mais vezes, e a minha proviso voou...
Bruscamente, vomitou para cima dos meus ps, incapaz de conter os vmitos que o faziam gemer duma maneira atroz. De repente, comeou a girar sobre si mesmo, dando 
punhaladas no ar e gemendo:
- J no vejo nada, oh, Patrcia, porque me abandonaste? Agora estou cego. Onde ests tu, quero beijar-te, peo-te, peo-te. Quero injectar-me com o teu sangue, 
assim seremos apenas um... deitar-me-ei a teu lado...
Delirava. Comecei a gritar com ele, a girar para fugir  faca que ele agitava no ar. Estava a ficar to louca como ele. O telefone tocou e eu precipitei-me para 
ele. Jean-Marie, cado no cho, gemia como um beb recm-nascido, repetindo:
- Estou mal... mal... mam... salva-me... vou morrer... tenho medo... medo.
Levantei o auscultador. Jean-Marie calara-se de sbito, como se tivesse perdido os sentidos. Eu pensei: "Est morto, preciso de fugir, de nunca mais aqui voltar!"
- Est?
- Daqui fala Pat. Ele est sem droga, no ? Vocs esto sem dinheiro, hem?
Uma voz mundana, quase indiferente, irnica. No queria sequer saber que eu estivesse ali, que dormisse com Jean-Marie.

- Parece que est a morrer! O que  que eu fao?  terrvel!
- So coisas que nos sucedem a todos. Espera, o pior j passou. Telefonei a Alex. O teu amiguinho tem sorte em eu ser boa rapariga e o meu pap ser vulnervel; assinou-me 
um belo cheque. Ainda haver bons tempos, mas desde j te previno que no pagarei a "tua" mercadoria. Tens de te arranjar como as outras. Para as raparigas no  
difcil!
Oh, Etienne, nesse momento senti-me to enojada que foi preciso ver aquele farrapo humano, que era Jean-Marie, cado sobre aquela cama suja, naquele quarto devastado, 
para no fugir e deixar o meu pobre amigo naquele estado.
Eu j no sentia as dores no meu baixo-ventre, olhava para aquele corpo imvel e rezava a Deus, sim, rezava. Todo o meu fervor dos anos da infncia me veio aos lbios: 
"Meu Deus, faz com que ele no morra, meu Deus, eu farei qualquer coisa para que ele no morra."
A voz de mamie fez-me sobressaltar. J no me lembrava de que ela ali estava, que fora a ela que eu contara esta cena degradante. A penumbra ocultou a vermelhido 
que me invadia. Mordi os lbios at fazer sangue para me impedir de contar o que se seguiu.
- Farias melhor em rezar para que Deus te curasse para sempre da tentao de fumares mesmo o mais andino dos cigarros.
Como eu no respondesse, ela levantou-se, remexeu as brasas e declarou:
- No ponhas aqui mais lenha. Terias muito calor durante a noite. Ests bem coberta.
Tentei cruzar o meu olhar com o dela. Mas ele fugia-me. Iria perd-la tambm a ela, como perdera o meu pai, Brigitte, e como te perderei a ti quando acabares de 
ler a minha confisso?
Os happy-end so para os romances que as nossas avs liam quando eram novas. Na poca das bombas atmicas, poder haver ainda um fim feliz para as nossas histrias?
- Vou trazer-te uma chvena de leite quente perfumado com essncia de flor de laranjeira. Amanh de manh preciso de me levantar cedo, para ir fazer compras a Cherbourg. 
No te levantes. Quando acordares, basta-te ligar a cafeteira elctrica. Deve estar bom no jardim. Deixo-te a mesa posta debaixo das mimosas. Mas no escrevas de 
mais. Nem todas as recordaes merecem ser lembradas.
Mamie tinha de repente um aspecto envelhecido, com uma expresso amarga na boca, o rosto sulcado por rugas dolorosas. Compreendi que estava fatigada, muito fatigada, 
talvez da vida... Beijou-me na testa com a ponta dos lbios. O perfume leve da gua-de-colnia evaporou-se depressa. Abrira a janela sobre a noite. Puxei os cobertores 
da cama e cobri a cabea.

Captulo 7

Porque no te encontrei mais cedo, meu querido? Porque no te encontrei no meu caminho no dia em que, em poucos segundos, a felicidade da minha curta existncia 
se aniquilou irremediavelmente? Ter-me-ias dito as mesmas palavras que pronunciaste h alguns meses, ter-me-ias livrado desse calvrio sem glria. Sentir-me-ia ainda 
jovem, limpa, capaz de ser amada... o que ns desejamos todos, desesperadamente...
Mas no meu caminho, a partir desse momento funesto, s encontrei censores, juzes ou cmplices. Os primeiros foram to desajeitados que a reaco normal perante 
as suas exigncias foi revoltar-me, repeli-los. Os juzes, esses, s viram um aspecto do problema. Os ltimos fizeram brilhar diante dos meus olhos os prazeres que 
eles sentiam, os seus sonhos paradisacos. Para isso, bastava provar, como eles, certas ervas, alguns ps miraculosos que eles me ajudariam a procurar. Imediatamente 
o mundo, os seres humanos, tomariam um outro aspecto, eu saberia o que era o amor, a felicidade, Deus... esqueceria a fadiga, a angstia, no veria a fealdade, a 
guerra... Imagine-se!
Apesar do meu corpo de mulher, tinha treze anos e meio, era nbil apenas h um ano! Vivendo na provncia, protegida por uma famlia aparentemente sem problemas, 
ignorava tudo das baixezas, das corrupes, das exigncias da vida. Uma boa presa, em suma, para aquilo que me iria suceder.
Como iria eu adivinhar, nessa poca de incomensurvel decepo, que por detrs dos efeitos exaltantes que se encontrava nos estupefacientes havia a morte? E, pior 
ainda, sofrimentos infernais, degradaes de traos indelveis. Tu ter-me-ias avisado disso, meu querido. Tu ter-me-ias posto em guarda, no condenando-me, mas explicando-me 
o perigo mortal que eu corria... como fizeste, infelizmente tarde de mais! Oh, tranquiliza-te. No cederei mais  tentao. Tive demasiado medo, sofri de mais. E 
alm disso quero viver, mesmo uma vida. difcil e triste, visto que no te imporei partilh-la comigo. Repito-te: no me sinto digna de tal felicidade.
Quando vejo as alegrias simples mas intensas que a tua av tira ainda de uma vida que, no entanto, se vai desgastando digo que isso pode ser possvel. Tambm ela 
sofreu golpes duros, lutos, decepes. Como  que teve coragem para continuar? Serei eu mais cobarde?
Infelizmente, sinto ainda terrveis ressentimentos contra o meu destino e aqueles a quem responsabilizo por ele. Talvez o meu comportamento no seja j anti-social, 
mas dentro de mim sinto um dio que no te confesso. Mesmo hoje, e apesar da tua ternura, me sinto hostil para com a sociedade que, fingindo ajudar-nos, nos maltrata, 
a ns, os jovens que cometemos faltas! S tu me ajudaste. Mas, na sociedade em que desejo voltar a reinserir-me, a maior parte dos indivduos so diferentes de ti, 
de mamie. Vejo-te daqui desatares a rir, declarando que no s um santo, nem ela uma mulher ideal, e que pessoas como tu e ela existem aos milhes em todo o mundo, 
que basta olhar bem  nossa volta; nem com lentes cor-de-rosa nem com lentes escuras, eu no acredito, na verdade, mas se tu o dizes...

Parei de escrever  sombra da mimosa, porque a mamie voltou de Cherbourg e me pediu para a ir ajudar a arrumar as provises e em seguida a cortar a sebe por detrs 
da casa. Ela tinha reencontrado o seu bom humor perdido ontem  noite, maquilhara-se um pouco para ir  cidade e parecia ter menos dez anos. Deve ter sido muito 
bonita. Como eu lho fiz notar, ela respondeu:
- Tenciono s-lo at  morte. Uma velha senhora bonita  mais importante do que uma rapariga bonita. Tem mais mrito; de resto, tenho admiradores, no penses que 
no.
- Como  que consegues rir to facilmente? - perguntei, acrescentando logo a seguir: - Ns, os jovens...
- Ah, no. Essa frase no, visto que eu no te imponho a eterna censura: "Vocs, os jovens!" O que  que tu julgas? Aos quinze anos tambm eu me sentia revoltada 
contra o mundo inteiro e esses "velhos" que achavam que a nossa vida era demasiado fcil e que no tempo deles...
Um pouco irritada, repliquei:
- Em todo o caso, obedeciam aos vossos pais, e as raparigas permaneciam virgens at ao casamento! Depois era o marido, o senhor. No teu tempo no se drogavam e no 
se deitavam por um sim ou por um no... A libertao das mulheres...
- Pois bem, no se pode dizer que saibas muito de histria, minha filha. E pensar que, se no fosse o que sucedeu, j estarias quase a terminar o curso secundrio! 
Aqui entre ns, acho bem que te faam repetir o ano. Falta-te um pouco de maturidade. Felizmente, Etienne vigiar-te-, visto que os teus pais concordaram em que 
permaneas em Paris. No prximo ano... tencionas prosseguir os teus estudos? Bem sei que agora todas querem ter uma profisso. No acho mal, repara. A mulher em 
casa d largas  imaginao. Tens projectos definidos? Casas-te antes ou depois do fim dos estudos?
No queria abordar esse assunto... Retorqui:
- Em que  que eu no conheo a histria?
- Tudo isso porque eu tenho setenta e trs anos! Mas em mil novecentos e vinte e seis tinha a tua idade. Sabes o que isso significa? O ps-guerra, os cabelos cortados, 
os vestidos pelo joelho, o charleston, as sufragistas inglesas e esses livros de Victor Margueritte que fizeram escndalo: La Garonne, Ton corps est a toi. O seu 
irmo Paul tinha escrito um romance: Jouir... Julgas verdadeiramente que vocs inventaram tudo? E as Demi-vierges, de Marcel Prvost, os anos loucos, isso deve dizer-te 
algo, est na moda, e os opimanos,
os cocainmanos, os Ballets Russos? Eu nem sempre vivi na Normandia, minha bela. Os meus pais eram parisienses e saam muito.

Lanada nas suas confidncias, mamie no parou. Sim, casara virgem e nunca ousara sequer fumar um cigarro egpcio, de ponta dourada, para no desobedecer ao pai! 
Mas fora simplesmente porque tivera a sorte de gostar de desporto, de tnis, de natao, e de querer manter a forma. Nessapoca, o desporto era como uma religio. 
A sua segunda sorte fora apaixonar-se pelo teu av. Um colosso, mdico de clnica geral, mais velho dez anos do que ela, cheio de medalhas ganhas durante a Grande 
Guerra que ele se recusava a usar porque odiava a guerra. Oito filhos em catorze anos de vida em comum. E de repente ele morrera com um enfarte: trabalhava demasiado 
sem conseguir amealhar nada, devido  famlia numerosa e s muitas consultas gratuitas que fazia... Mamie ficou com essa tribo, tendo o mais velho treze anos e o 
mais pequeno seis meses.
- Tinha trinta e quatro anos - disse ela - e nenhuma profisso. Ao princpio, felizmente, os meus pais ainda eram vivos e ajudaram-me. Estvamos em trinta e nove. 
Tive de meter os meus trs filhos mais velhos, entre eles o pai de Etienne, num colgio interno, os Oratoriens, em Juilly. As seguintes eram raparigas e conservei-as 
junto de mim. Elas e os mais pequenitos: Christian e Benjamim. Estvamos em Maro, e
ningum duvidava que ia haver uma nova guerra excepto eu!
Fez-se silncio, e eu no ousei dizer nada, continuando a cortar maquinalmente alguns ramos que no estavam bem alinhados.
- Precisaste de muita coragem, mamie.
- Coragem! Nem pensava nisso! Dava de comer aos garotos, cosia, remendava, corria para descobrir lojas menos caras, vigiava os deveres dos que andavam na escola, 
escrevia aos que estavam no colgio. E depois,  noite, estava to cansada que adormecia imediatamente, sem sequer ter tempo para chorar...
De sbito, mamie disse-me que fosse dar um passeio. No me queria ao p dela. Desejava com certeza que eu reflectisse em tudo aquilo que me contara.  mesa, olhou-me 
gravemente, avisando-me:
- Se te conto tudo isto, eu que nunca falo de mim,  para que compreendas que, apesar daquilo que dizem os jornais, os socilogos e em geral todos aqueles que tm 
por profisso interessar-se pelos costumes, as mudanas operadas na sociedade so superficiais. Se a plula existisse no meu tempo, a vida sexual das mulheres seria 
to livre como a vossa, sem dvida, e todas as relaes sociais e familiares teriam sido transformadas. Na verdade, no  por os homens irem para o espao nem por 
haver armas atmicas que a natureza humana mudou: no aspecto psicolgico, os nossos contemporneos no so provavelmente muito diferentes do homem das cavernas, 
e sempre foi assim. Os progressos so apenas tcnicos. Porque  que te digo tudo isto? Ah, sim. Eu tinha trinta e cinco anos, era ainda bastante bonita e, apesar 
das crianas, uma verdadeira mulher, com necessidades de ternura, de sexualidade. Como vs, no tenho receio das palavras. Julgas que no me senti tentada? J me 
esquecia... com uma famlia to numerosa, apesar da ajuda dos meus pais, eu tinha grandes preocupaes econmicas. Existem belas perfrases para camuflar a coisa... 
mas, enfim, a prostituio, receber dinheiro para entregar o corpo... percebi bem o que tentaste confessar-me quando falaste do dinheiro de que Jean-Marie precisava... 
tu, sem dvida, mais tarde... Mas confesso-te que pensei muitas vezes que muitas mulheres casadas se prostituem  sua maneira. Afinal, tambm vivem  custa de um 
homem, o marido, que nunca amaram ou j no amam.
Por fim, protestei:

- Mas, mamie, prostituir-se para evitar a misria dos filhos no  o mesmo que vender-se a qualquer homem, em quaisquer condies, apenas para obter o veneno que 
nos pode matar a curto ou a longo prazo e aps uma agonia terrvel; apenas para permitir que uns crpulas enriqueam  nossa custa. E depois... tenho a certeza de 
que tu resististe, no te vendeste. Eras uma mulher, e eu no quero conhecer a tua vida, mas se tiveste tentaes foi certamente por outros motivos... uma atraco, 
uma necessidade de amor. Antes de encontrar Etienne, eu no amei ningum. Tive apenas uma ligeira paixoneta por um ou dois rapazes, mas isso, no contou.
Mamie ligou o rdio, porque queria ouvir as notcias. Via bem que ela pensava: "Pobre pequena Jlia, que vou fazer de ti?" Perguntei-lhe se podia emprestar-me a 
sua bicicleta para passear um pouco antes de comear a estudar, pois j era tempo de o fazer. Tenho medo, confesso-te, Etienne, que a "branca" de m qualidade com 
que me injectava h um ano, e sobretudo com o que me sucedeu antes do meu coma com speed, tenha afectado as minhas faculdades da memria. Pior! Receio que essas 
porcarias tenham deixado sequelas perigosas no meu crebro, como sucedeu com alguns dos meus companheiros.
Sabes como acabou Jean-Marie? Foi apenas uns dias antes de eu prpria ficar KO.
Os pais dele fizeram crer aos seus amigos, s suas relaes, que ele se havia suicidado por um desgosto de amor. Pela bela Patrcia de A. Eu direi antes que ela 
o matou. No com as suas prprias mos, claro. No com um tiro. Mas quase sem se aperceber disso, porque hoje, apesar desse drama, ela no est muito melhor do que 
ele! Pergunto a mim mesma como ir ela acabar. S sei que, quando est lcida,  roda pelos remorsos. Os pais dela  que os deviam ter. Ser preciso que te fale 
deles, dos verdadeiros responsveis pela morte de Jean-Marie e pela degradao de Patrcia e pelo que teria certamente sido a minha morte se no te tivesse encontrado. 
Pois o medo no teria bastado, apesar do que eu disse. Pelo contrrio... quanto mais medo se tem... mais se sente a necessidade de atordoamento.
Mas eu tive a sorte de ser amada por ti! 
E tu ests mais bem colocado do que ningum para avaliar o que se diz a respeito de ns. 
"H apenas um meio de os salvar, de os curar: a priso ou o amor!"
No  bem assim. A priso... eu evitei-a, mas muitos amigos, em Frana, no estrangeiro, conheceram-na. Isso f-los mergulhar mais profundamente na ignomnia. Quer 
por a sade deles se ter deteriorado para sempre, quer por ali se terem entregado a novos vcios, quer por terem sido contaminados por presos de delito comum, muitos 
deles, ao sarem da priso, entraram definitivamente nas fileiras dos vadios, dos bandidos.
E nem te quero falar de histrias capazes de pr os cabelos em p que me foram contadas pelos infelizes que estiveram encerrados nas prises asiticas ou, mais modestamente, 
espanholas, italianas...
No, a priso no  uma boa soluo! E o amor chega por vezes demasiado tarde!

Captulo 8

Todas as manhs, por volta das oito e meia, ouo tocar o telefone. No dia seguinte ao da minha chegada, pensei que fosses tu, Etienne, que me telefonasses, mas tu 
s o fizeste cerca das dez horas, depois de estares no teu consultrio, e pouco antes de eu ir passear  beira-mar.
Ontem fui at ao farol de Omonville-la-Rogue. Havia grandes nuvens vindas de oeste anunciando chuva, mas que eram frequentemente atravessadas por raios de sol, e 
o mar comeava a encrespar-se: era soberbo. Como a tua av no me quis responder quando lhe perguntei o nome do interlocutor a quem a ouvira dizer: "Ela est bem, 
um pouco triste, mas calma, o apetite no  ainda muito, mas dorme dez horas por noite", no insisti. Quem, alm de ti, se poder preocupar assim, regularmente, 
com a minha sade? O pap? Mas ento por que razo no pediria para me falar? Brigitte... por se sentir responsvel por tudo o que me sucedeu? Ela tem razo em no 
pedir para falar comigo. Que lhe diria eu? No sei como lhe hei-de falar. No  certamente a minha me, essa mulher que no merece esse nome, pois contentou-se, 
porque no podia fazer outra coisa, em conservar-me nove meses dentro do seu ventre! A propsito...
Disseste-me, ontem  noite, ao telefone, que eu devia continuar a escrever a minha histria, que era a melhor maneira de me livrar dos meus fantasmas assustadores, 
pois fora comigo que decidiras casar e no com esses seres sem consistncia real! E acrescentaste: "Cada coisa a seu tempo ..." Tens razo: a altura de falar dessa 
mulher desconhecida, a minha me, vir mais tarde. Devo voltar a esse dia terrvel em que fui encontrar Jean-Marie em carncia de droga, e em que conheci um certo 
Alex, cujo apelido ignorei sempre, e, por causa desse encontro, os estranhos pais de Patrcia de A.
Foi tambm devido a esse encontro que me injectei pela primeira vez com herona. Depois disso, a minha derrocada foi particularmente rpida, espectacular, sem dvida 
por causa de eu ser to nova. Tu conheceste o desastroso ponto final e todo o meu dossier, as minhas confidncias, ou antes, as minhas confisses deram-te a conhecer 
as principais etapas. Mas no dossier de um drogado os factos mais trgicos tomam uma forma abstracta. E quando eu te falava, respondendo s tuas questes, permanecia 
desconfiada. Ns, os junkies, mentimos quase maquinalmente quando nos interrogam. Mentimos tambm a ns prprios: no vivemos num mundo real, mas sim num universo 
de delrios, de xtases, seguidos de pesadelos insuportveis.
Agora esforo-me por descobrir a verdade. No  fcil, tanto mais que a lembrana de certas recordaes me assusta e certas imagens ainda hoje me fazem tremer. Sem 
dvida porque agora vejo ainda melhor quais foram as dramticas consequncias para o pobre Jean-Marie e as que, logicamente, me iriam dar um fim idntico!
Eu estava a limpar, o melhor que podia, o quarto que jean-Marie sujara. Do estado angustiado, com lgrimas e gemidos, ele passara para uma agressividade demente, 
mas apenas em palavras. Eu s the dizia:
- Alex vir. Patrcia telefonou-lhe de Saint-Tropez. Ele jurou que vinha.

- Ele mente,  um porco dum passador, um vadio que sonha com raparigas da alta, mas a Brigada de Estupefacientes j o topou h muito tempo, e ele sabe-o, e no se 
aventurar a vir aqui, pois receia uma armadilha, e ento iremos todos presos, mesmo tu com esse ar de inocente! Quem sabe at se ele no nos denunciou j? Tenho 
a certeza de que os da Brigada o deixam andar  solta para apanharem outros ao mesmo tempo que ele. So uns porcos, a poltica est por detrs de tudo isto, compreendes? 
O que eles merecem  uma bomba. Irei eu prprio, p-la. Olha, em casa dos pais de Patrcia. Queres?  fcil, e tanto pior se formos tambm pelos ares... pois tudo 
isto ir acabar forosamente assim. Mas no faz mal, este planeta est podre. J imaginaste que belo fogo-de-artifcio? Melhor que Pompeia ou que Sodoma e Gomorra: 
ns somos Sodoma e Gomorra, poderamos brincar com o fogo do cu. Seria uma grande brincadeira, no achas?
O delrio dele assustava-me ainda mais do que os vmitos. Quando ouvi dois toques curtos da campainha seguidos de um terceiro, mais prolongado, o sinal, soltei um 
suspiro de alvio e fui abrir. O tal Alex estava  porta. Tinha o aspecto de um correcto empregado de uns grandes armazns. Fato cinzento-escuro, apesar do calor, 
lao, culos com aros de tartaruga, discreto, um sorriso nos lbios fechados. No reparei no olhar dele.
- Alex?
- Chiu. Nada de nomes... Como se fosse o seu verdadeiro nome. Entrou. Era fcil perceber que era a primeira vez que ali ia. No precisava de explicar:
- No tenho o hbito de me deslocar. Que se passa?
Vi imediatamente que o luxo do apartamento o intimidava. Mas Jean-Marie, apesar do seu estado, ou por causa de os seus sentidos estarem particularmente despertos, 
apercebeu-se tambm da chegada de Alex.
Lanou-se literalmente contra o homem, suplicando, de mo estendida:
- Depressa, no aguento mais, vou enlouquecer...
- Calma. Tens sorte em teres quem te apaparique. Pat jurou que me enviava o montante da tua dvida. Esta tambm trabalha para ti? Parabns!
No compreendi o que ele insinuava. Jean-Marie abria febrilmente o pequeno saco, provava com a ponta do dedo o p branco. Alex resmungou:
-  da boa, da melhor. No te preocupes. - Jean-Marie estava nu, mas tinha na mo uma colher, um garrote e uma seringa.
- Ajuda-me! - Dirigia-se a mim. Alex afastara-se com um ar desdenhoso. Aquilo no lhe dizia respeito. Compreendi que no se tratava de um passador habitual, desses 
que vendem droga para arranjarem dinheiro para se poderem envenenar tambm. No, Alex nunca devia ter sequer dado uma passa. S o dinheiro lhe interessava, e agora 
parecia fazer o inventrio dos quadros e dos mveis da sala para onde tnhamos voltado.

Por ordem de Jean-Marie, tirei com a colher um pouco de gua duma jarra de flores; estava suja, mas ele fez-me sinal que no queria saber disso; depois, ele prprio 
despejou o p branco nesse lquido, pedindo-me para acender por baixo da colher um isqueiro de mesa que ali se encontrava. Tremendo, encheu a seringa. No creio 
que ele a tivesse esterilizado e recordei-me de histrias de abcessos, de envenenamentos, de ttanos e de agonias por entre as mais atrozes convulses.
- Tu s doido!
- Cala-te! Contenta-te em apertar o garrote. No meio dos hematomas escuros, apanhou a veia.
Enterrou brutalmente a agulha, e uma gota de sangue misturou-se ao lquido. Ento, lentamente, voluptuosamente, com um suspiro de algum que acaba de escapar a um 
perigo mortal, Jean-Marie comeou a injectar-se, esvaziando o contedo da sua seringa at  ltima gota.
Antes mesmo do fim da operao, os seus traos apaziguaram-se. A transformao era espantosa, e eu sentia-me ofegante perante essa surpreendente metamorfose.
- Vem, querida. 
Retirava a agulha e chupava-a como fizera antes de a enterrar no brao. Dessa vez no o fazia por uma questo de esterilizao - os drogados acham que a saliva  
desinfectante -, este ltimo gesto devia-se ao facto de no querer perder uma nica gota do precioso lquido!
Poucos minutos depois, o rosto dele reflectia uma enorme felicidade, uma grande paz, e a sua voz fez-se meiga para dizer:
- Eis a felicidade. Tu s a minha irmzinha muito querida. Vais ver, Patrcia e eu havemos de te amar ternamente, com um amor que os outros ignoram, assexuado, anglico... 
o mundo  to belo, to fraterno graas  White Lady... a Dama Branca... Acho que no se lhe pode dar um nome mais belo. Deixa-me sozinho com ela. De resto, Patrcia 
tomar com certeza o primeiro avio para vir ter comigo. Devemos primeiro ficar ss, depois acolher-te-emos e irs connosco para Deauville, onde sers feliz como 
ns. Sabes, em redor de Patrcia s h seres maravilhosos, no so pessoas como as outras...
Fugi. Parecia-me que, se no fugisse imediatamente, iria querer experimentar injectar-me tambm. Ora Alex no levara seno a quantidade necessria para quatro xutos, 
para ele se aguentar at ao dia seguinte  noite, quando muito. Felizmente, entretanto Patrcia voltaria. Ela ajud-lo-ia. No
era maravilhoso ter uma amiga, um amigo que nos salvava do inferno?

Na rua, corri, a chorar, para o metro. Vira o inferno de Jean-Marie. Chegando ao bairro dos Halles, dirigi-me para o nico stio em Paris onde seria acolhida sem 
me fazerem perguntas. Lembrei-me que, ao passar pela sala, em Neuilly, ficara admirada de no ver Alex. Tambm ele se esquivara. Quem me dera nunca mais ter visto 
esse sinistro individuo! Mas quando ele se cruzou outra vez no meu caminho, eu encontrava-me no ponto exacto em que os drogados j no so capazes de reflectir, 
de se defender, de resistir ao mal. O mal apodera-se vitoriosamente do crebro, do corao e do corpo deles.  uma posse absoluta, demonaca. Como os outros, depois 
de ter experimentado os alucinogneos, as anfetaminas e todos os outros venenos que encontramos e utilizamos quando estamos sem dinheiro e j esgotmos todas as 
maneiras de tentar arranj-lo, acabei por me xutar regularmente com herona, a rainha das drogas, a perfeita, a do flash que se prolonga, aquela que permite planarmos 
no stimo cu... e que, um dia, nos envia para l. Mas a ideia da morte no deter nenhum daqueles que se tornam dependentes dessa poderosa senhora: a herona, o 
p da felicidade...
Como a chuva comeou a cair em grandes btegas e o vento a soprar diabolicamente, fazendo estalar os ramos da mimosa que ficava perto da minha janela, e eu sentia 
frio, desci com o meu caderno para a sala de estar. Mas a hora do almoo, e sobretudo a do correio, aproximava-se.
No tenho necessidade de te repetir que as tuas cartas dirias, por mais curtas que sejam, representam para mim o pequeno vitico que me ajuda a entrar nos meus 
dias. Pois se a minha sade fsica est, creio, definitivamente salva, outro tanto no ousarei dizer da minha sade moral. Tenho ainda necessidade de que tu me ampares. 
S tu o podes fazer. E se tenho cada vez mais a convico de no poder aceitar usar um dia o teu nome, deixa-me ser fraca durante algumas semanas, alguns meses ainda: 
conserva a tua ternura e a tua amizade por mim quando deixares de sentir o amor, o que acontecer logo que acabes de ler esta confisso.
Como se tivesses adivinhado que eu chegara ao momento em que estas confidncias se tornariam mais difceis, porque a minha vergonha seria maior, a tua carta desta 
manh  mais apaixonada do que de costume. Lembras-te de um dia em que eu troava um pouco da tua extraordinria reserva, do teu modo de corar... tu, um mdico com 
mais dezasseis anos do que eu... porque me tinhas abraado com a violncia de um amante impaciente? Repelindo-me meigamente, recuperando o flego, murmuraste: "Antiquado? 
E porque no? O amor, a paixo existem desde sempre. No esto "na moda". Derivam de algo sagrado: a vida. No quero cometer um sacrilgio, rebaixar o amor, o nosso 
amor, corpo e alma, a uma moda que me obriga a fazer amor por um sim ou por um no, por receio de parecer velho! Se tenho medo de te falar do meu desejo  porque 
tu s apenas uma rapariguinha, apesar da tua aparncia... e do que fizeste..."
A tua carta de hoje, meu amor,  a de um amante, repetindo-me que no imaginas a vida sem mim, que dormes mal porque a minha imagem te persegue, que se desses ouvidos 
a ti prprio virias esta noite mesmo e fixaramos os dois a data do casamento. Afinal, eu tenho a idade legal. Daqui a poucos meses farei dezasseis anos. H outras 
raparigas que se casam com esta idade. Isso no teria nada de extraordinrio, de escandaloso...
No sabes, Etienne, que sinto desejos de me entregar a ti, com ou sem casamento, aceitando antecipadamente que tu me rejeites em seguida, visto eu no merecer melhor?
Comecei a cantar e a danar. No entanto, na rdio, davam um trecho da Paixo Segundo So Mateus, de Bach!

O mau tempo continuou depois do almoo, e, como mamie precisava de ir visitar uma vizinha doente, voltei ao meu caderno. Tenho de acabar de te contar tudo sobre 
Jean-Marie, sobre Patrcia de A. e sobre o mundo onde essa rapariga introduziu Jean-Marie e para o qual me arrastou tambm a mim. No penses que o fez por perversidade; 
tambm ela foi apenas uma vtima. No direi a mesma coisa dos pais dela. Mas desta vez no se trata de acusar adultos de incompreenso, de esprito reaccionrio 
ou de frouxido. No digo que eles fossem egostas ou que no quisessem perder muito tempo a educar os seus filhos; no, era algo mais subtil do que isso. Os A., 
muito ricos, muito indiferentes e pervertidos, tinham perdido h muito tempo todo o sentido dos valores reais da vida. O exemplo deles no podia deixar de se fazer 
sentir sobre os dois filhos, Patrcia, de vinte e dois anos, e o seu
jovem irmo, Eric, que acabara de fazer dezoito anos. Creio que, apesar de mais tarde ter ocorrido a morte de Jean-Marie, da qual eles foram indirectamente responsveis, 
no avaliaram ainda o seu crime. Vivem num outro mundo, talvez pior do que o dos mais carenciados, apesar das aparncias.
Mas, meu Deus, como essas aparncias eram fascinantes, capazes de deslumbrar outros mais sabidos do que eu!
O Natal aproximava-se, e eu no voltara a ver nenhum membro da minha famlia. Vivia mais ou menos agradavelmente com os meus amigos, no grande loft perto do Centro 
Pompidou. Era uma vida livre, cheia de festas, de msica, de pequenos e grandes amores, por vezes tambm de dramas, mas aos quais no dvamos grande importncia.
Sem conhecerem a minha verdadeira idade, chamavam-me, no entanto, "beb", ou baby, conforme a disposio era extica ou familiar. Fora das nossas relaes na comunidade, 
ns mantnhamos, pelo menos os mais novos, os menos intoxicados, as nossas relaes com o exterior e uma certa vida social.
Os drogados possuem um grande poder de dissimulao, tu bem o sabes, tm dotes de supercomediantes, e eu iria jurar, ainda hoje, que muitos pais de membros do grupo 
no desconfiavam que os filhos fumavam, snifavam e at se injectavam. Atribuam a sua excitao, estranheza ou apatia ao "comportamento da juventude actual", pensando 
que dentro de uns quinze anos os filhos se lhes assemelhariam: carro, televiso, mulher e filhos... Talvez nem todos se enganassem, mas outros...
Visto tu teres estado obrigatoriamente em ligao com os polcias da Brigada de Estupefacientes e perante delinquentes menores, sabes melhor do que eu quantos entre 
ns acabam mal: quer seja na morgue, na priso ou nos servios psiquitricos dos hospitais. Fala-se disso quando o heri da aventura  filho ou filha de uma celebridade. 
Quanto aos outros, faz-se silncio. Para qu dar realce a histrias que, em vez de alertar os que utilizam estupefacientes, os incitam a mostrar-se mais astutos, 
ou a fazer adeptos, como para se vingarem? Que existam cada vez mais drogados, mais intoxicados, de alto a baixo da escala social, no deve ser denunciado. Pelo 
menos uma coisa que serve para enriquecer alguns!
A verdade  que aqueles a quem a droga, todas as drogas enriquecem, permanecem inacessveis. Em grande parte porque eles prprios no tocam nunca em qualquer espcie 
de droga, mesmo que se trate de uma inocente marijuana. Sabem bem de mais que a grande escalada, com a qual eles conseguem fortunas fabulosas, comea com a primeira 
passa. A menos que se tenha uma vontade e uma maturidade de esprito que, de qualquer modo, no podia ser a minha nem a dos meus amigos.
Fui convidada por Jean-Marie e Patrcia - ela tornara-se minha amiga - para ir passar o Natal na vivenda dos pais dela perto de Deauville, que se chamava Nabucodonosor, 
e mais familiarmente Nabu. Isso devia ser todo um programa. Mas quem seria capaz de a associar  Babilnia? No eu, com efeito, apesar dos meus estudos clssicos.

Aquela casa e os seus convidados deslumbraram-me. Compreendi por que razo Jean-Marie se apaixonara to loucamente por Patrcia. Ela estava  altura do cenrio, 
onde evolua.

Captulo 9

Por momentos, Etienne, queria abandonar a minha prpria histria para te contar as de tantos amigos doentes, por vezes mesmo j mortos, todas to lamentveis, e 
receio no haver nenhuma que acabe bem. No  a ti que irei dizer em que mal-estar vivemos todos, por uma razo ou por outra, jovens e menos jovens, ricos ou pobres, 
com ou sem famlia; no te irei repetir que o mundo est doente, e talvez ainda mais noutros pases do que em Frana. Para que serviria isso? Tu sorririas, vagamente 
superior, respondendo-me: "Tu s to nova, minha querida. Que sabes tu da vida, dos homens, da marcha do mundo, da poltica?"
 certo! E no tenho inteno de fazer acusaes nem de sugerir remdios. Tenho muito que me preocupar comigo mesma. Alm disso, no quero esconder-te, se a minha 
confisso me parece necessria, por honestidade para contigo, que s encontro temor quando recordo os dramas que eclodiram  minha volta e terror ao recordar certas 
histrias que me foram contadas...
Como aquela do jovem camionista que metia cocana para se manter em forma, a fim de poder dormir o mnimo, e ao qual um passador dera cianeto em vez de coca... O 
rapaz injectou-se sem deixar de conduzir, teve morte imediata, e o camio desgovernado esmagou vrios carros antes de se voltar e se incendiar. Total: dez mortos 
e trs feridos graves!
 sobretudo entre os drogados mais pobres que ocorrem os casos mais srdidos e mais trgicos: os passadores do-lhes a pior mercadoria, p misturado com detergentes, 
farinha, lactose... quando eles no se vem obrigados, para satisfazer a sua paixo, a engolir ou a cheirar seja o que for!
Mas volto  minha estada em casa dos A. Eram muito ricos. Cool... sob todos os aspectos. Desportivos, enfim, ao mesmo tempo que cultos e snobes. A perfeita mistura 
para fazerem mais ou menos parte do Tout-Paris, da jet society. Equitao, esqui, iates, prancha  vela,  claro, e para os mais exaltados viagens s ndias, ao 
Egipto, a todas as ilhas paradisacas. Em resumo, a bela vida!
Acrescento que, no conjunto, eles eram belos, justamente porque se mantinham em forma. Contudo, aborreciam-se, e apesar da aparncia sentiam-se terrivelmente mal. 
Tinham, alm disso, uma curiosidade doentia por todas as sensaes, erticas ou mais subtis: drogavam-se, portanto, e desde h muito tempo, pelo menos o pai.
Fora ele que arrastara os outros. No existe nenhum drogado que no faa adeptos, pelo menos quando tem dinheiro. O pai dele fora oficial na Indochina e provara 
o pio desde a infncia, mas muito cautelosamente. Em seguida, aps um acidente de carro e uma convalescena dolorosa, habituara-se  morfina. Da  herona vai 
apenas um passo, que ele transps rapidamente. Mas h mais de dois anos, em Nova Iorque, tomara o gosto pela cocana, e aumentava rapidamente as doses, que lhe davam 
a sensao de um dinamismo centuplicado, de uma inteligncia e de uma acuidade de pensamento mais afinados. Sonhava abandonar o seu job. Perdoa-me se no te digo 
mais.  um senhor muito conhecido, muito importante, muito poderoso... ns teramos, ambos, aborrecimentos.

Pode ser que ele prprio os venha a ter um dia, embora no o creia: ele conhece demasiados segredos de todo o gnero. Mas dizia a quem o queria ouvir que havia de 
escrever um livro, que faria sensao. Tambm no acredito nisso. Muita gente se iria suicidar antes que ele escrevesse a primeira linha. Para levar a vida que ele 
e o seu "grupo" levavam, era evidente que tinha de traficar de qualquer modo, vigiado pelos verdadeiros patres da droga, que desconfiam sempre de um drogado.
Esse homem tem outra fraqueza: as mulheres... sobretudo as rapariguinhas. Tinha cinquenta e cinco anos quando, o conheci. As suas experincias erticas eram muito 
complicadas, e Jean-Marie deu-me a entender que ele estivera envolvido, numa srdida histria de homossexualidade ligada a uma rede de fotgrafos que utilizava crianas 
muito novas dos dois sexos. A mulher dele, me de Patrcia, divide-se entre dois amantes: um, Arnaud, com mais de sessenta anos, uma antiga ligao; o outro, Serge, 
um jogador de tnis, designado como uma das nossas esperanas internacionais.  mais novo que Patrcia e no acredito que no prefira a filha  me, ainda que Marie-Hlne 
de A. possua um imenso encanto. Tomam-na por vezes pela irm mais velha da filha. Serge, muito preocupado com a sua forma, contentava-se com alguns charros de marijuana 
 noite; mas Arnaud de R., que tinha tambm vivido na Indochina, fumava pio desde sempre, com excluso de qualquer outra droga, s quais negava a nobreza que atribuia 
ao seu veneno pessoal, cuja utilizao exigia um ritual que lhe era particularmente querido. Dizia-se que o casal de jovens asiticos que o servia lhe proporcionava 
os prazeres que ele no encontrava junto de Marie-Hlne, nem mesmo com as call-girls de luxo, pelas quais no ocultava o seu gosto.
Eis em que casa eu fui cair, eu, ainda de tal modo "cisne branco", apesar de tudo! 
Marie-Hlne e Antoine de A. receberam-me calorosamente. Ela, divertida com os olhares que o marido me deitava, sem que eu parecesse ficar perturbada, travou imediatamente 
amizade comigo. Nessa poca, ainda mais do que hoje, eu sentia necessidade de uma afeio maternal como a que tinha irremediavelmente perdido. No desconfiava.
A propriedade, o ambiente, os prazeres, as gentilezas dos meus anfitries, tudo era maravilhoso. At Patrcia, ao princpio um pouco ciumenta, se mostrava para mim 
a mais simptica das "irms". Sentia-me deslumbrada. A vida... era aquilo! No via mais que o meu prazer imediato.  certo que  noite ns fumvamos todos, falando 
de pintura, de msica, de literatura. Eu ouvia-os, admirada com aquela gente to brilhante. No os vira injectarem-se nem snifarem cocana. Sem dvida estavam  
espera de me observarem, para estarem seguros de mim e poderem viver como de costume.
Era um fim-de-semana de meados de Setembro, mas fazia calor como no auge do Vero. Tnhamos ouvido, msica durante todo o dia, Mozart, mas tambm Chats Sauvages, 
Stockhausen e Alain Souchon! Um pouco irnica, Marie-Hlne emprestara-me um
vestido de algodo branco que tinha nas costas um grande sol carmesim. Comeou a falar-me do Tao. Era apaixonante, e o haxixe vinha tambm do Afeganisto. Apesar 
dessa guerra, ou da do Lbano, o melhor haxixe vinha ainda desses dois pases, por no sei que perigosos caminhos.

Nem sequer me apercebi de que o tempo ia passando. Sentia-me to bem. Marie-Hlne falava-me de coisas interessantes com a sua bela voz meiga. A noite caa j muito 
mais cedo do que no Vero. Um grande silncio reinava por toda a casa. O jardineiro regava os relvados e os canteiros de flores.
- J experimentaste cido, minha queridinha?
- Oh, isso! No quero experimentar mais nenhuma vez. Sabes, Marie-Hlne...
Tinha-a tratado maquinalmente por tu, como se fosse uma amiga da minha idade. Ela corou de prazer e murmurou:
- Como tu s gentil!... e to encantadora, to pura ainda... peo-te, trata-me por tu, no somos ns amigas? Sabes que podes contar comigo em qualquer ocasio?
Estvamos j um pouco tontas, tanto mais que em vez de bebermos gua quando tnhamos sede, bebamos gin tnico com mais gin do que gua tnica.
- Fizeste uma m viagem? Talvez fosse por estares infeliz nesse momento. Aqui ests em segurana, no  verdade? Todos te adoramos! Virs passar os fins-de-semana, 
e, em Paris, se tiveres necessidade de ns... de mim em particular... Patrcia s vezes  muito dura... parece-se com o pai. Mas no se trata de LSD.  muito melhor.
-  psilocibina? Verdadeiros cogumelos mexicanos trazidos de l? Mescalina?
Ela comeou a rir e apertou-me contra si. Senti os seus seios um pouco moles contra o meu peito.
- Tu sabes muito!  o nosso Jean-Marie que te ensina. Pobrezinho. Ele no sabe controlar-se. Quando estiveste com ele nunca tiveste aborrecimentos? Patrcia estava 
to preocupada no outro dia. E aqueles telegramas! Tem cuidado quando telefonares. Ns estamos obviamente sob escuta. H muito tempo que fomos detectados.  uma 
sorte termos bons amigos. Mas por vezes os amigos mudam de campo! - Depois, num tom grave, mais confidencial, prometedor ao mesmo tempo, murmurou: - Confia em mim. 
Eu s desejo a felicidade de uma bonita rapariga como tu. Conheces o STP?
- Ah, Serenidade, Tranquilidade, Paz...  isso?
- Vais ver,  o prprio universo do divino, do
xtase, como se se sentisse orgasmo aps orgasmo, e no tenhas medo, no causa habituao.
Aqueles que nos querem fazer experimentar uma droga, querido Etienne, tornam-se poetas para descrever as sensaes que ela pode dar. De resto, no tinha eu provas 
de que naquela casa todos viviam numa perfeita harmonia? Exceptuando Jean-Marie, os outros pareciam viver uma existncia feliz, fcil, como pelo menos nove dcimos 
da humanidade desejariam ter. Foi mais forte do que eu. Supliquei:
- Sim, por favor, Marie-Hlne, deixa-me experimentar!
E ela, de repente, acrescentou: 
- De qualquer modo, s vezes, os nossos piores fantasmas vm  superfcie com o cido. O STP liberta-os, para nos libertar: isso pode ser perigoso. Mas faremos isso 
depois do jantar, vo sair todos, querem jogar e acabar a noite no Reginskaia. Tu fingirs estar fatigada e eu direi que fico a 

fazer-te companhia, porque esta noite os criados saem tambm e eu no quero deixar-te sozinha em casa. O STP, como o LSD, no se deve tomar quando se est sozinho. 
De resto, eu acompanhar-te-ei. Os meus fantasmas so ternos, no tenhas medo. E se me confundires com o teu pior inimigo e sentires desejo de me lacerar com as tuas 
bonitas unhas... espero ser capaz de me defender.
Era tarde de mais para me assustar. Da minha experincia com o cido s recordava belas sensaes!
Os homens e Patrcia regressaram a casa para mudar de roupa. Tinham decidido ir jantar a Deauville. Tudo se passou como tnhamos combinado, excepto Marie-Hlne 
ter dito que estava com uma atroz dor de cabea e que queria que eu lhe fizesse companhia. De resto, eu era demasiado nova para a festa que eles tinham planeado.
O olhar irnico que Antoine deitou  mulher devia ter-me alertado. Patrcia e Jean-Marie, Serge e Eric, igualmente presentes, no ligaram importncia. Iam encontrar-se 
com amigos da idade deles e pareciam no dar pela minha presena.
O Senhor de R., beijando a mo de Marie-Hlne, murmurou:
- Invejo-a, minha cara... talvez amanh seja convidado...         Ele habitava numa sumptuosa vivenda, mesmo em Deauville, com terrenos para treinar os seus cavalos. 
Acrescentou, sorridente:
- Tenha bons sonhos... viva encantadoras realidades, tem o que  preciso para isso. Mais tarde me contar.
Marie-Hlne tinha mandado preparar uma bandeja com acepipes leves, saladas e uma variedade de pastis que ela dizia serem receitas tailandesas, alm de uma garrafa 
de champanhe. Eu j bebera demasiado durante o dia. Planava nas nuvens de cores suaves com laivos de ouro.
Marie-Hlne ps uma cassete com msica indiana. Um raga de Ravi Shankar, o Raga de ]a Nuit commenante. Acendeu paus de incenso. A iluminao, uma vez corridas 
as cortinas, era avermelhada, proveniente de pequenas lanternas de cobre arrendado. Depois, acendeu crios filiformes, de cera pura.
- Roubei-os numa pequena capela ortodoxa, solitria no seu minsculo rochedo grego. Se quiseres, levo-te l em breve. O tempo est bom at fins de Outubro, e nessa 
altura j no h turistas. Viveremos ns as duas, sem homens... eles so to aborrecidos. Poderemos fazer o que quisermos. Lerei para ti, em grego os poemas de Safo. 
No  preciso compreender.
- Mas..
- Cala-te. No te preocupes. Tu s livre, no
s? De qualquer modo, ns somos pessoas aparentemente muito recomendveis. Se o desejares, escreverei uma bela carta aos teus pais para obter autorizao. Com a 
tua idade, podes muito bem viajar com amigos. Trago-te a tempo para a abertura do ano escolar...
Ali todos julgavam que eu tinha dezasseis anos.
- Pe-te  vontade, mas com um vestido mais bonito.
Estendia para mim uma soberba tnica chinesa, antiga, de brocado verde e ouro, ideal para os meus cabelos ruivos.
- Despe-te, eu tambm vou mudar de traje. Certamente no me vais dizer que no ousas mostrar-te nua? Nos nossos dias! E, alm disso, no somos ambas mulheres? Eu 
 que devia sentir-me perturbada por j no ter uma juventude como a tua.
Ps-se nua  minha frente. Eu corei. Ela comeou a rir:
- s adorvel! A tua mam  mais bela do que eu?
Quase respondi: "Sim, ela tem apenas trinta e seis anos."
- No sei, nunca vi a minha me nua! 
No acrescentei que nunca vira, de facto, a minha me.

Depois disso parece-me que as coisas se passaram muito depressa. Comemos alguns pastis macios mas apimentados, bebemos champanhe e engolimos as plulas que Marie-Hlne 
me deu. Depois ordenou-me:
- Deita-te. 
Tnhamos apagado o nosso ltimo cigarro. 
Deve ter-se passado uma hora durante a qual continumos a ouvir ragas. No falvamos e estvamos estendidas lado a lado com uma pequena separao entre ns. Eu receava 
adormecer, mas ao mesmo tempo percebia que estava extraordinariamente consciente daquilo que me rodeava, das cores, dos sons, da presena daquela mulher e da sua 
beleza.
De sbito, tive a impresso de que o aposento e os objectos comeavam a girar lentamente como um barco a que se tivessem largado os remos e fosse arrastado pela 
corrente. Em seguida, pareceu-me que a cama era uma roda sobre a qual eu estava amarrada, mas com cordas de veludo ou de seda; era muito agradvel, muito voluptuoso. 
Gostaria que esse movimento no parasse nunca. Era de tal modo maravilhoso que a sensao de felicidade me fez gemer. Vi o tecto, vermelho-vivo, abrir-se como um 
grande figo maduro, e o seu suco perfumado corria-me pelo rosto, pelos lbios, que eu ia lambendo...
- Porque choras, querida? No h razo para isso. No estamos bem juntas? Vem aos meus braos. Ficars abrigada contra aqueles que te querem fazer mal.
No me apercebi de que ela estava de novo nua e que a sua pele era suave. Senti um calor horrvel, como se uma couraa de metal escaldante me queimasse a pele, e 
de sbito dei por mim a gemer:
- Sinto-me mal... mal... sufoco! 
Comecei a debater-me, a querer desembaraar-me daquela priso, mas queimava os dedos e sentia-me cada vez pior.
Felizmente, Marie-Hlne ajudou-me a escapar daquela armadura insuportvel. O contacto com os dedos dela e o som suave da sua voz tranquilizaram-me. Tive ainda conscincia 
de lhe suplicar que no me deixasse.
Recordo-me ainda que, quando me encontrei nua contra aquela mulher tambm nua, me encostei aos seus seios, ao seu ventre. Ela murmurou ardentemente:
- No tenhas medo,  melhor do que com um homem, vers! So uns brutos, enfim, nem todos, sobretudo os novos, mas eu vou ensinar-te, e depois zombaremos deles, sim, 
faremos amor diante deles para os tornar ciumentos; de resto, Antoine e Arnaud so requintados, adoraro observar-nos, acariciar-nos-o como eu vou acariciar-te.
A boca dela deslizava sobre os meus seios, descia sobre o meu ventre, e eu deixei de compreender o que ela sussurrava.

Oh, meu amor, precisas de acreditar em mim: o nojo que eu hoje sinto  real e absoluto, percebi finalmente que toda aquela gente era profundamente perversa. No 
os julgo, mas sei que nas mos deles eu era apenas um objecto de prazer que poriam de parte quando se cansassem. Mas at essa altura, se eu cedera primeiro a Jef 
e depois a Jean-Marie fora simplesmente porque toda a gente fazia amor sem sequer lhe dar importncia. O amor fsico fora apenas para mim o meio de me apertar contra 
um rapaz para ter um simulacro dessa ternura que tanta falta me fazia! O acto em si mesmo ferira-me muitas vezes. Os rapazes de dezoito e vinte anos s muito raramente 
so amantes hbeis. Isso no tem importncia quando se ama de todo o corao. Mas at ento no fora esse o meu caso. Seria o efeito do STP, a sensualidade, a habilidade 
de Marie-Hlne? No quero mentir-te. Conheci, sob o efeito do STP e de Marie-Hlne, sensaes extraordinrias. Tremi de prazer. Gritei de felicidade. Todos os 
meus infortnios, os meus medos desapareceram. Depois, de repente, o balouar lento da cama, do aposento, acelerou-se. Senti enjoo. Assustei-me, supliquei  minha 
companheira:
- Vou vomitar. Pra esta terrvel mquina!
- No h mquina alguma. Acalma-te, bebe calmamente, respira o mais lentamente possvel.
Esqueci-me de te contar, querido Etienne, que nesse quarto, quase inteiramente pintado em laca vermelha chinesa, os objectos eram raros, assim como os mveis, mas 
havia um enorme quadro muito estranho. De quem? Certamente de um pintor conhecido. Os A. eram amadores de arte. Viam-se nele mulheres com tnicas transparentes num 
parque do tipo "campo ingls", no meio de rvores, numa bruma ligeiramente colorida. As suas cabeleiras, compridas, encrespadas, louras e ruivas, estavam coroadas 
por grinaldas de flores brancas e amarelas, os seus olhos, imensos, glaucos, pareciam no ver nada.
O conjunto parecia um cenrio de cinema e, na altura, deslumbrou-me. Mas depois, de fazer amor com aquela mulher, e era a primeira vez que eu cedia a esse gnero 
de carcias, as minhas sensaes iam mudando, pouco a pouco, invadia-me um medo indefinvel. Recordo-me de cada detalhe. Comecei a gritar. O buda, em frente da cama, 
triplicara de volume, e o seu bronze dourado cintilava, como que iluminado do interior. A cabea dele tocou em breve no tecto, os seus joelhos cruzados atingiram 
as paredes, os lbios, torcidos num ricto ameaador, ordenaram-me: "Ela  que  responsvel pela tua infelicidade. Castiga-a!"
Em poucos segundos, tudo oscilou  minha volta. Aquela mulher que se encontrava a meu lado j no era Marie-Hlne mas sim Brigitte. Fui tomada por uma raiva assassina, 
levantei-me, gritei-lhe as injrias mais ordinrias, palavras que nem eu prpria julgava conhecer, dizendo-lhe que ela no passava de uma puta porca, que o meu pai 
a fora buscar a uma casa de m fama, que era esse o lugar dela, que ela o tinha enganado desde o primeiro dia, que s casara com ele por causa do dinheiro, que fora 
certamente ela que expulsara a minha verdadeira me para tomar o lugar dela... mas que o dia da vingana, do castigo, tinha chegado,... Sim, tomava-a por Brigitte.
Dirigia-me j, como que hipnotizada, para um punhal extico que se encontrava suspenso da parede, cuja lmina tinha reflexos vermelhos, como sangue, e gritei:
- Vou apunhalar-te at ficares desfigurada, os seios dilacerados, o ventre perfurado, inutilizvel... odeio-te... odeio-te...
Haver realmente tanto dio, tanta fealdade no fundo do nosso corao?
- Depois disso mato-me, porque a vida  realmente muito repugnante. No quero viver mais!
Brandia j a arma! Fui atingida na tmpora esquerda com um objecto pesado, enquanto uma voz bradava, aterrorizada:
- Pra, Jlia. Tu s doida! 

Foi uma grande sorte para mim. Com o choque, desmaiei.
Quando acordei estava no meu quarto, cuidadosamente deitada na minha cama. Antoine inclinava-se sobre mim e no escondia a sua inquietao. Onde estava eu? Desde 
quando? Era dia ou noite? Parecia-me que se tinham passado dias e dias desde um acontecimento de que no conseguia lembrar-me mas que devia ter sido abominvel.
- Marie-Hlne fez mal - disse Antoine, que fumava nervosamente. - Enfim, evitmos o pior: ela, tu.... e eu! Se tu a tivesses matado,... se eu te tivesse ferido 
mortalmente... no me teria salvo do escndalo! Eu j lhe tinha proibido o STP, que por vezes  pior que o LSD, apesar da sua reputao, sobretudo quando se bebe 
lcool, e ambas tinham bebido. Sem contar... Como  que tu pudeste chegar to depressa a isto? Jean-Marie contou-me que tens apenas catorze anos. Ns somos adultos, 
sabemos o que fazemos, quando devemos parar. Mas uma criana como tu...
Era como se eu tivesse voltado de um pas distante, primeiro soberbo e depois aterrorizador.
- Com que idade julga que comeou Patrcia? E onde? No  preciso ir longe, o liceu basta! Ns experimentamos tudo, pelo menos uma vez. Alguns continuam, outros 
no. E que julga que fazem os drogados quando no tm dinheiro para a erva? Inalam frascos de dissolvente que as mes tm em casa, compram colas ou clorobenzedrina 
fingindo que  para tirar ndoas. Depois contam aos amigos como foi bom. Em seguida habituam-se e no podem passar sem isso.  o ideal para vos esquecer, a vocs, 
os velhos, s vossas historiazinhas sujas,  vossa poltica de merda...
Antoine estava estupefacto. Mas tinha sobretudo medo. A minha presena metia-lhe medo. Anunciou-me que me ia dar dinheiro para me permitir voltar para casa e perguntou-me 
se eu queria telefonar para avisar os meus pais do meu regresso. Recusei delicadamente.
- Obrigada, no preciso de nada. Tranquilize-se, tambm no incomodarei mais ningum aqui.

Captulo 10

Parti sem prevenir Patrcia nem Jean-Marie. Tambm no queria voltar a v-los. Sabia que eles eram infinitamente mais drogados que o resto da famlia, e sobretudo 
que eu no queria que me arrastassem para o caminho mais perigoso, aquele por onde eu ainda no enveredara, convencida como estava de que saberia evit-lo: o da 
herona, a droga por excelncia, a divina, a mais perigosa de todas.
Tu sabes como afinal acabei por fazer como todos os outros e fui de degrau em degrau, chegando at ao limiar que, uma vez transposto, conduz  morte... ou ao milagre!
Graas a ti, mais do que a todos os outros mdicos que me trataram, foi o milagre. E tu no o realizaste tratando-me, mas sim amando-me. No existe outro antdoto, 
outra cura de desintoxicao eficaz. O amor, apenas o amor, o verdadeiro, aquele que implica no s o corpo mas tambm o corao e a alma, salva desse terrvel veneno. 
Encontrei-me no cais da estao de Lisieux, onde fora conduzida por Arnaud de A., posto ao corrente do ocorrido. Ao despedir-se, procurou o meu olhar e confessou:
- Estou perturbado. Ns somos sem dvida criminosos, mas voc ajudou-nos de tal modo a s-lo...
- Comecei antes de os conhecer... 
Tambm ele quis dar-me algumas notas com uma expresso preocupada. Recusei. O comboio para Paris chegou dez minutos mais tarde. Pedira a Arnaud para me deixar sozinha, 
recomendando-lhe que vigiasse Jean-Marie, que me parecia o menos capaz de se dominar. Injectava-se de quatro em quatro horas, contentando-se por vezes em chupar 
a agulha da seringa e injectando-se por cima da roupa. Arriscava-se a ter um abcesso, uma septicmia ou uma hepatite viral.
Arnaud de A. quis ainda dizer qualquer coisa. Fugi sem o querer ouvir.
Ao chegar a Paris tomei o metro at  estao Rambuteau. A maior parte dos habitantes da nossa "comunidade" tinha regressado ao loft, mas faltavam alguns, quer por 
terem ficado detidos pela famlia, voltando  sua provncia ou ao seu pas, quer por estarem a fazer uma cura num hospital. Uma das raparigas curara-se e casara! 
Uma outra, infelizmente, morrera, ningum sabia se devido a uma overdose ou a um suicdio. No voltvamos a falar dos desaparecidos aps a constatao desse desaparecimento.
Voltei s aulas. Repetia o terceiro ano, o que, hipoteticamente, tornava menos graves as minhas numerosas faltas. Disse-te j que era boa aluna, e se tivesse feito 
os meus exames em Tours teria certamente passado para o ano seguinte. Agora frequentava aulas em que as raparigas tinham mais ou menos a minha idade. A maior parte 
delas tinha, contudo, feito j os quinze anos, s vezes mais. No te surpreenders se eu te disser que as principais preocupaes delas diziam respeito ao amor... 
mas tambm, por vezes,  droga. Eu, no liceu, no falava nem de uma coisa nem de outra. Mantinha tambm a discrio sobre a minha famlia. E mostrava as minhas notas 
ao Dr. Ferran, o advogado do meu pai, e aos meus correspondentes, em casa dos quais almoava pontualmente todos os domingos, chegando mesmo a ir  missa com eles! 

Na verdade, sentia-me de novo terrivelmente s. No me dava j com Jean-Marie nem com Patrcia. Eles tinham deixado de me ir ver e at de me telefonar. Devo dizer 
que eles me metiam medo, no sei porqu.
Os que tinham voltado da Grcia, da Turquia, tinham haxixe e at herona, que podiam vender para viverem sem problemas durante vrios meses: Do mesmo modo, alguns 
amigos vindos da Holanda tinham atravessado as fronteiras sem complicaes, trazendo os tubos de creme para a barba e de pasta de dentes e os tampes higinicos 
das raparigas cheios de herona pura que eles tencionavam misturar suficientemente para fazer fortuna e conservar a proviso necessria para o seu prprio consumo.
Foi nessa poca que me apercebi de algo evidente: todos os drogados, numa ocasio ou noutra, se tornam vendedores. Eles depressa descobriram que eu tinha problemas 
de dinheiro, a mensalidade do meu pai no me chegava. Jrme, marido de uma rapariga grvida de oito meses, fez-me uma proposta:
- Caroline precisa de estar deitada, ela est mais ou menos desintoxicada, fuma apenas alguns cachimbos, pois no queremos que a criana fique stoned mesmo antes 
de nascer. De resto, um destes dias eu farei uma cura e iremos embora daqui, j metemos os papis para comprarmos uma casa, e eu comecei a trabalhar com um arquitecto, 
desenho, maquetas: abandonei o curso no ltimo ano, mas posso arranjar clientes. Entretanto, como precisamos de reunir um pequeno capital, pensei em ti para nos 
ajudares.
- Como? 
Eu simpatizava muito com Jrme e Caroline. Tambm eles tinham problemas com os pais, grandes comerciantes que lhes davam apenas o dinheiro bastante... para eles 
no aparecerem no bairro onde viviam... por causa dos vizinhos, dos clientes!
- So horrorosos, sobretudo os meus - queixava-se Jrme. - Os de Caroline so ainda mais parvos... do-lhe lies de moral, choram e suspiram, dizendo que no tempo 
em que a Igreja se ocupava mais com os jovens... Se soubessem! No quero denunciar ningum, mas garanto-te que h padres que fumam e snifam... tambm eles tm grandes 
problemas, e eu sou discreto! Somos todos uns pobres diabos. No somos piores do que muitos que parecem respeitveis. Os meus velhos, por exemplo, no se drogam, 
 certo, mas o meu pai bebe, e um dia ter de tratar uma cirrose, e a minha pobre me ficou grvida sete vezes, nunca usou a plula, e evita a casa de sade enchendo-se 
de medicamentos e dos discursos do seu confessor. Na loja deles, comrcio de vinhos, licores e outros artigos de luxo... todos os meios so bons para enrolar a clientela. 
Boas pessoas... pois ento!
-  verdade, pais como ns temos do por vezes vontade de chorar. Mas que se h-de fazer?
- Bem, temos de andar ao gosto dos tempos. Eu comecei aos quinze anos. Tenho vinte e seis e parece que tenho quarenta. Caroline fez vinte anos e j precisa de substituir 
metade dos dentes... Mas agora os garotos comeam aos doze, dez anos, s vezes menos; talvez isso no seja mau, no tm tempo de se aperceber da porcaria que  a 
vida.

Eu no percebia onde ele queria chegar; levava o seu tempo, afogava o veneno em consideraes filosficas. Por fim, prometi acompanh-lo numa volta por Pigalle e 
pela Place Blanche. Ele queria mostrar-me alguns "esconderijos" onde os vendedores dissimulavam a mercadoria que vendiam aos consumidores. A tcnica consistia em 
ter a certeza de receber o dinheiro e depois em no se deixar prender por um inspector da Brigada no momento em que se entregava a mercadoria ao cliente.
De qualquer modo, de uma maneira geral, a troca no se fazia directamente. Explicava-se onde estava escondido o pequeno embrulho precioso. Os esconderijos mudavam 
todos os dias, indo desde as casas de banho de um bar a uma paliada que protegesse um terreno vago, da tampa de um caixote de lixo a um monte de tijolos! Enfim, 
conforme o local, a hora... e a imaginao. A mim no me faltava. Nunca me deixei apanhar.
Aproximvamo-nos dos Halles quando Jrme observou que eu era talvez demasiado jovem e bonita para me aventurar regularmente naqueles stios. Seria rapidamente notada 
tanto pelos polcias como pelos bandidos.
- Terias aborrecimentos. Mas talvez eu tenha algo de mais fcil para ti. Rende menos, mas de qualquer modo melhorar as tuas finanas, e um dia ou outro virs a 
ter necessidade de dinheiro, como todos ns.
No prestei ateno quele "um dia ou outro virs a ter necessidade de dinheiro". O dinheiro, faa-se o que se fizer, nunca  de mais, no  verdade? Eu conseguia 
"deitar a mo" a livros e s vezes mesmo a peas de vesturio - as minhas amigas tinham-me ensinado uns bons truques -, mas quanto aos discos tornava-se mais difcil: 
os vendedores das grandes lojas vigiavam-nos ferozmente!
Quando chegmos ao apartamento, os outros anunciaram-nos que Caroline fora levada para o hospital, pois ia sem dvida ter um parto prematuro. Tinham-na levado para 
Tarnier, pensavam eles. Assustado, Jrme suplicou-me que o acompanhasse. Eu devia declarar ser irm da jovem parturiente.
Eram trs horas da manh, mas como ns ramos a "famlia" permitiram-nos ir ver Caroline! Ela estava, por sorte, sozinha num pequeno quarto  espera de ser conduzida 
para a sala de partos. Jrme mostrava-se extraordinariamente enervado.
Caroline, inquieta, perguntou-lhe se ele j dera a sua injeco. Mesmo assim no percebi. Quando samos, perguntei-lhe se ele estava doente.
- Idiota, vives no meio de ns... estiveste com Jean-Marie e Patrcia e ainda no compreendeste?
- Injectas-te?
- E ento? 
De minuto a minuto, ele mostrava-se mais agressivo, histericamente agitado, falando, precipitadamente, com uma voz aguda que fazia com que as pessoas se voltassem 
para nos olhar. Eu no ousava fazer sinal a um txi, mas a p era meia hora de caminho. Fi-lo seguir-me quase a correr. Quando chegmos, vi que ele chorava.
Os outros, em casa, dormiam, embrutecidos. Aqueles que conservavam a luz acesa, por detrs do seu biombo, no deviam estar em melhor estado ou ento faziam amor. 
No era altura de os incomodar.
- Meu Deus, ajuda-me, no vs como tremo. Se parto esta seringa no tenho outra e fao estragos.

Entregava-me uma colher, um pequeno embrulho cuidadosamente dobrado e uma seringa, todos os utenslios que eu vira nas mos de Jean-Marie, pois, em casa de Patrcia, 
quem se injectava no o fazia publicamente e nunca l encontrei qualquer algodo sujo de sangue.
- No sei. Nunca dei uma injeco fosse de que gnero fosse em toda a minha vida.
- Aprenders. No  difcil. Deita a "merda" na colher, com um pouco de gua, evidentemente. Depressa, seno enlouqueo.
As tremuras dele tinham aumentado, havia um brilho assassino nos seus olhos, e um ricto horrvel torcia-lhe os lbios. Era de tal modo visvel que ele sofria terrivelmente 
que, recordando o que se passara com Jean-Marie, cedi.
- Vou ferver a agulha.
- No. No vale a pena. Ainda nenhum de ns apanhou o ttano, e no ser um pequeno abcesso que me matar...
Ele teria feito aquilo para melhor "me ter na mo" ou para me iniciar num universo que ele julgava paradisaco? Depois de lhe ter apertado o garrote, entreguei-lhe 
a seringa onde eu metera a mistura tpida, aquecida ao calor da chama do isqueiro dele, e segui a operao da entrada do lquido na veia perfurada. Presenciei a 
espantosa transformao que se deu em Jrme, subitamente apaziguado, que me declarou:
- Vais ver. No h nada melhor. Ofereo-ta. 
Preparava uma nova dose, sem desinfectar a agulha. Eu sentia-me enojada. Quis debater-me, mas ele agarrou-me, rindo e ameaando-me de me violar se eu continuasse 
a fazer barulho. Eu deixei de me mexer. Ele fazia as coisas com uma percia diablica, arrancou-me a blusa, prendeu o garrote e enterrou a agulha. Eu chorava. Como 
no uso soutien, fiquei com os seios nus. Ele deixou-se cair sobre mim, murmurando:
- Ests bem, no ests? Ento no te preocupes. No sou o primeiro, e como j no andas com Jean-Marie... De resto, estou-me nas tintas, e Caroline durante alguns 
dias ter mais com que se ocupar.
Rapidamente deixei de ter qualquer vontade prpria, mas continuei a chorar enquanto ele me possua. Foi muito rpido e no me deu qualquer prazer. Depois, ele deitou-se 
ao meu lado, mas como o colcho era muito estreito tnhamos de nos apertar um contra o outro. Ouvi a voz dele, apaziguada, ordenar:
- Acaba de choramingar. Gosto de ti, todos gostamos de ti aqui. A primeira vez - falava evidentemente do xuto de herona - no d grande prazer. Mas amanh voltaremos 
a fazer o mesmo e ento... No te preocupes com a mercadoria, tenho vrios files, no nos faltar!
Antes tivesse faltado e isso me tivesse levado mais depressa ao hospital, meu querido! Ter-te-ia encontrado antes que tudo me parecesse irremedivel. De resto, ao 
princpio, a herona fez-me bem. Com efeito, ela atenuava a minha clera contra Brigitte e o meu pai e reduzia a importncia dos acontecimentos, parecia-me,  sua 
justa medida. J no me sentia revoltada com a minha me por me ter abandonado e pensava em ir v-la a Neuilly. Que cada um construsse a felicidade  sua maneira, 
era tudo o que eu queria.
 sem dvida o perigo mais terrvel da herona. No provoca essas imagens fericas, sumptuosas, que do a maior parte dos alucinogneos, nem essa sensao de fora, 
de dinamismo, de inteligncia decuplicada, de resistncia fsica

e intelectual "super-humana" da coca. No: ela apazigua. Ela d euforia como todos os derivados do pio. Aps a sua absoro, o mundo perde todas as asperezas, as 
pessoas ficam banhadas na felicidade, na amizade, no amor, quase naturalmente. Um pouco como um nadador esbracejando ao sol, numa gua morna, perfumada, a deixar-se 
levar, de costas, pela corrente que o conduzisse a alguma ilha encantada...
Mas estou enganada. O pior da herona no  a felicidade que provoca., quando j existe dependncia fsica, a tortura demonaca que  infligida quando se est em 
carncia e que s termina quando o corpo tiver recebido a dose de veneno que lhe  necessria! Os verdadeiros drogados, aqueles que a morte espreita, quase sempre, 
aps que martrios, que degradaes fsicas, no se injectam j para sentir o que quer que seja... injectam-se para deixar de sofrer!
Mas de tudo isso, desse calvrio no extremo, do qual tu me encontraste, no fiz eu, nessa noite, a avaliao completa de todas as suas consequncias. J sonolenta, 
ouvi a voz de Jrme tranquilizar-me.
- Ser fantstico.  da boa, da de melhor qualidade. O que os mdicos contam  aldrabice, no h nada de mais sensacional. De qualquer modo, os medicamentos que 
eles receitam so muitas vezes bem piores, e as anfetaminas... nunca cedas s anfetaminas sob pretexto de tratamentos, nem  coca. Deixa isso para os idiotas que 
dizem que depois se sentem mais inteligentes, enfim, eles acreditam nisso! Agora vou contar-te o plano que vai fazer com que vivamos como paxs sem sermos apanhados 
pelos chuis.
Jrme devia estar j na lista dos vendedores detectados pela Brigada de Estupefacientes, e talvez fosse vigiado, seguido, nas suas idas e vindas. Mas o seu trfico 
era pequeno e, de momento, deixavam-no em paz. Felizmente para mim, eu no fora ainda interpelada, em parte porque no saa at tarde,  noite, e no frequentava 
as discotecas conhecidas como antros de drogados. Afinal s estava em Paris h quatro meses. Mas que caminho percorrera j! Jrme continuava a sussurrar, recomeando 
a acariciar-me, embora, aparentemente, no
sentisse necessidade de voltar a fazer amor.
- Tu sers suficientemente esperta para no te deixares apanhar. Quando olham para ti, apesar dos teus cabelos ruivos, as pessoas so capazes de te dar a comunho 
sem confisso. Trata-se de criares uma pequena rede pessoal e tambm de te saberes controlar. No faas como eu. Sei que mais tarde ou mais cedo irei parar ao hospital, 
 priso de Sainte-Anne e  camisa de foras.
Na verdade, eu j no o ouvia. Sentia-me bem, como se estivesse a ser levada por um grande rio, muito calmo, sob um cu luminoso. Sentia-me indolente, como se eu 
prpria me transformasse numa espcie de gua correndo aprazivelmente entre margens floridas. Certamente os seres humanos, a vida, os meus amigos eram maravilhosos...
Devo ter adormecido...

Captulo 11

Os dias em casa da tua av, Etienne, passam simultaneamente muito depressa e muito devagar. Devagar porque me parece que no te vejo h muito tempo. Apesar das tuas 
cartas e dos teus telefonemas, sinto terrivelmente a tua falta.
Preciso de descansar, dizes tu, de escrever esta confisso, visto desejar tanto faz-lo. Tu pareces ter adivinhado que eu a comecei... como se comea a demolio 
de uma casa apodrecida pela humidade, a areia e as trmitas. Sabes que o que tento destruir so dois anos de loucuras, de erros, de terrores que me conduziram s 
portas da morte.
Se soubesses que era o teu amor por mim que eu queria destruir com estas recordaes sei bem que as proibirias, que serias capaz de queimar este caderno. Contudo, 
tenho de continuar.
Mas os dias passam muito depressa... pois parecem-me os ltimos duma felicidade que eu entrevejo aqui, que partilharia contigo e, mais tarde, com aqueles que, sem 
verdadeiramente o desejarem, estiveram na origem da minha infelicidade.
No te revelei como acolhi uma carta que, de certa maneira, teria podido deter-me na encosta por onde eu comeava a deslizar. Sem dvida por ter vergonha de ter 
repelido o apelo!
Dois dias antes do Ano Novo, o de 1982, recebi uma carta de Brigitte. A minha primeira reaco, ao reconhecer a caligrafia dela, foi querer rasg-la sem a ler. Tanto 
mais que nenhuma palavra do meu pai a acompanhava. Mas a curiosidade foi mais forte. Nunca me separei dessa carta. Vou transcrev-la. Brigitte escreveu: 
"Minha pequena Jlia,
Espero que te tenhas tornado razovel e que depois de leres esta carta venhas passar as festas de Ano Novo connosco. Feriste-nos profundamente, ao teu pai e a mim, 
e por causa de toda essa histria que s se passou na tua cabea Frdric teve de se afastar. Apesar da confiana que deposita em mim, Robert no suportava a presena 
dele. Felizmente para o nosso antigo amigo, isso no teve repercusses graves no seu projecto de casamento. Tu ignorava-lo, eu sei, mas ele tinha certas razes para 
guardar segredo. Casa-se em Fevereiro e deixa imediatamente a regio. Ofereceram-lhe uma situao interessante em Itlia:  um pas de que ele gosta e cuja lngua 
felizmente conhece.
Pelas tuas notas pode-se supor que trabalhas a srio. Os teus irmozinhos reclamam-te muitas vezes e encarregam-me de te beijar. Envia-me um telegrama, ou melhor 
no, telefona-me s horas em que o teu pai estiver no escritrio. Arranjarei as

coisas com Robert, que ainda se mostra muito magoado. Para qu esconder-te isso? Claro que como agora ests inscrita em Paris devers terminar a o teu ano escolar. 
Ns no iremos nem incomodar-te nem vigiar-te, porque o Dr. Ferran e os Michelets no te poupam elogios, o que tem ajudado um pouco a sarar as feridas do teu pai. 
Mas vem passar as frias a casa. Ns esperamos-te, amamos-te, mesmo que tu penses o contrrio. E no esqueas que, se te sentires infeliz, deves voltar para casa, 
mesmo correndo o risco de perder o ano no liceu. Continuas a ser a minha pequena Jlia, a minha filhinha querida. No o esqueas, repito-te."
Ah, se Brigitte, em vez de ter escrito, me tivesse ido buscar, teria percebido imediatamente.  uma mulher enrgica e no ignora o que representa a droga. Falou-me 
muitas vezes disso. Ela seria mais compreensiva que o meu pai, que, por sua vontade, mandaria prender todos os drogados, sem qualquer outra forma de processo. Ela 
ter-me-ia levado  fora para Tours, ter-me-ia tratado. Comeou estudos de enfermagem antes de conhecer o meu pai. Para mim ainda no seria, com certeza,
tarde de mais.
A verdade...
Claro que, diante dos meus amigos, eu me tornava fanfarrona. Mas cada vez mais frequentemente pedia a um deles que me assinasse um bilhete a apresentar desculpas, 
imitando a assinatura do senhor Michelet, felizmente ilegvel, atribuindo-me todas as pequenas doenas possveis que me
permitissem faltar s aulas sem verificao. Cada vez me sentia pior quando a droga me faltava!
Infelizmente, o dinheiro rareava tambm, o que j seria aborrecido se eu me limitasse a fumar haxixe ou marijuana. Mas um grama de herona custava, na altura, oitocentos 
francos no mnimo! Isso tornava-se dramtico, apesar de eu no estar ainda nas doses de Jean-Marie, nem sequer nas de Jrme.
Para qu lembrar-te do meio mais simples que ns, raparigas, utilizamos para nos abastecer? Afinal, a prostituio fazia menos mal aos outros do que os roubos, o 
trfico e outros "abusos de confiana" e "golpes" que os rapazes praticam. Ter uma necessidade insupervel de droga aniquila qualquer senso moral e mesmo a simples 
piedade humana. Um rapaz que, anteriormente, tenha lutado pelos ideais polticos mais generosos, no dia em que tiver necessidade de se injectar ser capaz de roubar, 
sem remorsos, a carteira a uma velha que tenha acabado de receber a sua penso e no tenha outros recursos para viver... ser capaz de roubar um invlido, uma criana!
Ao princpio resisti, no queria fazer o mesmo que as outras raparigas. Elas no se prostituam no sentido absoluto do termo, o que seria de certa maneira mais honesto. 
No! Elas mantinham uma aparncia de honestidade, fingiam escolher os seus parceiros, reclamavam muito alto o seu direito  liberdade sexual, como os rapazes, e 
quando iam para a cama com um homem mais velho... e mais endinheirado que os seus companheiros habituais... diziam que o faziam porque ele lhes agradava. Havia de 
resto, por vezes, uma certa verdade nessas afirmaes, mas, enfim, elas vendiam-se!

Eu era ainda demasiado jovem para aceitar a ideia de fazer o mesmo. Ento, ao princpio, utilizei alguns truques para subtrair dinheiro ao Dr. Ferran e sobretudo 
aos Michelets. Estes eram crdulos e, creio, estavam vagamente chocados por os meus pais nunca me irem ver nem me receberem em Tours. Ferran era mais lcido e fazia 
perguntas insidiosas. Para algum que soubesse alguma coisa da droga, bastava olhar para mim para compreender. Eu j no tinha a pele branca, como as louras, mas 
sim macilenta, com grandes olheiras debaixo dos olhos e as pupilas minsculas... tudo sinais que no podiam enganar... sem acrescentar a isto que tinha frequentemente 
de ocultar a tremura das mos e que o meu humor passava da maior euforia para momentos de depresso que chegavam s lgrimas e a palavras negativas e de suicdio...
O Dr. Ferran telefonou-me um dia para o loft, dizendo que precisava de falar comigo. Convidou-me para jantar num restaurante. Eu j notara que ele no usava aliana, 
mas isso no significava que no fosse casado. Eu perguntava a mim mesma porque seria aquele encontro inesperado. Estava intrigada. Aceitei. Antes de ir ter com 
ele, tive a sorte de poder injectar-me: um amigo que simpatizava comigo dera-me um pouco de brown sugar. No era o mesmo que a boa herona, mas bastava para me pr 
de bom humor. Cuidei da minha apresentao. Tinha estatura de mulher, e uma das raparigas da casa emprestou-me um vestido e um casaco elegantes, que ela costumava 
usar quando ia visitar a famlia, ao Norte. Ns, as provincianas, tnhamos mais facilidade em dissimular perante os nossos pais a existncia que levvamos na capital.
- Mas tu ests perfeita!
O Dr. Ferran marcara encontro comigo em Saint-Germain des Prs, onde, de, qualquer maneira, o meu aspecto habitual no espantaria ningum. Depois de me ter observado, 
ele decidiu que iramos jantar a um restaurante na moda, ali no bairro.
Bastou-me deitar um olhar aos outros clientes para perceber que muitos deles estavam viciados em coca. Sorri interiormente, quase certa de conhecer os motivos que 
tinham levado o advogado do meu pai a convidar-me: no fora certamente para me pregar moral!
No esperava o discurso que ele me fez na altura da sobremesa.
Ele tinha-se instalado na minha frente, sem nunca deixar de me fitar. Mostrara-se brilhante e compreensivo acerca dos... problemas dos jovens, antes de confessar 
que a sua vida particular se encontrava num momento mau: ia divorciar-se. Mas, na sua situao, precisava de tomar precaues infinitas.
Apercebi-me ento de que o meu companheiro teria, quando muito, quarenta anos, que era bastante atraente, bastante conhecido, visto muita gente o ter cumprimentado 
e algumas pessoas lhe terem ido apertar a mo. Alm disso, as mulheres pareciam vivamente interessadas por ele. Apresentou-me como filha de um velho amigo do seu 
irmo mais velho, chegada recentemente a Paris para completar os estudos. Os sorrisos dos seus interlocutores pareceram-me simultaneamente ambguos e admirativos.
- Permite-me que te trate por tu e que te pea para fazeres o mesmo em relao a mim, pois caso contrrio daria a impresso de eu ser um velhote.
O ambiente era agradvel. No me desagradava sentir-me longe do loft e dos meus companheiros, mas comeava a perguntar a mim mesma onde quereria ele chegar. Soube-o 
quando me encontrei de novo no carro dele. Atraindo-me para si, beijou-me bruscamente. Beijava muito mais sabiamente do que os rapazes com quem at ento eu j tinha 
estado. No entanto, repeli-o e afastei-me.
- O meu pai no te disse a minha idade?
- Que interessa que tenhas quinze anos ou dezasseis anos... no  a tua primeira experincia. Sem contar...
- Sem contar?

- Tomas-me por um idiota, menina? Achas que eu no percebi ainda que te drogas? E que me bastaria prevenir os teus pais para seres levada entre dois polcias e fechada 
num centro de desintoxicao?
- Matar-me-ia primeiro! 
As palavras tinham-me escapado. Era a primeira vez que me vinha  ideia acabar com uma vida que eu sabia irremediavelmente estragada. Devo ter tido um ar de sinceridade. 
Ele sabia que no devia excitar um drogado sob o efeito do estupefaciente.
- Vamos a minha casa tomar um caf. No tenhas medo. No quero ver-me a braos com uma histria de desvio de menores. A minha carreira seria destruda. J tenho 
bastantes problemas com a minha mulher. E quero ainda menos ver-me numa histria de drogados que se injectam, porque tu ests metida nisso, no ? A marijuana e 
o haxixe j no te chegam. Eu tambm j fumei algumas vezes e comi compota e biscoitos. Mas com prudncia! E quando fui  Tailndia fiz, como toda a gente, uma excurso 
aos Mois e experimentei um ou dois cachimbos de pio... se  que se tratava verdadeiramente de pio. No me provocou qualquer efeito. Nem sequer uma sensao de 
euforia. Tu, evidentemente, ests na morfina ou na herona... a coca excitar-te-ia mais. O teu sorriso de mulher Buda traiu-te logo que entraste no Flore.
Tnhamos chegado ao Boulevard Malesherbes. Subimos. O apartamento dele condizia com o consultrio. Muito elegante, mas clssico. Mveis ingleses e gravuras antigas. 
Cadeires de cabedal, estofados. Ele nem sequer me ofereceu de beber. Observava-me atravs das plpebras meio fechadas. Deixei de o tratar por tu. De certa maneira, 
comeava a ter medo. Ele tinha demasiados meios de fazer presso sobre mim.
- Ento? Herona,  para isso que precisas de dinheiro? Como  que tens arranjado essa porcaria at aqui? No  com o dinheiro que o teu pai te envia... Porque  
que fugiste? Por que motivo no quer ele ter qualquer relao contigo?
Eu ia contar-lhe tudo, a minha me... Brigitte... Frdric... pois no acreditava nas negaes da minha madrasta. O olhar agudo que Alain Ferran pousava sobre mim, 
a sua tenso - de que eu me apercebia, -, igual  de uma fera prestes a lanar-se sobre a sua presa, foi para mim uma espcie de aviso. Ele queria, no sei porqu, 
ter poder no sobre mim... mas sim sobre o meu pai. Provavelmente por uma sinistra questo de interesses? Isso nunca o soube e no o desejo saber. Fechei a boca 
e baixei a cabea. Comecei a transpirar e a sentir nuseas. Queixei-me.
- Est muito calor!
- Ests com falta de droga, no ? No tenho aqui nada para te ajudar... s um frasco, de ter. Queres cheir-lo?
Ele s pensava nele, e interiormente decidi nunca mais apelar para aquele homem. S servia para me entregar o dinheiro, que o meu pai me mandava.
- No, no quero ter, mas no me sinto bem, tenho de ir para casa. Obrigada pelo jantar.
Levantei-me, pedi o meu casaco. Ele ordenou-me:
- Volta a sentar-te e ouve! Talvez eu possa ajudar-te!
- Ajudar-me? Em que sentido? 

Ele no me respondeu imediatamente, observava-me cada vez mais atentamente. Tive imediatamente a impresso de que ele ia reter-me  fora; no para abusar de mim, 
pois nem percebia por que razo me beijara. Provavelmente fora apenas por curiosidade, para conhecer as minhas capacidades de defesa. Essa vigilncia tornou-se, 
bruscamente, intolervel. Sentia agora, de sbito, uma sensao que me fazia estremecer, enquanto momentos antes tivera calor. E pior, uma sensao de angstia absolutamente 
insuportvel: um perigo terrvel espreitava-me, tanto mais terrvel por ser indefinvel.
- H quantas horas te injectaste?
No respondi. As minhas articulaes dos joelhos, dos cotovelos, dos dedos doiam-me atrozmente, como apertadas num torniquete cada vez mais torturante. Gritei, e 
a minha prpria voz me fez dores de ouvidos, como se os tmpanos fossem rebentar.
- Meu Deus! Meu Deus, vou morrer! 
Comeara a chorar e sentia que ia vomitar. Ele percebeu isso, levou-me at  casa de banho e levantou a tampa da retrete.
- Deixo-te. Chama-me se precisares de mim. 
Quanto tempo estive eu debruada sobre a bacia? Apesar dos arrepios e da sensao, cada vez mais dolorosa, de estar encerrada num bloco de gelo, o suor corria-me 
pela testa e por todo o corpo. Tentei ver-me ao espelho por cima do lavatrio, mas aquele rosto contrado no podia ser o meu... tinha o aspecto duma velha angustiada, 
a babar-me, com os cabelos colados pelo suor.
Era horrvel. Aquele homem devia ter-me feito beber alguma bebida estragada, o restaurante era seu cmplice, e o meu pai... ou Brigitte... e se ele fosse outro amante 
dessa mulher horrvel e os dois tivessem projectado a minha morte?
Vs, Etienne, eu estava em pleno delrio. De sbito, a imagem que eu fixava enevoou-se. Tinham-me contado a terrvel histria de um rapaz que ficara cego na priso, 
por lhe terem tirado a droga de repente... em seguida fora a loucura. Comecei a procurar no pequeno armrio dos remdios. Atirava raivosamente os frascos e as coisas 
para o cho. Podia tambm ter engolido indistintamente o contedo de todos. Sem dvida que o teria feito, visto no encontrar o que procurava. Nem o frasco de ter 
havia. No dei por cair, de resto sem me magoar, pois essa queda era infinitamente menos dolorosa do que as descargas elctricas que me atravessavam o corpo. Vomitei 
outra vez. Ouvi a porta abrir-se e uma voz constatar:
- Que estragos que ela fez! Mas tu s doido, meu velho,  uma garota. Porque  que a trouxeste para tua casa? Est com falta de droga, tens razo. Seria melhor, 
se ainda for a tempo, envi-la para Marmottan e em seguida prevenir a famlia dela para a fazerem entrar num centro. H um, muito bom, em Boulogne.
Apesar do meu estado comatoso - no podia mexer-me, nem falar, apesar dos meus esforos -, ouvia perfeitamente o interlocutor de Alain. Era certamente um mdico. 
Ouvi-o at partir uma ampola. Os meus sentidos estavam despertos, exceptuando a vista. De resto, mantinha instintivamente os olhos fechados para evitar que me interrogassem.
- O que  que lhe vais dar? Ser que ela ficar transportvel? Pode ir para o hospital, mas no partindo daqui. Sou advogado do pai dela;  uma histria sombria 
de que no conheo todas as coordenadas. Um bom cliente, a minha famlia  ntima da dele, eu sou mais novo. Foi ela que veio procurar-me. Queria dinheiro e ainda 
h oito dias lhe entreguei a penso que o pai lhe manda.

- A herona  cara! Digo-te, mais uma vez, que o melhor seria mand-la fazer uma cura de desintoxicao. H muito tempo que ela se droga?
- Com certeza que no. S est em Paris h oito meses.
-  o suficiente. Tranquiliza-te. Injectei-lhe um produto com azafenotiazina, vai-se acalmar. Deves deit-la e cobri-la bem. Quando acordar estar ainda sob o efeito 
da injeco.  um calmante muito forte. Aproveita ento para a levares... onde quiseres. Mas para a prxima vez tem cuidado! Ela podia ter entrado em coma, eu seria 
obrigado, a envi-la para a reanimao e a participar o caso  polcia...
No ouvi o fim da conversa. Mergulhei, de repente, no sono. Quando acordei, vi Alain Ferran a dormir num cadeiro, na minha frente. Tinha-me deitado na cama dele. 
Sorri-lhe. Encontrava-me ainda sob o efeito do medicamento que me fora administrado e no sentia qualquer hostilidade contra ele. Nesse instante, ele acordou tambm.
- Ests melhor?
- Que me sucedeu?
- Oh, nada. Agora vou levar-te a casa. Lembras-te do que me prometeste?
Lembrava-me apenas das palavras que ele trocara com o mdico invisvel, mas evitei evocar a cena.
- No.  importante?
- Bem, um cliente meu tem tido alguns aborrecimentos, o que no impede que te possa ajudar... se do teu lado tu mostrares um pouco de boa vontade em lhe seres til.
No percebia nada do que ele dizia. Ele adivinhou isso ao ver o meu sobrolho franzido e a minha boca a abrir-se numa interrogao. Por isso, disse:
- Ele telefona-te e explica-te. Prestou-me um grande servio e  natural que eu o queira ajudar. Chama-se Alex.
Era a segunda vez, desde que vivia em Paris, que me falavam de um Alex. A primeira vez fora em casa de Patrcia de A. Esse era um vendedor de droga. Pareceu-me improvvel 
que se tratasse do mesmo personagem. Alain Ferran no se drogava mas evidentemente que um advogado era obrigado a entrar em contacto com todo o gnero de pessoas, 
e no obrigatoriamente das mais recomendveis.
- Ele que me telefone - respondi. -  possvel que ele esteja em condies de me ajudar.

Captulo 12

O meu caso foi exemplar? Certamente que no. No percorri o caminho habitual dos que comeam a drogar-se. Fui demasiado depressa, e, porque a ocasio se me apresentou, 
comecei a entregar-me quilo que poderia mais facilmente destruir-me.
Se no contaste  tua av nada de preciso, ela compreendeu sem dvida de onde eu vinha e julgou mais saudvel, em vez de fingir ignorar isso, atacar-me no meu prprio 
terreno. Ontem o temporal - pois o tempo muda constantemente nesta regio - impediu-nos de sair. Vento, chuva torrencial, granizo, obrigaram-nos a ficar em casa. 
Depois do almoo, pegando no seu eterno tric, ela instalou-se diante da lareira. Eu tambm, mas sem tric. Lia um desses hebdomadrios que ela recebe todas as semanas. 
Sem sequer deitar um olhar para o artigo que eu estava a ler, a tua av perguntou-me:
- O que  que pensas desse artigo sobre a droga nos liceus? E das "esperas" que lhes fazem nas ruas? Ficaste chocada por eu empregar esta palavra? Mas transviar 
crianas que nem sequer sabem porque fumam ou snifam , para mim, como viol-las, quer sejam raparigas ou rapazes. Quando forem adultos, e assumirem a responsabilidade 
do que fizerem,  diferente. Mas desencaminh-las aos oito, dez, doze anos... depois espoli-las, no,  demasiado. Esses traficantes de erva que lhes do a primeira 
"passa" deviam ser chicoteados, como na Gr-Bretanha!
- Est muito ao corrente do calo, av!
- Agora j no me tratas por mamie? julgava que me chamava Hlne.
- Tu ls muitos artigos, Hlne! Tudo isso  simultaneamente mais srdido, mais triste e mais complicado.
- Pois bem, esclarece-me. 
No me apercebi da armadilha. De qualquer maneira, tenho muita confiana nela! Sem mesmo dar por isso, falei como se me dirigisse a ti, neste caderno. Ela estava 
calada, e eu ouvia apenas o rudo das agulhas, exactamente como quando estou a escrever. Suspirei:
- Quando no se tem dinheiro bastante para arranjar, ou continuar a arranjar a droga, e desde que se tenha um amigo que estude Medicina ou Farmcia, mas que se recuse 
a roubar morfina ou ter no hospital, recorre-se s anfetaminas, claro. Tomam-se muito mais do que a dose prescrita por qualquer mdico, claro, e alm disso com 
lcool. H quem as tire de casa dos pais, de amigos... e nas farmcias no faltam. Como essa mistura  espantosa e permite estar acordado vrias noites seguidas, 
alm de excitar as faculdades intelectuais, para as aulas  formidvel. Eu trabalhava muito bem. Era brilhante sempre que queria.
Pouco a pouco fui abandonando o "se" impessoal, de uma explicao abstracta, para passar para o "eu", pois no podia enganar Hlne.
- Mas esses medicamentos que me forneciam clandestinamente tambm tinham de ser pagos. Os que os arranjavam precisavam tambm de dinheiro para se abastecerem, para 
subornar os responsveis pelos produtos txicos! Ento comecei a fazer o mesmo que as outras...

J nem sei o que lhe contei, mas ela ouvia sem fazer comentrios, mesmo quando falei dos gangs do liceu. Havia-os em todas as classes e para todas as idades, espoliando 
os mais fracos, aqueles a quem os pais davam dinheiro para pequenos gastos, e outros que o roubavam. E havia tambm chantagens. "Se no me pagas, denuncio-te. Hei-de 
arranjar maneira de te meter erva nos bolsos, pedras de haxe, cidos e outras coisas. E v l se te apanham com tubos de cola na pasta!" Isto era para os mais pequenos. 
Os chefes de gangs mais perversos, mais velhos, assustavam as suas vtimas de treze, quinze anos, dizendo-lhes: "Nem te apercebers se eu misturar veneno no teu 
p... e ficars doente como um co ou pior! Enquanto os teus pais te estiverem a tratar vamos enviar-lhes cartas annimas, a eles, ao reitor,  polcia... acabars 
na priso. V l se preferes ser espancado?"
Evidentemente que esses mesmos gangs ameaavam as raparigas, alm do mais, de as violar. Depois de as terem aterrorizado suficientemente, anunciavam: "Tu podes pagar 
de outra maneira.... no  difcil... permitimos-te mesmo escolher os tipos que queiras, mas tens de te deitar, minha filha, e trazer-nos a massa. Seno somos trs, 
quatro, dez, se for preciso, e tu ficas boa para o hospital..."
Enquanto eu falava, a tua av afastou-se bruscamente. Creio que se apercebeu de que eu estava a falar de mais e que depois me envergonharia de o ter feito!
Mas tu, tu deves saber tudo. Nessa poca, prximo do fim do Inverno, isto , em Maro ou Abril de 1983, eu quase no comia. Comia apenas uns biscoitos, mascava pastilhas 
elsticas e bebia leite.  noite  que bebamos bebidas alcolicas.  espantoso como as pastilhas elsticas nos enchem o estmago. Comecei tambm a faltar muito 
s aulas. Uma rapariga e um rapaz da comunidade assinavam-me os bilhetes para eu apresentar no liceu, desde que Jrme e Carolina haviam desaparecido do nosso crculo. 
Creio que tinham arranjado um estdio noutro stio.
Eu j no vivia no mundo dos outros, precisava de empregar uma quantidade de truques para enganar os meus correspondentes e, por intermdio deles, o meu pai. Alain 
Ferran prevenira-me de que o seu cliente, o famoso senhor Alex, me contactaria de um dia para o outro, mas at ao momento no tivera quaisquer notcias. Quanto a 
esse desconcertante advogado, aparentemente preferia no me voltar a ver: eu no desejava outra coisa, desde que ele me entregasse as mensalidades. Tinha a certeza 
de que no me denunciaria, pois a vida dele tambm no me parecia irrepreensvel.
No grupo que vivia no loft, com idas e vindas incessantes, estrangeiros de passagem por um dia ou dois, formvamos verdadeiramente uma seita, ou melhor, uma franco-maonaria, 
com as nossas palavras de passe, os nossos rituais, os castigos quando infringamos as leis ocultas da comunidade, mas sobretudo com um sistema de defesa muito aperfeioado 
contra qualquer ameaa vinda do exterior, em especial dos nossos pais burgueses, mas tambm de algum pequeno vendedor especialmente desonesto, ou de amadores demasiado 
curiosos, pusilnimes, que poderiam trair-nos.

Eu devia ter mais cuidado que qualquer outro... era menor!  certo que uma rapariga de treze anos contara a sua vida de prostituta e drogada... mas podia-se calcular 
que estava protegida, e depois disso crescera. Mas ela no pertencia ao nosso grupo e por isso no queramos saber dela.
Os meus companheiros, rapazes e raparigas, tinham todos mais de dezoito anos. Tinham sido j detectados como viciados, mas como h muito tempo no eram apanhados 
em flagrante delito de trfico ou de consumo, como no houvera nenhum caso de roubo ou de acidente grave com eles, no decorrer de uma party, deixavam-nos em paz.
Claro que os acidentes no faltaram enquanto eu l estive. Por vezes sem verdadeira gravidade, como sucedeu comigo... vmitos, desmaios prolongados, gritos quando 
havia falta de droga, discusses ou tentativas de suicdio... Isso  moeda corrente, tu sabe-lo. Depois disso, muitos daqueles a quem essas coisas sucediam ficavam 
assustados, iam para os centros, falavam e at tentavam curas de desintoxicao.
Mas houve pior. Um holands, extremamente simptico, morreu numa casa de banho... Agora que h sanitrios que se podem fechar  chave, tornaram-se o local preferido 
dos que se injectam. Ningum os vai incomodar, e eles injectam-se ali  vontade, contentando-se em desinfectar a agulha com saliva. Deves ter lido que h alguns 
meses foi encontrado um rapaz morto numa dessas casas de banho... Eu conhecia-o. Era o namorado de uma companheira nossa... Tinha vinte e cinco anos. H tambm os 
que se deixam prender. So sempre os pequenos passadores sem importncia, nunca os grandes, e sobretudo jamais os grandes patres da droga. H realmente alturas 
em que a Brigada consegue deitar a mo a quantidades espectaculares de herona, de cocana ou de haxixe; mas os homens presos so sempre gente sem importncia e 
o trfico recomea logo no dia seguinte, com novos truques, novos esconderijos, novos distribuidores. Sobre isso no te posso dar detalhes. No estive metida com 
essa espcie de gente, nunca conheci sequer os porteiros das discotecas chiques, que so os fornecedores habituais dos drogados ricos. Apenas mais tarde, depois 
de ter conhecido o senhor Alex, e sob a sua proteco, me aventurei nesse universo dantesco do bairro negro em torno da estao de Lyon, o ilhu Chlon, e num outro, 
de aparncia mais calma, do bairro chins, do dcimo terceiro bairro, e no novo bairro chins de Belleville...
Mas antes de te contar esse itinerrio perturbador, queria confessar-te que os piores infortnios no so suficientes para pr em guarda aqueles cujo organismo se 
habituou s drogas duras. A nossa sensibilidade ao perigo, ao sofrimento que no seja causado pela falta de droga, esbate-se rapidamente. Recordo-me: de incio, 
quando os meus amigos tinham aborrecimentos com a polcia, eu ficava preocupada. Depois, pouco a pouco, comecei a encolher os ombros ao saber que um ou outro fora 
apanhado pela Brigada. S no dia em que Vincent...
Nunca te falei de Vincent. Um rapaz engraado, diziam que era homossexual. Com efeito, no falava de sexo, e ns no lhe conhecamos nenhuma ligao de qualquer 
espcie, isso no parecia interess-lo. Tocava quase todo o dia, cantarolava em

voz baixa, perdido em interminveis "viagens". Tomava muitas vezes cido, mas tambm se injectava, e um dia pensmos que ele ia morrer na nossa frente. Ele tinha 
misturado uma anfetamina com morfina que lhe fora dada por um amigo farmacutico. Foi alucinante, de efeito quase instantneo... no sei como escapou!
Depois disso, no voltou a ser o mesmo. Sempre meigo, distante, mas como que perseguido pela angstia de sentir a falta da droga. Ento, como quase todos ns, comeou 
a traficar para arranjar dinheiro. Ter sido denunciado, os seus patres tero perdido a confiana nele. Certamente houve uma denncia. Talvez um grupo rival - punks 
que nos consideravam antiquados? Nunca se saber! O que  certo  que ele foi apanhado em flagrande quando passava cinco doses a uns garotos ricos que faziam jogging 
em Luxembourg...
Libertaram-no uns dias mais tarde, e ele foi buscar o seu saco-cama l a casa. Tivemos medo de que aparecessem os chuis atrs dele, mas deixaram-nos em paz. Se o 
visses, pobre infeliz! Um farrapo, vacilante, mal podendo andar. No disse nada aos outros. Abracei-o, e ele chorou durante mais de uma hora. Por entre os soluos, 
ia contando. Falava como se se tratasse de outra pessoa: fazia uma simples constatao. Fora brutalmente espancado para revelar nomes, moradas e para explicar como 
deixava a droga nos esconderijos onde o comprador a ia buscar depois de ter pago. Mas a polcia conhecia melhor esses truques do que ele. Depois tinham-no deixado 
sem droga, e ele rebolara aos ps deles, suplicando que o ajudassem; eles haviam troado dele e feito coisas que eu no tenho coragem de te dizer e em que nem quero 
acreditar. Finalmente, tinham chamado um mdico. Vincent batera com a cabea contra as paredes, para se matar, com as foras centuplicadas. O mdico dera-lhe uma 
injeco e mandara-o para a enfermaria da priso, dizendo aos polcias que no se podia tirar de repente a droga a um viciado. Como se eles no
o soubessem! Finalmente... conhecida a sua identidade, puderam contactar com a famlia dele... pessoas de bem, totalmente ignorantes do que o filho fazia. Pagaram 
a cauo. Ele ia voltar para junto da famlia, iria fazer uma cura, mas tinha receio.
- E se j for tarde de mais para mim? - dizia ele; e bruscamente acrescentou: - Volta para casa. Acaba com isto. S te conduzir ao inferno.
Depois foi-se embora, sem sequer me dar tempo para lhe responder.
Infelizmente para mim, ele pronunciara as nicas palavras que no devia. Voltar para casa? Sentia-me incapaz disso, verdadeiramente incapaz. No me tinham eles expulsado? 
Porque tinham ento tido filhos? E a minha me, se sabia que ia abandonar-me, porque eu era filha de um homem a quem ela j no amava, porque no abortara? Teria 
sido menos cruel.
Etienne, meu querido, se soubesses como eu gostaria de ter filhos teus! Se soubesses como eu me ocuparia deles! Mas tambm a isso eu devo renunciar. Hoje, quando, 
finalmente, me sinto capaz de assumir responsabilidades, tenho receio... medo por tudo o que eu fiz do meu corpo, droga ... e sexo tambm, tenham consequncias sobre 
as crianas que eu possa ter. Se houvesse sequelas? Se elas nascessem com uma hereditariedade demasiado pesada, taras de que no teriam culpa, se fossem anormais 
marcados para toda a vida? Eu no o suportaria, tu tambm no. Imaginas o nosso desespero, o futuro dessas crianas e o nosso? Se o primeiro fosse normal, eu voltaria 
a ter medo pelo segundo, pelo terceiro!

Oh, se eu te dissesse tudo isto de viva voz, tu abraar-me-ias, cobrir-me-ias as plpebras de beijos, a ponta do nariz, o queixo, as faces, rindo, mas tambm ralhando: 
"Que menina tu s ainda, que no sabe nada de nada, que imagina um romance negro, que cai em qualquer armadilha, acredita em qualquer balela. Pobre orfzinha, avezinha 
cada do ninho", e repetir-me-ias gravemente o que me disseste da primeira vez em que me beijaste: "Jlia, minha querida, daqui em diante eu serei simultaneamente 
o teu pai, o teu irmo, o teu amante, o teu amigo... e o pai dos teus futuros filhos, os nossos filhos! Mas serei tambm a tua me, que te acarinhar, te guiar, 
te explicar e te amar incondicionalmente..."
E acrescentarias, como j fizeste: "Passarinho assustado, friorento, mas que faz inchar orgulhosamente as suas penas para parecer ameaador por causa dos predadores 
que o espreitam, a si, to vulnervel..."
Tens razo, meu querido: vulnervel e menina. Mas uma menina velha que  to trgica como uma velha querendo passar por menina.
Uma noite, um pouco antes da Pscoa, vendo os outros partirem para umas frias mais ou menos longas, no tendo j dinheiro e sentindo-me incapaz de estender a mo 
aos transeuntes com uma receita para curar uma doena, como muitos fazem, e querendo arranjar um pouco de dinheiro para comprar brown sugar,  falta de herona, 
decidi ir falar com a minha me, a verdadeira. Quem sabe? Talvez ela tivesse pena de mim e me recebesse de braos abertos? Prometi logo a mim prpria, se isso sucedesse, 
pedir-lhe-ia que me mandasse fazer uma cura de desintoxicao. Prometer-lhe-ia renunciar  vida de loucura, desde que ela me quisesse.
Mas para no chegar l inesperadamente e incomod-la, resolvi telefonar-lhe primeiro. Mal podia falar, to comovida estava. Disse:
- s tu, mam? ... Sou a Jlia... Estou em Paris... queria ver-te... sou muito infeliz...
Comecei ento a soluar. Como ela no pronunciava uma nica palavra e respirava muito depressa, ofegante, julguei que estava to comovida, como eu. Entre dois soluos, 
consegui articular:
-  mam, no te comovas, vamos ser felizes as duas. A ele no o quero ver.
Com uma voz ntida, fria, como a voz do presidente de um jri a anunciar uma condenao  morte, ela declarou:
- H mais de doze anos que perdi a autoridade maternal, oficialmente.  certo que te abandonei. s filha do teu pai, e isso chega para eu te ter horror. Tenho outros 
dois filhos, sou viva, voltei a casar e sou feliz. No permitirei a quem quer que seja que venha perturbar a minha vida. Foi essa Brigitte que te criou. Se tens 
aborrecimentos com eles, no tenho nada com isso. Suponho que precises de dinheiro. O que ests a fazer sozinha em Paris? No me respondas. D-me a tua morada. Enviar-te-ei 
um vale... mas previno-te de que ser a primeira e a ltima vez.  intil telefonares-me. Nada temos a dizer uma  outra.
Desligou antes de mim. Eu nem queria acreditar no que ouvira, nem que ela tivesse desligado antes de eu lhe dar o meu endereo. No lho enviei. Ela tinha razo: 
nada tnhamos a dizer uma  outra.

Limpei as lgrimas. Pedi um pouco de p a uma amiga, dizendo que lhe pagaria algumas horas depois, e desci  rua.
J no tinha realmente importncia o que ia fazer. Ser uma pequena prostituta no seria certamente pior do que era aquela mulher: a minha me! Quem poderia acreditar 
que houvesse pessoas assim? E no entanto...
S te conto a verdade, meu amor, uma verdade srdida, mas a verdade.

Captulo 13

Tu, que seguiste uma via bem direita, Etienne, poders verdadeiramente compreender o que me sucedeu? Apesar da tua experincia de mdico, de psiquiatra? Deves imaginar 
que existe, no fundo de jovens como eu, uma tara de que no so certamente responsveis, mas que no deixa de ser uma tara. Isso no  correcto. Basta por vezes 
um incidente minsculo, uma atmosfera hostil, circunstncias adversas. Tu fizeste normalmente os teus estudos, voltando todos os dias para um lar feliz. Tu entendias-te 
bem com os teus pais, com os teus irmos e irms e nada destruiu essa felicidade familiar que ns achamos um pouco aborrecida, montona, para utilizar termos correctos, 
e que ento rejeitamos com insolncia.
Acreditars se eu te disser que muitos de ns, quando estamos drogados, sonhamos com essa felicidade inspida? Com esse paraso perdido digno do romance mais cor-de-rosa, 
onde amor rima com "para sempre"? E se existe promiscuidade entre ns, se aparentemente aviltamos o amor,  porque  s o que nos resta, num mundo que nos causa 
horror, o que nos d um simulacro de ternura e de esquecimento.
Infelizmente, o despertar desses simulacros  quase sempre to terrvel como estar em carncia de droga. Conheci as duas coisas. De cada vez  como cair por um abismo 
vertiginoso, primeiro num inferno escaldante, depois gelado. Simplesmente, a falta de droga deixa-nos mais ofegantes, mais devastados, do que a falta de amor.
Hoje ia voltar ao assunto em que fiquei ontem, mas fechei o caderno aterrada com o que teria de dizer. Para me tranquilizar fui rapidamente at  cozinha, onde Hlne 
preparava caramelos de chocolate e areias para a tua eventual visita no fim-de-semana. Mas eu sei que tu no virs antes de eu terminar esta confisso, ou ento 
que estars aqui apenas de passagem.
Queres deixar-me livre e no ignoras que se me apertasses muito ternamente nos teus braos eu poria estas pginas de parte e entregar-me-ia sem pensar s promessas 
de felicidade que a tua presena basta para me dar, mesmo que no entendas a necessidade desta "grande limpeza" do meu corao e da minha alma. Mas o meu corpo? 
Como devolver-lhe a sua inocncia, a sua pureza? Certamente poderia ter amado, entregar-me apesar da minha pouca idade: no seria a nica. O abominvel  que me 
vendi. Cientemente... Primeiro num gesto de raiva, de revolta, no dia em que a minha me me renegou pela segunda vez. Mas depois mais conscientemente, quando compreendi 
que era a melhor moeda de troca ao alcance das raparigas, fossem quais fossem os seus desejos!
Desci portanto  rua... fitei demoradamente um ou dois homens sozinhos que passeavam perto de Beaubourg. Segui um que se assemelhava vagamente ao meu pai e que me 
falou meigamente.
-  a tua profisso? Evidentemente que no, mas precisas de dinheiro. Afinal... agradas-me, e no tenhas medo, serei gentil para contigo. No sou um perverso. Conheces 
um hotel?

Compreendendo que eu era uma principiante, levou-me para o parque onde deixara o seu carro e comeou imediatamente a acariciar-me e a beijar-me. Estava muito excitado, 
tanto mais que eu me mostrava distante, para ser dcil, mas totalmente contrada. Quando chegmos perto da Madeleine, arrastou-me para o que eu suponho ser uma casa 
destinada a encontros desse gnero, mostrou-se muito ardente e deu-me todo o dinheiro que tinha na carteira; mil e quinhentos francos. Depois suspirou:
- Devias tentar outra coisa! Quando penso que tenho uma filha da tua idade! - Hesitou e depois acrescentou: - Suponho que te drogas?
No respondi e perguntei se podia ir-me embora. Ele vestia-se com um ar to triste como eu. Ouvi-o resmungar: "Porca de vida."
Mil e quinhentos francos para ser aviltada, sem contar com todos os perigos que corria!  certo que tomava agora regularmente a plula, mas aquele homem poderia 
ter uma doena venrea - no me fizera ele essa pergunta a mim? -, sobretudo se tinha o hbito de se deitar com raparigas que no estivessem sujeitas a inspeces 
mdicas. No tinha sequer com que pagar dois dias de droga! Os preos aumentavam. Quando um tipo mais novo me abordou, perguntando-me imediatamente: "Quanto?", perguntei 
a mim mesma se ele me teria visto entrar naquela casa com o outro, voltando a sair apenas uma meia hora mais tarde.
- Quinhentos... mais? Ento fazes truques? Pareces bem nova para seres j viciosa. Enfim, hoje em dia...
Seguiram-se vrias perguntas que eu prefiro no recordar. Que nusea! Mas de certa maneira sentia-me de tal modo infeliz que experimentava um desejo masochista de 
me rebolar pela lama, de levar as coisas o mais longe possvel. Era uma espcie de vingana...
Quando voltei ao loft, tinha seis mil francos no saco. Injectei-me imediatamente e estendi-me sobre a cama, esquecendo tudo e todos. Os outros tinham posto um velho 
disco dos Beatles, Lennon...
Mais um que se drogara e que finalmente parara, mas de que lhe servira isso? Fora assassinado por um louco! Talvez ns fssemos todos loucos e atribussemos demasiada 
importncia a essas ninharias. Pensando bem... esses tipos que tinham feito amor comigo... j nem me lembrava deles, era como se me tivesse limitado a levantar a 
saia para cima. Dois deles, apressados, nem sequer me tinham pedido para me despir. Tenho a certeza de que pensavam noutra mulher.
Eu j sabia que, quando as minhas provises de herona diminussem, voltaria  rua. Mas o que sabia tambm era que s me decidiria a isso depois de ter utilizado 
outros meios para arranjar dinheiro.
No ficars zangado comigo, Etienne, se no te explicar as experincias desagradveis que me valeram essas incurses ao mundo da prostituio paralela? A liberdade 
de costumes actual faz com que no haja diferena entre as raparigas ou as mulheres que fazem amor sem darem a esse acto verdadeira importncia, por vezes simplesmente 
porque se sentem ss e tm necessidade de que um homem as convide para irem ao cinema, a um restaurante, ou lhes oferea um pequeno presente banal. Tambm h as 
que dizem: "Se os homens no pensassem que ns somos para comprar, no nos venderamos!"
S muito raramente uma rapariga aborda um homem, a no ser que se trate de uma profissional. So eles que nos perseguem. A prova  que tambm eles tm problemas 
em muitos domnios.

Mas acho que fiz bem pior do que isso! Quero falar da venda de droga aos jovens, aos muito jovens. Apenas aflorei o problema neste caderno, h uns dias, porque o 
punha constantemente de lado. Para qu?
Isso sucedeu porque o senhor Alex me telefonou finalmente. Declarou ser conhecido do Dr. Alain Ferran. Ignorava que eu j ouvira falar dele em casa de Patrcia de 
A. No podia desconfiar que eu era a rapariga que ele encontrara no quarto de Jean-Marie.
Marcou encontro comigo no Luxembourg, em frente da Fonte Mdicis, no dia seguinte s dez horas, mesmo que chovesse. Havia apenas uma espessa bruma sobre Paris e 
muito pouca gente nas ruas. Por detrs dos culos escuros que ele usava, como da outra vez em que o vira, percebi que me fotografava, me reconhecia e me avaliava. 
Dessa vez tinha, com certeza, inteno de me propor colaborar com ele. Tive medo. No entanto, no o bastante para fugir antes de ele me dirigir a palavra. De resto, 
ter-me-ia apanhado. Props, com uma voz suave, baixa, cautelosa, como se nos vssemos pela primeira vez, que me sentasse. Eu no lhe estendi a mo. Mal entreabriu 
os seus lbios finos, esboou um sorriso irnico e atacou sem mais prembulos.
- Creio que tens necessidade de dinheiro? Injectas-te, com certeza. Farias melhor em tomar star dust.
Era desses que utilizavam, por snobismo, vocbulos anglo-saxnicos, que pronunciava de resto com um forte sotaque mediterrnico, mas no exactamente marselhs, talvez 
grego, com outras entoaes indefinveis.
- Porqu? Quer oferecer-ma? 
Percebi que se no queria que ele me tratasse como uma garota  sua merc precisava de me mostrar insolente e distante, muito dcimo sexto bairro, gnero new-wave. 
Felizmente, a minha aparncia, nessa manh, era perfeita. Era uma aluna liceal chique, no bom gnero. Afinal, eu andava num liceu muito bem frequentado, a cinco 
minutos de distncia dali.
- Julgava que hoje em dia toda a gente se tratava por tu. Tu s um pouco provinciana, no s?
- De que se trata?
- Ferran no te ps a par?  verdade que tambm ele deve proteger a sua fachada. Eu digo-te em poucas palavras.  simples. Eu tenho a mercadoria. Muito boa para 
aqueles que tm com que a pagar, de resto demasiado perigosa para os teus futuros clientes.
- Os meus futuros clientes? 
Ele comeou a rir e eu percebi que ele andava a seguir-me h j algum tempo. Compreendi que sabia que eu me prostitua. Certamente corei, porque ele riu mais e apertou-me 
contra si. Mas eu libertei-me violentamente.
- Ora, tenho tempo... quando me apetecer verdadeiramente... tenho com que te pagar mais caro do que os outros, se quiser... virs comer  minha mo.
- Isto parece-me um dilogo de cinema. Poderemos falar mais a srio? De que clientes se trata?
Ele fez girar a sua cadeira de ferro, e o seu olhar voltou-se para o lago. O tempo comeava a levantar. Era quarta-feira e havia j ali muitas crianas que brincavam 
alegremente, soltando gritos estridentes.
- So encantadores.  um trabalho fcil.

- Quer que eu a venda a estes garotos? So muito novos, no tm dinheiro. Poderia ser presa... Alm disso, eles so vigiados.
- Por quem? As mes, de um modo geral, trabalham... a famosa liberdade que as mulheres tm de se sentarem oito horas a uma secretria!
Alm do mais, o tipo era reaccionrio e gostava de pregar moral aos outros!
- Vender-lhes-s pequenos tubos de cola, que j lhes vendem nas papelarias; existem outros truques, mas primeiro tens de travar amizade com eles, e se aparecer uma 
me mostras-te simptica, dizes que costumas vir estudar para o Luxembourg, que adoras crianas, que no te importas nada de os vigiar. Declaras que queres ser pediatra, 
enfim, uma grande histria.
- No ser a vender-lhes cola que farei fortuna.
- No te preocupes. Comea assim, eles tm mais dinheiro do que tu pensas. Depois vender-lhes-s pequenas plulas e... para imitarem os grandes, passar-lhes-emos 
um pouco de farinha misturada... vers como eles a procuraro, e depois levar-nos-o at aos mais velhos,  infinitamente mais rentvel do que tu julgas. Em caso 
de necessidade, para obterem o seu pequeno flash... eles aceitaro fazer-me uma visita, todos esses garotos adoram ser fotografados.
Juro-te, Etienne, ignorava completamente, nessa poca, que existia um comrcio de fotografias pornogrficas feitas com crianas, especialmente rapazinhos, para homossexuais 
curiosos que as pagavam caras. Mas para conseguir renovar os modelos, para obter a sua docilidade, era necessrio, primeiro, torn-los dependentes. A droga, uma 
qualquer, desde que produzisse nesses garotos uma habituao e criasse uma necessidade, muitas vezes mais psquica que fsica, era o meio ideal para atingir esse 
objectivo...
Tentei recusar-me. Argumentei como pude at que, sem erguer a voz, o senhor Alex observou:
- Se o Dr. Ferran contasse aos teus pais o que tu fazes, por que motivo faltas tantas vezes s aulas, a causa dos teus passeios  volta de Saint-Germain des Prs... 
ou nos bairros mais mal-afamados, talvez eles te cortassem a mesada, no? E as casas de correco, sabes o que so? Se no me engano ainda no s maior, pois no?
Comecei a transpirar, a tremer. Sabia que precisava de me injectar da a menos de uma hora. O meu interlocutor conhecia-nos a todos muito bem. Mudou o assunto da 
conversa, mostrou-se agradvel, perguntou-me se eu continuava a frequentar as aulas, que parecia que eu era uma aluna brilhante! E o amor? Teria eu um namorado? 
S isso dava felicidade. Suspirou, subitamente sentimental:
- Ah, se tu quisesses, agradas-me muitssimo... uma pequena como tu... queres ir uma destas noites jantar a um restaurante verdadeiramente chique? Mandar-te-ei um 
lindo vestido, tenho relaes na alta costura. Se quiseres posso lanar-te nos meios mais elegantes!
- Voc? 
Creio que ele compreendeu o meu desprezo. No corou, empalideceu de uma maneira assustadora, com o seu olhar invisvel por detrs dos culos escuros.

- s atrevida... mas no o sers durante muito tempo. Continua assim e em breve estars no hospital, pequena cretina. Com a droga,  preciso viver dela e deixar 
que os outros morram. Eu ter-te-ia ajudado.
Quando o deixei, vacilava. Algum, na Rue Vaugirard, sem se deter, murmurou ao passar por mim:
- Devia meter-se num txi e ir para Marmottan imediatamente!
Suponho que se tratasse de um mdico e que o meu aspecto o tivesse alertado, embora no quisesse ver-se envolvido com uma drogada. O meu primeiro impulso foi voltar-me 
e interpel-lo. Desejava agarrar-me a ele como a uma bia de salvao, mas ele apressava visivelmente o passo. Comprendi que no se voltaria. Vi um txi vazio aproximar-se. 
Chamei-o e ao entrar disse maquinalmente:
- Hospital Marmottan.
O motorista no se voltou. Reparei que ele tentava observar-me pelo retrovisor.
- No se sente bem?
- Sim, sim. Estou muito bem.
- Ento  algum desgosto de amor. Porque  que est a chorar?
- Eu no estou a chorar! - Acendeu-se a luz verde, e o txi partiu sem o motorista me responder. Parecia-me que nunca mais chegaramos a esse local que eu ainda 
desconhecia e onde desejava, de sbito, que me fechassem, que me tratassem, me protegessem. Sentia-me terrivelmente cansada.
Gostaria que um acidente, uma prolongada doena me obrigasse a ficar hospitalizada durante meses, sem a possibilidade de me mexer, completamente abandonada aos mdicos 
e s enfermeiras. Querer bastar-me a mim prpria fora um fracasso, mas a culpa seria minha?
Receberam-me muito gentilmente, sem me fazerem perguntas, pelo menos durante alguns dias. Quando quiseram fazer a minha ficha respondi que era rf, que no conhecia 
ningum e que no daria o nome dos meus amigos. Esse anonimato no poderia durar. Dessa vez, um mdico de servio ordenou que me deixassem em paz. Depois se veria.
Mas no lhes dei tempo para isso. Quando comecei a sentir-me melhor, receei que prevenissem os meus pais. Temia que com a minha fuga e com o que dela resultara me 
encerrassem numa instituio severa, ou numa casa de sade onde seria vigiada noite e dia. Coisa que eu no poderia aceitar. Suicidar-me-ia!
Sim, foi em Marmottan, quando me senti pela primeira vez protegida, que eu encarei seriamente a possibilidade de pr fim aos meus dias! No via qualquer futuro. 
Sem dvida que se eu voltasse a frequentar regularmente o liceu, se levasse uma vida normal, poderia recuperar o tempo perdido desde h alguns meses. De resto, no 
estava atrasada nos meus estudos. Mas para onde iria viver se deixasse o loft e os meus nicos amigos?
A ideia de pedir aos Michelet para ir viver com eles era impensvel. No havia de resto lugar para mim na vida deles, calma, montona... e a a minha neurastenia 
s aumentaria. Mas se voltasse para junto dos meus amigos...

Voltei. De incio, limitei-me a fumar alguns cigarros de erva. No gostava de beber, isso punha-me doente, repugnava-me. Depois, uma noite, um rapaz que fizera uma 
prolongada estada em Marrocos levou-me a um cuscuz, a casa de uns amigos senegaleses. Eu sabia que era a que ele se fornecia de herona. No fundo, eu dizia para 
mim mesma, querendo enganar-me: "No me injectarei. Contentar-me-ei com uma limonada com um pouco de p, apenas o bastante para me sentir cool."
Era a primeira vez que eu entrava nesse repugnante ambiente do caminho Brunoy do ilhu Chlon. Era em Maio, recordo-me bem, em fins de Maio do ano passado. A noite 
comeava a cair. No passeio viam-se algodes ensanguentados. No limiar das casas, terrivelmente degradadas, cheirando a urina e a peixe fortemente temperado com 
especiarias, viam-se homens a conversar ou imveis, com os olhos perdidos no vcuo. Outros sentavam-se na beira dos passeios. Tipos visivelmente drogados paravam, 
contactavam rapidamente com outros que passavam, e seguiam mais rapidamente ainda, depois de terem trocado um mao de notas por um pequeno embrulho que eles desmanchavam 
febrilmente, antes de se esconderem, de qualquer maneira, atrs da porta de um daqueles tugrios.
- Tenho medo, olha para aquele homem com uma navalha na mo. 
- No te preocupes. Estamos a chegar.  um dos meus amigos. Ganha um dinheiro... mas apenas com os europeus.  um morabito. No se droga, juro-te, aconselhou-me 
a parar se quero evitar uma grande infelicidade... o que ele no sabe  que me estou nas tintas para todas as infelicidades que possam suceder-me... at as espero, 
j nada receio nesta vida!  ele que cozinha. Vais ver, os cuscuz dele so espantosos. As raparigas que o rodeiam so engraadas. Adoro as africanas. Nuas, so soberbas. 
Mas tu tem cuidado, elas no gostam que toquem nos homens delas. Contenta-te em comer e beber... dar-te-ei qualquer coisa como o paraso! 
Tive ainda tempo de o avisar de que nunca mais voltaria a provar nem LSD nem STP... 
- No, no, isto  melhor do que o cido. Confia em mim. 
Aqui no vale a pena pagar o avio. Viajamos, para o corao da frica sem nos deslocarmos.  um verdadeiro trovo!
Entrmos num compartimento nu onde se encontravam uns quinze rapazes e raparigas negros, de olhares vidos, incompreensveis e misteriosos.
Ia repetir-lhe que tinha medo quando um colosso de perto de dois metros se dirigiu para ns. Envolto numa sumptuosa tnica de seda branca entremeada com fios dourados, 
inclinou-se imperceptivelmente e com uma voz lenta, sonora e solene, acolheu-nos:
- Que Al seja convosco! 
Sinceramente, eu no acreditava que Al estivesse connosco. Talvez com o morabito, ou at com os seus companheiros. Mas ns ficaramos, com certeza, fora dessa bno. 
Ns que tnhamos seguramente mais necessidade dela do que qualquer outra pessoa!

Captulo 14

No escrevi durante trs dias porque tu estiveste aqui. Senti-me feliz e o passado apagou-se. Quando partiste, depois deste fim-de-semana maravilhoso, estive quase 
prestes a rasgar tudo, imaginando ento, como tu me tens dito incessantemente, que estes dois anos no passaram de um pesadelo que devo esquecer. Mas tu prprio 
deves recear qualquer coisa! Pois se vieste inesperadamente, sem sequer prevenires Hlne, foi devido  emisso, da semana passada, sobre a droga. Nela foram mostrados 
muitos rapazes e raparigas na ltima fase de intoxicao, horrorosos detritos humanos, cadveres vivos, verdadeiros farrapos humanos... e a maior parte deles no 
tinha mais de vinte e cinco anos: dir-se-ia serem velhos, dbeis mentais.
Ters adivinhado que, entre eles, descobri antigos amigos? No seria mais uma razo para fugir definitivamente desse universo demonaco? Infelizmente no foi essa 
a razo que te trouxe. Tu sabes que o horror provoca frequentemente, para ser esquecido, o desejo de voltar a qualquer dessas drogas susceptveis de apagar a realidade.
E  verdade que nessa noite, quanto tive a certeza de que a tua av estava a dormir, me dirigi, descala, para a casa de banho, para o pequeno armrio-farmcia, 
e que estendi a mo para uma caixa de comprimidos. Hlne toma, por vezes, calmantes. Ela tambm sofre de insnias que lhe fazem lembrar os maus momentos que deseja 
esquecer.
Voltei ao meu quarto e pensei em engolir todo o contedo da caixa. Continha uns vinte comprimidos, e eu receei que no fossem suficientes... disse a mim prpria 
que no tinha o direito de impor a Hlne... ir encontrar-me morta ou agonizante. Nem de te dar a ti esse desgosto. E de sbito percebi que mesmo um s comprimido 
seria perigoso: depois no poderia passar sem eles e seria a nova maneira de me drogar. Quantas mortes clebres no tem havido por esses excessos? Foi quando voltei 
 casa de banho, para ir arrumar a caixa, que ela me ouviu. Despenteada, plida, apareceu  entrada da porta e interpelou-me com uma violncia inusitada.
- Jlia, no fizeste disparates, pois no? Eu seguir-te-ia. Nunca seria capaz de suportar tal coisa... e de suportar o desespero de Etienne. Fala, diz-me o que tomaste. 
Chamarei o meu mdico. Se for preciso fazes uma lavagem ao estmago... No pode ser uma coisa irremedivel, no existem aqui produtos mortais... e no tenho seringa, 
nem qualquer gnero de ampolas!
- Oh, Hlne, no tenhas medo... quis, mas no fiz nada, juro. Desejava apenas dormir, mas mesmo isso meteu-me medo... uma vez basta!
- Uma vez? 
Hlne recompunha-se, apertava-me contra si, acariciava-me os cabelos, murmurava:
- Ainda h brasas na chamin, vamos acender a lareira e ficamos a conversar. Podemos dormir mais tarde, amanh de manh. Queres que diga a Etienne para vir c?
- No. Isso no. No quero que ele se inquiete...
No te chamou. Vi o espanto dela quando o teu carro parou em frente da casa. Tu adivinhaste. Tinhas visto a emisso.

Ento vivemos esses trs dias, ou melhor, dois dias e meio, como a vida devia ser sempre! Mas agora que partiste a angstia volta  superfcie e eu tenho de voltar 
 minha tarefa. No me sentirei tranquila antes de me desembaraar dessas recordaes. E sobretudo, como j te disse, acho que te devo isso.
Hlne e eu instalmo-nos na sala de estar, diante da chamin onde a lenha crepitava. Como eram duas horas da manh e tnhamos jantado por volta das sete e meia, 
na vspera, ela preparou uma refeio leve acompanhada por um grande bule com uma dessas infuses de que guarda segredo, com sabor a limo e adoada com mel.
- J alguma vez tiveste desejo de te suicidar? No receies que eu tenha inteno de te pregar moral, ou de afirmar que com a tua idade no h motivo para no se 
ser feliz e querer acabar com a vida. Isso  falso! Quanto mais novos somos mais iluses temos e suportamos pior perd-las e descobrir as hipocrisias e as fealdades 
da existncia. Isto no  romantismo,  saber, simplesmente, que de repente nos sentimos horrorizados. A mim sucedeu-me muitas vezes estar desgostosa com a vida 
aos quinze anos, e no entanto no vivi um drama familiar como o teu. - Hlne repetiu da a pouco, aps um silncio: - J alguma vez tiveste o desejo de te suicidar?
- J o fiz, j o tentei, e no me refiro ao facto de me injectar constantemente, o que equivalia a um suicdio lento, inexorvel. No, estava lcida, quando...
Em vez de acabar a frase mostrei-lhe os pulsos. Hlne no reparara ainda nas duas pequenas cicatrizes brancas.  verdade que eu as escondo, uma sob a pulseira do 
relgio, a outra debaixo de uma larga pulseira de marfim que me foi oferecida por um casal de amigos que veio de frica.
- Conta.
No sei muito bem por onde comear. J no me recordo em que dia isso sucedeu, nem sei exactamente por que razo, certa noite, me decidi. Talvez por todos os outros 
terem sado, convidados para uma festa onde eu no quis acompanh-los, algures no dcimo terceiro bairro... Sim, era no bairro chins, mas no iam a casa de asiticos; 
de resto, estes desconfiavam de pessoas como ns, receavam os nossos disparates, os nossos escndalos. So pessoas que muitas vezes escaparam a perigos terrveis 
e mostram-se extremamente prudentes. E se ali residem alguns grandes traficantes de droga, ns no sabemos quem so, e os pequenos dealers ignoram at a existncia 
deles. Tanto quanto me lembro, foi ao ouvir Largillier cantar que comecei a soluar e a repetir, como uma cantilena: "No posso mais... no posso mais..." O que 
j h muito tempo me era intolervel era o trabalho para o qual me orientara o terrvel Alex. De resto, tinha um encontro com ele no dia seguinte e tencionava anunciar-lhe 
que no devia contar mais comigo para vender droga queles jovens, ainda mais novos do que eu, que se no tivesse dinheiro preferia...
Hlne ergueu os olhos para mim e fitmo-nos durante muito tempo. Foi ela que suspirou:

- No, tambm no suportarias a ideia de te prostituir. Minha pobre filha, meus pobres filhos, como podem chegar a isso? Tm ento, todos, um desgosto to grande 
dentro de vocs?  certo que a moda, o arrastamento... mas  sobretudo o aborrecimento de viver neste universo onde s se fala de guerra, de tortura, de dio, de 
dinheiro... onde mesmo aqueles que invocam Deus, sob um nome ou outro, so fanticos impiedosos, quando no so hipcritas! Ento a voz dos outros, a que fala de 
beleza, de indulgncia, de compreenso, com sinceridade, como poder ser ouvida? E percebo bem que com o desemprego, as dificuldades econmicas, o futuro no seja 
muito encorajador para os jovens e lhes parea terrivelmente fechado. Como  que no se ho-de sentir atrados por qualquer coisa que lhes permita esquecer? Creio 
que um mdico desse hospital de que me falaste no outro dia escreveu um livro.
- Sim, Marmottan. O Dr. Olivenstein. 
-  isso. Um belo ttulo, perturbador: No H Drogados Felizes... Teria tambm podido escrever, sem dvida: "As pessoas felizes no se drogam", no achas? Terias 
tu comeado a drogar-te se no tivesses descoberto que a tua me... poder-se- dar-lhe esse nome?
De que serviria contar a Hlne o meu telefonema para Neuilly? No fora no entanto alheio  minha deciso. Voltei  minha narrativa. No disse imediatamente a Hlne 
que no lamentava essa tentativa. Foi mais ou menos graas a ela que te encontrei. Mas esse  o nosso segredo, no ?
- Estava portanto a chorar enquanto ouvia um disco e senti um desejo lancinante de me injectar uma ltima vez. Desse modo, estaria num estado de euforia no momento 
em que.. no escolhera ainda o modo de me suicidar. No sei porqu, a ideia de morrer de overdose repugnava-me. Podia-se sofrer terrivelmente antes de morrer, e 
eu no queria sofrer. Queria adormecer, no ter de pensar, de mentir, de correr perdidamente atrs do p branco, de uma plula, da erva. Correr atrs do dinheiro, 
dos traficantes, correr para fugir  vigilncia de Alex e de Ferran. Apenas os Michelet, essa boa gente a casa de quem eu continuava a ir almoar todos os domingos 
e que me viam cada vez com pior aspecto, me tranquilizavam um pouco. Um dos rapazes do loft, Vincent, barbeava-se com uma antiga navalha de barba do av. Era disso 
mesmo que eu precisava, uma bela lmina como me diziam que os africanos utilizavam nas suas lutas. Bastaria carregar um pouco, com um gesto rpido, da esquerda para 
a direita, num pulso, da direita para a esquerda, no outro!
- E tu fizeste-o?

- Primeiro injectei-me, esperei cerca de meia hora, continuei a ouvir o rdio, um posto ingls que toca msica jazz. Pensei se deveria escrever algumas cartas, mas 
no sentia desejos de dizer fosse o que fosse a ningum. De resto, toda a gente ficaria contente por se ver livre de mim. Foi fcil, nem sequer me apercebi, de incio, 
que sangrava, depois achei que era belo o sangue sobre a minha pele, sentia-me vogar como no convs de um veleiro, no Vero, ao sol. Em seguida ficou tudo azul diante 
dos meus olhos, luminoso e depois... nada... Acordei num quarto onde havia apenas uma luz dbil, com algum sentado ao lado da minha cama. Tinha uma agulha espetada 
junto do cotovelo e os pulsos estavam ligados. Abriu-se uma porta e uma voz disse: "No se incomode, minha senhora." Tentei abrir os olhos, mas no consegui. No 
entanto, ouvia todos os rudos, percebia o que diziam. O homem continuava: " normal que ela no tenha ainda acordado, esteve na reanimao muito tempo e talvez 
tenhamos de a levar outra vez para l, pois perdeu muito sangue.  preciso levar igualmente em conta o estado em que se encontrava e ainda se encontra. Somos obrigados 
a proceder com cuidado, a diminuir gradualmente as doses da droga. Precisar tambm de ser observada por um psiclogo. Estes garotos no se drogam sem razo... nem 
impunemente..."
Ele tinha dito "minha senhora", mas quem poderia preocupar-se comigo? Se tivessem prevenido o meu pai, ele teria certamente vindo... a no ser que tivesse enviado 
uma das irms dele. Eu que o julgava mais ou menos zangado com elas. Ou ento seria a senhora Michelet, a mulher do correspondente do meu pai? Sim, com certeza era 
ela. Tratava-se de uma mulher delicada que devia ficar muito perturbada com o que eu fizera. O mdico, pois no podia deixar de ser um mdico, prosseguiu: "S a 
teremos aqui o tempo que for necessrio. Poder lev-la dentro em pouco para casa. Vive na provncia, creio?" 
Mais uma vez eu queria abrir os olhos, mostrar que estava consciente, que ouvia a enfermeira  minha volta, arranjando a roupa da cama, verificando se a agulha estava 
bem metida na veia, apalpando-me a testa com a sua mo fresca e seca. Pareceu-me, num momento de silncio, que algum chorava, que abria o fecho de uma carteira, 
sem dvida para tirar um leno.         "Ainda no se tinham apercebido, a senhora e o seu marido, que esta criana se drogava? Diz-me que ela tem apenas quinze 
anos, que ainda no os fez...  verdadeiramente aterrorizador. Tenho no meu servio garotos de treze anos e menos. Outro dia trouxeram um mido que se tinha atirado 
de um oitavo andar. Estava a morrer e..."
Adivinhei um gesto da enfermeira para o mdico. Teria ela percebido que eu estava a acordar da anestesia, mas ainda incapaz de mostrar, mesmo por um bater de plpebras, 
que estava consciente? O silncio foi imediato. Ento os soluos da mulher que ainda no tinha dito nada tomaram um volume extraordinrio. Finalmente, ouvi-a murmurar, 
mas com uma tal violncia contida que era como um grito: "Que fazer, doutor? Seremos ns verdadeiramente os responsveis? Serei eu responsvel por um tal horror? 
Houve um grande mal-entendido. Encolerizei-me de uma forma absurda e disse... o que nunca deveria ter sido dito daquela maneira. Depois disso tudo se precipitou... 
e agora... o que havemos de fazer? No  possvel que nada se possa fazer... eu sei... est salva... de certa maneira, mas a droga, doutor... como cur-la desse 
vcio?"
Deixei de sentir vontade de abrir os olhos. Aquela voz era a de Brigitte.

Captulo 15

Brigitte... Ter escrito o nome dela mergulhou-me num desespero sem limites, apesar das tuas afirmaes, das dela e das de Hlne, a quem eu confessei, ou melhor, 
contei, a cena em que enfrentei Brigitte. 
Recordo-me do texto de um autor grego que tive de analisar recentemente numa aula de Francs: "Os deuses cegam aqueles a quem querem perder." Que demnios se meteram 
nesta triste histria de mal-entendidos acumulados? 
Ao ouvir a voz da minha madrasta, desejei, com todas as minhas foras, voltar a mergulhar num sono profundo. Ele proteger-me-ia desse encontro, das perguntas que 
me iriam ser feitas. Mas no mesmo instante, contra vontade, abri os olhos.
O mdico foi o primeiro a debruar-se sobre mim:
- Muito bem, recuperou a conscincia, minha filha. E volta de muito longe, mas agora o pesadelo terminou, e precisa apenas de recuperar as foras... perdeu muito 
sangue. Ter de comer grandes bifes. Quanto ao resto, mais tarde trataremos disso.
- Jlia! Que susto nos pregaste! 
Brigitte afastava o mdico e inclinava-se para me beijar. Eu respirava o perfume dela. Voltei bruscamente a cabea para o outro lado. Os lbios dela apenas puderam 
aflorar os meus cabelos. Mas nem a enfermeira nem o mdico notaram que eu me esquivara.
- Deixo-vos. Devem ter muitas coisas a contar uma  outra. Se precisarem de Nadine, toquem. Eu volto mais logo.
Brigitte exclamou:
- Oh, minha querida, minha pequena Jlia. Porqu... Nunca devamos ter-te deixado partir, no compreendo, interpretaste tudo to mal! Mas acabou-se! Logo que possas 
sair do hospital voltars para casa, no  verdade? Meu Deus, estou a
fatigar-te, tu ainda no tens foras para falar. Olha, trouxe-te rosas brancas, as de que tu mais gostas, por serem to raras. E frutas cristalizadas. Ainda gostas 
delas, no gostas? Depois, quando estiveres boa, iremos comprar todos os vestidos e calas de que gostares. Est bem?
Fazer-se perdoar com presentes! Era isso que ela queria? Durante alguns instantes revi a abominvel cena, mas a verdade  que j nem me lembrava desse famoso Frdric 
pelo qual eu me julgara vagamente apaixonada e que era o amante de Brigitte. No me recordava sequer da cor dos seus olhos.
- Um mal-entendido! Ouviste o que eu disse, Jlia? Mas no falemos mais disso. A nica coisa que conta  curares-te, no voltares a fazer um disparate to grande. 
No podes saber como me assustei! Prometes que no te drogas mais?
- E o pap? 
Ela apertou-me contra si e tocou desajeitadamente nos meus pulsos feridos. Gemi:
- Ests a magoar-me. No me respondeste. O pap tambm est  minha espera?
Ela baixou a cabea, fungou... assoou-se, limpou os olhos. Fui eu que respondi:
- No! 

No, o meu pai no me esperava. No queria esperar-me. No me perdoara ter estragado a sua felicidade. De qualquer modo, as minhas acusaes, a minha fuga.... e 
agora a minha vida de drogada, a minha tentativa de suicdio, por fim, estragavam-lhe a existncia calma que ele desejava aps o desgosto e a perturbao provocados 
pelo abandono da minha me. Mas eu precisava de responder tambm  pergunta bem definida de Brigitte:
- No, no recomearei. Vou tentar no me drogar mais.
- Cala-te, suplico-te. Vamos acarinhar-te. Dentro em breve nem sequer te recordars deste pesadelo.
- No. No quero voltar. Tenho de ficar em Paris para terminar o meu ano escolar. J perdi tempo suficiente. E depois no sou capaz de viver com vocs todos...
- Jlia!
- Jlia est farta, Brigitte, farta das vossas mentiras, das vossas hipocrisias e definitivamente do vosso modo de viver.
- Preferes destruir-te?
Pela terceira vez gritei:
- No! - Depois, um pouco mais calma, acrescentei: - Tambm estou farta dos drogados e de toda a fauna que anda em torno deles, farta do mundo, das vossas guerras, 
das revolues deles e de todas essas crianas que continuam a fazer... para qu a vida? Para o cataclismo nuclear?
- No te enerves, peo-te. Vou deixar-te, precisas de descansar, mas repito-te que, se pudermos, o teu pai e eu faremos qualquer coisa para que tu recuperes a confiana 
na vida!
- E, se for necessrio, mandam-me para a priso?
Brigitte estava j de p. Fez-se um grande silncio. Ela parecia petrificada.
- Para a priso? Que ests a dizer? Que disparates fizeste tu?  melhor confiares-te a mim, eu talvez te compreenda melhor que o teu pai, sou mais indulgente, poderia 
arranjar as coisas.
- Tranquiliza-te, que de momento no creio que me arrisque a ser presa, embora tenha feito coisas repugnantes que so, seguramente, contra a lei. Mas nunca fui presa 
e espero no estar na lista negra.
Ela escondeu o rosto entre as mos, murmurando:
-  horrvel. Tu no compreendes que o que a droga vos faz  horrvel?
Sentia-me fatigada, queria que ela se fosse embora, me deixasse reflectir sozinha no que queria fazer. Fechei de novo os olhos e murmurei:
- Deixa-me. Ouviste o que disse o mdico? A nica maneira de nos curar, excluindo a priso...
- Depois zombei: - O que  que quer esse tipo? Na priso, as pessoas continuam a drogar-se, a injectar-se, o trfico continua, no sei como, mas continua. Contaram-me... 
amigos que estiveram l uns meses. Saram de l mais desgostosos com a vida do que nunca.
Brigitte estava aterrorizada:
- Meu Deus, mas como  que chegaste a dar-te com crpulas desses? Eu tinha-te educado to bem. Eras uma rapariguinha verdadeiramente adorvel!
No eram palavras que ela devesse dizer. Mais uma vez protestei:
- No! 

J no sabia bem a que dizia "no", mas essa recusa dirigia-se em bloco a tudo o que Brigitte tivesse podido propor-me. Depois, voltando-me, acrescentei:
- Arranja-me, o mais depressa possvel, um quarto. Quero viver sozinha. Irei regularmente a casa dos Michelet. So boas pessoas. No me darei com mais ningum, prometo-te. 
Mas  preciso que me ajudem. - Mais tarde, ento...
Ouvi-a suspirar profundamente, murmurar por fim:
- Tentarei convencer o teu pai... sabes como so os homens, e tu desiludiste-o tanto! Os teus irmozinhos ficariam to satisfeitos por te voltar a ver... ns dissemos-lhes 
que tu vivias em Paris por causa dos estudos, e eles esto sempre a pedir para os trazermos  capital.
Brigitte tentou enternecer-me. Fingi adormecer. Ouvi-a afastar-se em bicos dos ps. Quando tive a certeza de que ela se fora embora e no voltaria, abri os olhos.
Sobre a mesa-de-cabeceira, ao lado da jarra com rosas, encontrava-se um bilhetinho: "Ters o teu quarto, mas deves aceitar que eu venha visitar-te, pois caso contrrio 
Jacques recusar e levar-te- para casa  fora: no esqueas a tua idade. A lei est connosco."
Aquelas ltimas palavras estavam a mais. Detestei-a novamente. Afinal fora ela que destrura a paz do meu universo. Desejava permanecer o mais tempo possvel no 
hospital, o tempo suficiente para me desintoxicar, e tambm o tempo bastante para os meus antigos companheiros e o senhor Alex me esquecerem.
Sabes, Etienne, eu era ainda muito ingnua. Dois dias depois comearam a aparecer visitas. Algumas ditadas pela amizade, mas nem todas. Alain Ferran foi o primeiro, 
precedido por um soberbo ramo de flores. Mas se estava inquieto era mais por ele prprio do que por mim. Receava que eu contasse coisas a respeito dele. Ameaou-me 
de uma maneira encoberta.
- Aparentemente, as coisas no se passaram muito mal com a tua madrasta...
No gostei que ele me tratasse por tu. Respondi secamente:
- Aparentemente. O essencial, agora,  arranjarem-me um quarto no muito mau e que aumentem um pouco a minha penso. No me faa perguntas. No falei nem de si nem 
do senhor Alex.
- Ah, j me esquecia de uma notcia que te vai agradar: Alex saiu de Frana... para ir passar umas prolongadas frias... nos Estados Unidos. Que o Diabo o conserve 
por l!
O meu alvio foi to notrio que ele sorriu, descontraiu-se e confessou:
- Eu tambm no estou descontente com isso! - Subitamente confiante, acrescentou: - Tambm eu, num determinado momento da minha vida, me desorientei! No, com a 
droga no. Fumei uma passa de erva, como toda a gente, mas a cocana metia-me medo. Um dos meus amigos teve de fazer uma operao ao nariz para lhe porem uma membrana 
plstica por causa disso. Mas bebo... tenho problemas... adivinhaste, rapazinhos... muito pequenos... por vezes rapariguinhas tambm, brincadeiras com uns e outras... 
nada receies, tu s j demasiado crescida.  a razo do meu divrcio.
Sentia-me tomada de uma repugnncia sem limites. Decididamente, a natureza humana nada tinha de belo. Ao mesmo tempo, tinha pena dele. E ele, pelo menos a meus olhos, 
era j um velho. Portanto incurvel. Prometi.

- Considero-o um bom advogado. O resto no me diz respeito. Claro que nada direi, mas arranje maneira de eu ter um tecto decente ao sair daqui e dinheiro bastante 
para poder levar uma vida conveniente, com amigos, digamos... mais burgueses.
Ele prometeu, cumpriu a sua promessa, e quando sa do Htel-Dieu, com anica obrigao de me dirigir regularmente a um centro de desintoxicao, toda a gente, inclusive 
eu prpria, podia pensar que estava completamente curada, assim como das minhas veleidades suicidas.
Era contar sem a solido, a angstia nascente dessa solido, contar sem a minha fraqueza e sem o liceu...
No voltei para o loft das proximidades de Beaubourg. Aos amigos do grupo, que foram visitar-me ao hospital, disse que a minha famlia me obrigara a regressar a 
Tours. Fraca mentira, depressa descoberta. Mesmo na minha turma, havia duas raparigas que se drogavam e se davam com o grupo. Dos trinta alunos da turma, mais de 
um tero injectava-se com o que lhes ia parar s mos. Rapazes e raparigas roubavam ou prostituam-se para poderem obter a mercadoria, tornavam-se por sua vez traficantes 
e, como todos os drogados... faziam adeptos!
Mesmo sem te ter encontrado, parece-me que teria resistido: comeava a compreender o declive pelo qual escorregava. Tinha agora pressa de terminar o mais rapidamente 
possvel os meus estudos para me tornar independente. Mas, apesar disso, no sabia ainda que profisso me agradaria.
Como muitas raparigas, sonhava vir a ser jornalista, viajar, contar histrias! Gostava muito do pequeno estdio que Brigitte me alugara, perto do Jardim das Plantas. 
Em breve, as cerejeiras do Japo estariam cobertas de flores. Iria estudar  sombra delas.
Mas Brigitte telefonava-me um pouco frequentemente de mais. Comecei a ter a impresso de que ela me vigiava e passei a mostrar-me mais distante. O meu pai no me 
falara uma s vez para saber como eu estava. Brigitte devia aproveitar a ausncia dele para me telefonar. Deduzi da que ela se sentia verdadeiramente culpada e 
que tentava fazer-se perdoar. Nessa altura quase no saa, mas  noite recebia alguns amigos que vinham ouvir msica. Alain Ferran oferecera-me um gira-discos!
Claro que esses amigos fumavam um pouco e namoravam, mas eu mantinha-me ajuizada sob todos os aspectos. Quando me sentia tentada, olhava para as cicatrizes, ainda 
vermelhas, dos meus pulsos. Sem dvida teria conseguido, sobretudo se tivesse tido boas notas nos exames.
Infelizmente, uma noite, um camarada, Jean-Pierre Vallon, chegou perturbado, com o Le Monde nas mos.
- Conheceste, em Tours, um rapaz chamado Jean-Marie? - perguntou.
- O que  que lhe sucedeu?
O passado veio subitamente  superfcie: a minha fuga na moto de Jean-Marie, a chegada ao loft dos amigos dele... as nossas poucas semanas de amor... Patrcia... 
a vivenda de Deauville.
- Estou a falar contigo! 
Ele estendeu-me o jornal. Bastou-me ler o ttulo: Morto com overdose, aos vinte anos, em condies ainda misteriosas.

Tive de me apoiar  parede para no me desmoronar. No era a primeira morte de que tinha conhecimento, mas Jean-Marie era diferente! Eu nem queria crer, devia haver 
engano na pessoa. Comecei a ler o artigo. Tudo era ainda mais perturbador do que eu julgara.
Jean-Marie fora encontrado, na vspera, na sumptuosa vila dos A., entre Deauville e Trouville, porque o empregado encarregado de medir os contadores da electricidade 
ficara admirado da ausncia dos guardas e at do co. Dera a volta  casa, pelo exterior, e fora alertado pelo cheiro nauseabundo que provinha de uma das janelas. 
Sabia que era o cheiro de um cadver em decomposio. Tomado de pnico, alertara a polcia, que pudera apenas constatar a morte de Jean-Marie. Uma morte ocorrida 
seis dias antes! No comeo do fim-de-semana anterior... quando a casa se encontrava cheia de convidados...
O reprter falava do possvel escndalo que poderia atingir celebridades do mundo do espectculo e do jornalismo, mas no insistia. O seu chefe de redaco devia 
ter-lhe aconselhado prudncia. De resto, os A., aps um interrogatrio rotineiro, tinham sido autorizados a sair de Frana para uma viagem que diziam estar prevista 
h muito tempo. Dizia o jornal que Patrcia de A., perturbada com a morte do seu jovem amigo, partira tambm para ir repousar algures.
- No podero evit-lo - murmurei. - O escndalo rebentar.
- O escndalo? 
Sentia os nervos em franja. Pedi um charro ao meu companheiro. Quando fumei o terceiro, comecei a falar de Jean-Marie e dos A. Como ter terminado essa noite? J 
no sei. No fim, sentia-me planar. Era, uma vez mais, uma garota perdida, que desejava apenas esquecer.

Captulo 16

O mdico diagnosticara bem, pois s evocara a priso por humor. Humor negro, claro! S um grande amor por um drogado, da parte de um rapaz ou de uma rapariga que 
no se droguem, pode com efeito curar um drogado do seu vcio. Mas apenas o amor de um ser que no se entregue a nenhum gnero de estupefacientes e que tambm no 
dependa do alcool.
O camarada nos braos do qual eu chorei nessa noite no estava mais apaixonado por mim do que eu por ele... tambm no era muito forte, era da mesma idade que eu... 
e tambm ele estava em vias de estragar a sua vida, passando da utilizao de drogas fracas para as duras. Os pais dele encontravam-se separados, e ambos lhe davam 
bastante dinheiro... para se fazerem amar. Voltamos sempre aos nossos pais e aos problemas deles a acrescentarem-se aos nossos.
A mim ainda me faltavam, infelizmente, cinco longos meses para te encontrar: o tempo bastante para descer uma encosta que acabara de subir, unicamente por ter estado 
s portas da morte!
Nem sequer foi preciso esse tempo para eu me tornar, de novo, um farrapo humano. Oito dias depois de ter sabido da morte de Jean-Marie, injectava-me outra vez com 
herona: no encontrara outro meio para atenuar o meu desgosto, o horror dessa morte e a minha solido.
Ao princpio, uma s dose por dia bastava-me, e era Pierre-Jean que ma oferecia. Sei que  escandaloso, mas, na altura, esse rapaz que acabava de fazer quinze anos, 
enquanto eu os faria da a dois meses, gastava por dia cerca de trs mil francos! Sim, leste bem! De resto, conheces o preo da herona e da cocana. No me pedia 
para dormir com ele por causa disso. Creio que ainda era virgem e no sabia para que sexo o impeliriam as suas tendncias. Na verdade, falava apenas da me, que 
dizia ser a mais bela, a mais inteligente, a mais dotada, a mais amada por todos os homens que se aproximavam dela. Era escultora e separara-se do marido devido 
aos seus cimes doentios.
- Ele sofre muito - dizia Pierre-Jean. - Tambm ele a ama, e eu tenho pena dele, porque  bom, mas no  um artista. S  capaz de ganhar dinheiro... e de o desbaratar. 
Tornou-se alcolico e comeou a jogar. Um dia acabaremos por ficar todos arruinados...
Entretanto, com o dinheiro que Pierre-Jean gastava, para acabar por se matar, poderiam viver trs ou quatro famlias ou mesmo mais. Comeara a fumar aos doze anos! 
De resto, tinha uma figura de velhinho, macilento, com um corpo raqutico, descarnado. No ano anterior fora operado a um abcesso maligno, na garganta.
- No tenho desejo de chegar a velho - afirmava ele. - A vida  por demais repugnante.
No ousava concordar com aquela apreciao, mas no estava longe de pensar como ele. E no ramos os nicos!

Agora, meu querido, sei que uma vida aparentemente banal pode reservar felicidades incalculveis: basta-me ver Hlne, observar o intenso prazer que ela tira, apesar 
da idade que tem, de cada gesto, de cada momento da sua existncia, embora solitria. Mas, nessa poca, eu apenas descobria as mentiras dos adultos, as suas hipocrisias, 
os seus compromissos, e parecia-me que s o dinheiro os interessava. E gastar sem conta, apenas para nos envenenarmos, parecia-me uma justa revolta.
Quando uma pessoa fica totalmente viciada pela herona, os outros estupefacientes deixam de ter interesse para ela... deixa-os para os principiantes! Depois de uma 
dose diria passei para duas, para me sentir bem, e passado algum tempo tive de as aumentar mais um pouco.
As horas em que sentamos a falta da droga eram cada vez mais torturantes, e Pierre-Jean, os amigos dele e eu tnhamos apenas um objectivo: fazer fosse o que fosse 
para evitar esses sofrimentos demonacos que nos levavam a rebolar pelo cho como animais a uivar de dor, suplicando que tivessem piedade dos nossos corpos que se 
dilaceravam por dentro, tremendo com um frio mortal.
Ah, Etienne, tu nunca foste mais do que testemunha desses gritos, dessas splicas, e isso bastou para te perturbar, como me disseste, durante dias e dias. Mas se 
tivesses conhecido esse martrio na tua prpria carne, se tivesses compreendido que, com a falta de droga, um drogado  capaz de vender o pai e a me e de agir da 
maneira mais degradante, desde roubar a matar, se for preciso, para obter a injeco que ir apazigu-lo durante algumas horas... No julgues que nos momentos de 
lucidez no temos vergonha, e que no sabemos que corremos para a autodestruio, to certamente como se nos lanssemos para o meio do mais mortfero dos combates... 
Mas no  o nosso esprito, a nossa inteligncia, a nossa vontade que nos guiam:  o nosso corpo! Um corpo incapaz de suportar o martrio que sofre.
No suponhas tambm que jovens como Pierre-Jean, eu e outros ignoramos que drogar-nos na adolescncia  uma condenao  morte prematura. Mas, num certo sentido, 
nenhum de ns deseja viver at  velhice: no queremos vir a ser como aqueles que condenamos, no me cansarei de o repetir.
Mas vejo que me afastei da narrativa que te queria fazer antes de vires passar as frias da Pscoa! A Ressurreio! Se pudesse ser tambm a ressurreio da rapariguinha 
que eu era antes da terrvel descoberta. A esse propsito vou abrir outro parnteses. No h dvida de que fujo de certas recordaes, repetindo a mim mesma que 
 suprfluo voltar a falar de acontecimentos que j te contei, visto que, aps esse ltimo drama, tu foste o primeiro rosto amigvel que se debruou sobre mim.
Porque  que quase ralhaste comigo no outro dia! Eu estava aninhada, nos teus braos. Tnhamos feito uma longa caminhada, e acabvamos de chegar perto, da praia, 
em semicrculo, da baa de Ecalgrain. O sol atravessava, por fim, as nuvens muito brancas, semelhantes a montanhas nevadas, que vinham de leste. O mar estava mais 
liso que um lago. Era soberbo e irradiava, de tanta imensidade, uma sensao de serenidade absoluta. A gua tinha reflexos de tom azul-turquesa e cinzento-avermelhado. 
Duas gaivotas planavam silenciosamente diante de ns. Estvamos sentados sobre a erva macia, salpicada de flores brancas e de giesta. Apertando-me contra ti, murmuraste:

- Nunca te ocorreu que possas, ter-te enganado? Tu s demasiado impulsiva, minha querida. Mas agora j no s uma criana. Dentro de menos de dois meses ters dezasseis 
anos. Pensava esperar por ti at ao teu aniversrio do prximo ano. Mas  absurdo... e no me sinto capaz disso! Se quiseres, casamo-nos em Outubro. Sers uma mulher... 
s uma mulher. No poders, como eu fiz em relao a ti, esquecer as fraquezas dos outros? Perdoar-lhes o mal que involuntariamente te fizeram? No s capaz de compreender 
que tambm eles sofreram muito?
Como tenho ainda dificuldade em entender esse gnero de linguagem! Repliquei, um pouco asperamente:
- Sofrer... por enganar o marido? Sofrer por repelir a sua prpria filha... e j no falo na minha me. No se  me simplesmente por aceitar dentro de si a semente 
de um homem que j no se ama. Mas o meu pai?
Olhaste-me com uma severidade inusitada. E tambm com inquietao. Tive a impresso de que me julgavas, de que me condenavas. Fui imediatamente presa dos meus demnios, 
afastei-me de ti.
- Ser que tambm te pareces com eles? - perguntei.
Ficaste com uma expresso to infeliz que me voltei. A paz ambiente s fazia com que a minha angstia aumentasse. Eu, que desde a minha chegada a casa da tua av 
escrevi apenas para te demonstrar e demonstrar a mim prpria que era indigna do teu amor, assustava-me com a ideia de estares desiludido, de me amares menos! Como 
somos ilgicos, meu amor. No entanto, tu repetias:
- E se te tivesses enganado? Se tivesses inventado um romance... que no existiu?
- Que queres dizer?
- Se Brigitte ama verdadeiramente o teu pai, se se dedicou, de corpo e alma ao beb que tu eras e te considerou como sua prpria filha, to querida como os que nasceram 
da sua prpria carne? Se ela nunca tiver deixado de os amar a todos ternamente?
Creio possuir uma natureza terrivelmente ciumenta. Durante alguns segundos fiquei escandalizada. Ento, ela tinha-te seduzido tambm a ti, porque era ainda bonita, 
atraente, sensual. Estava louca de clera.
- Ela iludiu-te, como a toda a gente?
- Oh, minha querida, minha avezinha ferida que levanta as suas penas contra inimigos imaginrios, que ests tu a inventar agora?
Encostaste-me a ti e comeaste a acariciar-me os cabelos como se faz a um animal que se quer acalmar. Mas continuavas a ralhar-me.

- No deves duvidar assim de toda a gente. Sobretudo de mim, mas dos outros tambm no. Acrescentarei que mesmo que Brigitte tivesse amado outro que no o teu pai... 
terias tu o direito de a julgar... ela faltou aos seus deveres para contigo? O que se lhe pode censurar  ter-te dito brutalmente o que a tua verdadeira me fizera. 
E o teu pai?  certo que se encerrou numa atitude condenvel como pai... mas compreensvel da parte de um homem da idade dele, com princpios rigorosos, de um homem 
a quem a vida j ferira profundamente no aspecto sentimental, de um homem, enfim, que no admitia que a sua prpria filha fosse destruir o seu lar, at ento feliz. 
- Aps um longo silncio que no tive coragem de interromper, tu concluste: - Isso no me diz respeito... mas tenho a convico de que a tua madrasta no tem nada 
a censurar a si prpria, e que aquilo que tomaste por um gesto de cime da parte de uma amante... foi apenas o sobressalto de uma mulher que conhecia bem o tipo 
de homem pelo qual uma garota como tu se sentia perigosamente atrada. Receava as consequncias dessa atraco, receava esse Don Juan provinciano que devia apreciar 
os frutos verdes.
- Foi o que ela te disse? 
Tinha-me levantado e voltava-te as costas, olhando o mar que se estendia na nossa frente. Tu obrigaste-me a voltar-me e a enfrentar o teu olhar grave e triste.
- Amo-te, Jlia, amo-te de alma e corao, mas se tambm no tens confiana em mim...
Sem acabares a frase, voltaste-te e comeaste a caminhar com grandes passadas. Eu ansiava que esperasses por mim, que me chamasses.
Mas continuaste a andar. O vento batia-me nos cabelos. Para te apanhar, fui obrigada a correr.
Nessa mesma noite, voltaste para Paris. No momento de pores o carro em andamento, inclinaste-te uma vez mais para fora para me sorrires. O teu olhar era novamente 
meigo, terno, cheio de amor. Mas murmuraste:
- Reflecte, querida. Calmamente... como uma rapariga crescida... talvez te tenhas enganado. No sentes desejo de deixar de sofrer? Pensa bem! Tanta coisa talvez 
por nada...
A falar verdade, ainda no deixei de pensar nisso desde a tua partida. Revivi cem vezes essa famosa cena que esteve na origem das minhas infelicidades. No me sinto 
ainda capaz de te responder: "Tens razo. Enganei-me!"
Para ser completamente sincera, no admito que tambm o meu pai me tenha repelido. Se ele tivesse ido ao hospital depois do meu suicdio falhado... nessa altura 
cedeu apenas s minhas exigncias materiais, ordenou aos correspondentes que me vigiassem, deu instrues a Alain Ferran, permitiu a Brigitte telefonar-me, preocupar-se 
comigo.
Mas a verdade  que no se incomodou, no me escreveu nem me telefonou. Pode compreender-se isso da parte de um pai? Eu esperava que ele o fizesse!

Captulo 17

Acompanhei Hlne  igreja de Saint-Germain des Vaux para a missa de Ramos. Os nossos ramos de buxo foram benzidos. Depois, Hlne apresentou-me aos seus amigos 
e conhecidos, explicando: "A minha futura nova neta." Eu teria querido protestar. No ousei faz-lo. Aquela boa gente felicitava-me e felicitava Hlne, dizendo: 
" muito bonita.  noiva de Etienne ou de outro dos seus netos?" Depois, dirigiam-se a mim, perguntando-me se j terminara os meus estudos, insistindo no facto de 
eu ir ter o melhor marido do mundo, afirmando que virias a entrar um dia para a Academia de Medicina. Adivinhei que o facto de seres psicanalista os interessava 
menos que seres interno dos hospitais. Eu sentia-me corar a cada um dos seus cumprimentos. So respeitveis, encantadores, mas com umas ideias extremamente convencionais!
Durante o almoo que se seguiu a essa longa missa, no pude deixar de troar um pouco do notrio e da mulher e do gordo lavrador com uma ranchada de filhos.
Se eles soubessem quem eu sou e o que me sucedeu, apesar da idade que tenho, confessa que ficariam consternados, que lamentariam, Etienne, e que no augurariam nada 
de bom para um casal como ns!
Hlne riu, aquiescendo com um gesto. Em seguida, comeou a contar-me que essas famlias tinham, como todas, histrias que no eram to respeitveis como isso.
-  a vida, minha querida, e eu no gosto de mexericos. Tu drogaste-te. a praga da nossa poca. Mas em algumas famlias houve alcolicos... indivduos que, digamos, 
no possuem uma concepo muito rigorosa da honestidade, outros que nem sempre tiveram a conduta que seria de esperar de bons patriotas, outros ainda que no so 
filhos do pai cujo nome usam; e tantas outras coisas que no caem sob a alada da lei mas que nem por isso so estimveis. Vamos, no te faas pior do que s!
Quando, a tua av me fala assim no posso deixar de pensar que me prostitu simplesmente para comprar um pouco de droga, que concorri, felizmente no por muito tempo, 
para intoxicar crianas que, por minha culpa, talvez nunca venham a ser adultos sos ou nem cheguem mesmo a tornar-se adultos! Esse , dos meus crimes, o que encaro 
com maior dificuldade. Tu costumas ajudar-me, constatando: "Se no tivesses sido tu, outros o teriam feito!"
Mas quando, por sua vez, Hlne me falou de Brigitte, do pap e dos meus irmos, no suportei mais e exclamei:
- Que conspirao ests tu a preparar com Etienne? Conheo-te! Imaginemos que Etienne tivesse atravessado o inferno cujas etapas todas eu percorri. Os pais dele 
t-lo-iam abandonado como fez o meu pai? E se isso tivesse sucedido, embora eu saiba que seria impossvel, porque o pai dele  teu filho, e porque a me dele... 
bem, a me dele no  como a minha me, nem como Brigitte... tu dar-lhes-ias razo?

- No  a mesma gerao, minha querida. Ns obedecamos a certos princpios. Seriam os melhores? Por vezes sim. Mas obedecer s leis, simplesmente por recear o julgamento 
da sociedade, no , por definio, mais honroso e muitas vezes mais corajoso e menos honesto do que contrariar essas leis. Tu s muito categrica nas tuas apreciaes. 
Enfim, quem conhece... os caminhos da Providncia? De um mal pode sair um bem. No foi preciso viveres esse calvrio para teres encontrado Etienne? Ele  mais velho 
do que tu quinze anos, e deves calcular que tenha encontrado antes de ti outras mulheres e raparigas. Esteve apaixonado como o estamos todos, rapazes e raparigas, 
vrias vezes, depois dos quinze anos de idade. O homem que ele  conheceu com certeza paixes, tanto fsicas como sentimentais, decepes, cansaos. E foi esse homem 
feito, cuja profisso o ajudou a conhecer ainda melhor a alma humana, que me disse...
Querida Hlne, como ela hesitava em faltar  discrio contando-me as tuas confidncias. Mas eu percebi bem que ela achava necessrio dar-me a conhecer a verdade, 
embora tivesse de te trair.
- Compreendes que s o grande amor de Etienne, o seu nico e verdadeiro amor, aquele que permite compreender tudo, perdoar tudo, aquele que tambm exige tudo, uma 
dvida incondicional, assim como ele se d incondicionalmente a ti. Foi isto o que ele me disse, aquilo que no confiaria a qualquer amigo, nem ao pai, nem  me...
Eu esperava, com o corao a bater. Fomos instalar-nos ao sol, no jardim. Hlne tinha o seu eterno tric entre as mos, eu tinha um livro que conservava fechado 
sobre os joelhos. Sentia-me to perturbada que no me lembro do ttulo dele, mas apenas do gesto com que o abria e fechava, de tempos a tempos.
"- Eu no s a adoro, av, como tenho por ela um respeito, uma admirao que nunca senti por nenhuma outra."
- Hlne, troas de mim! Respeito e admirao: ele por mim? O inverso, sim, est bem. Mas, Etienne, que sabe at que ponto eu ca, no pode sentir admirao e muito 
menos respeito por mim! Piedade, ternura, amor... concedo... mas respeito!
Eu ria, com mais vontade de chorar, pois sabia como me teria sentido orgulhosa por te inspirar esses sentimentos impossveis.
- s uma tolinha, minha querida, apesar do que julgas ter vivido. s to totalmente ignorante da vida que te tornas comovente. Se eu tivesse censuras a fazer aos 
teus pais, mas Deus me livre disso, pois aprendi como  difcil fazer o melhor pelos filhos, acus-los-ia de te terem mimado de mais, de te terem preservado! No 
julgues que eu fao parte daqueles espritos tacanhos que dizem: "Ah, se tivessem tido a rdea mais curta, se lhes tivessem dado uns bons sopapos, se no fossem 
to benevolentes..." No, eu penso, pelo contrrio, que o dever dos pais  tentar, sem cessar, compreender os filhos, admitir que as mentalidades e os costumes mudam, 
que isso sempre foi assim, que tambm eles se revoltaram, pelo menos interiormente, contra as exigncias, os modos de pensar e de agir dos seus prprios pais, e 
depois explicar-lhes certos perigos, mas de forma "inteligente". Uma simples proibio ou discursos moralizadores incitam sobretudo  revolta!
- Onde queres chegar, Hlne?

- A esta coisa muito simples: Etienne ama-te, e ama-te "com conhecimento de causa". No tem iluses, mas estudou-te suficientemente, como psiclogo, mdico e homem 
j muito vivido, para poder dizer o que me disse: "Sim, estou apaixonado por ela, porque ela  encantadora, maravilhosa, to jovem e frgil, mas amo-a no s com 
todo o meu corao mas tambm de corpo e alma, por ela ser notavelmente pura..."        
- Pura?! 
Corei, empalideci, senti-me simultaneamente escaldante e gelada... exactamente como se me faltasse a droga durante instantes, mas a essa sensao de sofrimento sucedeu 
uma vaga de inexplicvel felicidade. No entanto, repetia atordoada:
- Pura? Hlne, ele no pode ter utilizado essa palavra!
- Pura! E eu sou da opinio dele. O que  que so actos ditados pelo desespero, pelo arrastamento? Tu tens uma alma estranhamente pura, mas infelizmente poucos se 
podero aperceber disso. As pessoas julgam pelas aparncias. Ora tu desembaraaste-te dessas aparncias como de um disfarce que julgavas atraente e que era apenas 
horrvel.
- Etienne e tu so demasiado indulgentes, pois sei que no so cegos nem inconscientes, pelo contrrio. Simplesmente, so demasiado bons.
- Ns amamos-te.
- Sim, amam-me, mas no  como... 
Admiras-te, Etienne, se te disser que no fui capaz de pronunciar as duas palavras seguintes? Mas no  como os "meus pais". Comecei a soluar. Soluos que no conseguia 
conter, que me sufocavam, que as palavras de ternura e os beijos de Hlne no conseguiam acalmar.
Por fim, fui sacudida por soluos to violentos que assustaram Hlne. Levantei-me bruscamente, corri para casa, subi as escadas quatro a quatro at chegar ao meu 
quarto. Depois de fechar a porta  chave, atirei-me para cima da cama, gemendo: "Porque no estou eu morta... apetece-me morrer... sim, morrer... adormecer... no 
pensar mais... no recordar."
Ouvi Hlne entrar em casa. O sol desaparecera. Da a momentos, a chuva caa com fora, batendo no telhado e nos vidros. De repente, adormeci. Tenho por vezes essa 
sorte, quando me sinto muito infeliz, de fugir assim para a inconscincia. Mas tive um sonho estranho que te quero contar. No faz parte da tua profisso analisar 
os nossos sonhos?
Este foi agradvel ao princpio, mas depressa se transformou num pesadelo. No ser isso um indcio, aterrorizador, de que eu no esteja verdadeiramente curada, 
de que no meu subconsciente continua a existir um perigoso desejo de voltar a mergulhar no abismo pestilento de onde tu me tiraste  fora de pacincia, de cuidados 
que deste tanto ao meu corpo como ao meu esprito, com uma presena atenta  minha menor veleidade de recada? A maioria dos drogados que se desintoxicam recomeam 
de um dia para o outro, ambos o sabemos. As verdadeiras curas so raras e s possveis com a ajuda de um companheiro ou companheira muito fortes, inacessveis  
tentao dos "parasos artificiais". Se eu te perdesse, se me afastasse voluntariamente do teu caminho? Hlne no seria suficientemente forte para vencer o meu 
desejo de aniquilamento. Parece que estou a querer censurar-te por no estares junto de mim, quando eu prpria estou farta de te repetir que no quero ser tua mulher, 
e ainda menos ser a me dos filhos que tu desejas! Que falta de lgica.
Mas vou contar-te o sonho... 

.. Encontrava-me sentada numa cadeira no Jardim do Luxemburgo, com o meu pai a meu lado, dando-me a mo.  preciso dizer que eu era uma menina de cinco anos. O tempo 
estava bonito, luminoso, e eu vestia um vestido branco. Ouvia as pessoas que passavam dizerem: "Que linda menina, to engraada!" O meu pai ficava satisfeito e dizia-me: 
"Podes ir brincar, mas no te sujes. A mam ralhava comigo e eu ficava muito triste."
Os meus ps no tocavam no solo. Eu balouava-os para trs e para diante com tal fora que ia fazendo cair a cadeira. Imediatamente o meu pai me olhou com grande 
severidade e me avisou: "Toma ateno! Vais cair, sujas o vestido e magoas-te!" Eu continuava. Era como se estivesse num balouo. De resto, pouco a pouco, sentia 
a cadeira erguer-se e depois baixar-se, depois levantar-se mais, sobretudo quando ia para trs. Olhei por cima do ombro e vi uma das esttuas das rainhas de Frana 
fazer uma careta ameaadora. Assustada, quis agarrar-me  mo do meu pai... mas no lugar dele havia agora uma grande nuvem de um cinzento ferroso. Chamei-o, parei 
o movimento da cadeira e encontrei-me  beira do lago onde havia um grande nmero de barcos  vela. O vento comeara a soprar e eles deslizavam rapidamente sobre 
as guas. Alguns comearam at a girar sobre si mesmos. To depressa que se tornava angustiante e me causava vertigens. O tempo estava cada vez mais sombrio, apesar 
de ser em pleno dia, como se se aproximasse um temporal.
Ouvi de novo a voz do meu pai, mas to forte, to dura, que me fez sobressaltar. No mesmo instante, dois barcos chocaram, na minha frente, molhando-me. O meu pai 
gritou: "Vs o que fizeste? Agora ests toda molhada. E repara como ests suja!" Parecia to zangado que eu no ousei fit-lo. Estava, com efeito, encharcada e sentia-me 
invadir por um grande frio. Ento comecei a chorar, a chorar, chamando-o, chamando a minha mam, e nesse momento soube, sem ter acordado, que sonhava, que no era 
essa menina, mas sim "eu", como sou agora. No entanto, continuava a ter a mesma sensao de frio, tremendo, batendo os dentes, dizendo a esse pai invisvel: "Peo-te, 
aquece-me, abraa-me, fricciona-me, traz cobertores, botijas. Depressa, estou gelada,  insuportvel. Oh, como tenho frio, como tenho frio, como me sinto mal..."
De sbito, Etienne, tive a conscincia de que essa menina que gemia pela minha boca e comeava a rebolar-se na lama em volta do lago, onde os barcos faziam uma roda 
cada vez mais assustadora, como um carrossel de feira enlouquecido, era eu. Apitos agudos, terrveis, acompanhavam essa roda. Eu gritava, torcendo-me com dores e 
com medo, gritava por socorro. Vi aproximar-se uma pesada silhueta de homem que se inclinou sobre mim, me agarrou por um brao, quase ao ponto, de me deslocar um 
ombro. Ento supliquei: "No me mates, pap, no voltarei a faz-lo, eu prpria lavarei o meu vestido." S uma assustadora exclamao de troa me respondeu, e eu 
senti-me erguida por cima da gua por uma mo impiedosa. A mo ia abrir-se para me deixar cair. A voz dizia, desdenhosa: " o que tu mereces." Comecei a cair, a 
gritar... e acordei!
Hlne refrescava-me as tmporas com um algodo molhado em gua com um pouco de vinagre.
- Meu Deus, que susto me pregaste! Que te sucedeu? Jlia... jura-me que no foste buscar nada  farmcia.
- No tens l nada, nem sequer um xarope para a tosse ou uma aspirina... tiraste tudo no outro dia. Lembras-te?

Estremeci. Sabia que tivera um sonho de carncia de droga e isso assustava-me. No estaria curada? Aps a minha prolongada cura no centro de desintoxicao de Boulogne, 
aps tantas e tantas semanas. Aqui ainda no fumei sequer um cigarro vulgar. Ento? Era o meu crebro que continuava intoxicado?
- Anda, vamos passear at ao pr do Sol, faz mal dormir  tarde, causa pesadelos, no penses mais nisso. Mas como tu gritaste! At julguei que estavas magoada. Devia 
no entanto saber que certas ms recordaes se impregnam indelevelmente na nossa memria inconsciente e ressurgem quando menos esperamos.  terrvel! Eu revivi assim 
cenas de bombardeamentos a que assisti durante a ltima guerra. Mulheres a enlouquecer perante o cadver de um filho, homens feridos, suplicando que acabassem com 
eles... V, vamos. Todos ns temos as nossas trevas.  preciso expuls-las. O sol voltou. Esta noite faremos crepes. Amanh comea a Semana Santa, tentaremos permanecer 
sbrias, e rezar... sim, minha querida... eu sei... tu j no s praticante. No importa. Reza  tua maneira. Se pedires algo do fundo do corao, com confiana, 
obt-lo-s. O nome que os homens do quele que ouvir a tua prece, pouco importa.
Mesmo l fora, ao sol, eu continuava a tremer. No conseguia rezar. No me saia dos lbios a prece que consistia em suplicar: "Quem quer que sejais, ajudai-me a 
ser corajosa, a esquecer, a merecer o amor de Etienne."
 apenas agora, ao traar estas palavras, que descubro como, contra toda a sensatez, alguma coisa em mim deseja apaixonadamente vir a ser a tua mulher um dia. Vir 
a ser digna desse papel! Sou to fraca, meu amor!

Captulo 18

Quarta-Feira de Cinzas! Julguei que esse ritual tivesse passado de moda. Em Tours, desde o ano da minha comunho solene, nunca mais desenhei uma pequena cruz de 
terra na testa. Hlne perguntou-me se eu me importava de a acompanhar, acrescentando risonhamente que na idade dela no era intil lembrar-se que em breve voltaria 
ao p e que isso era justo, j vivera o seu tempo, e por vezes sentia-se at um pouco cansada da vida, no que a vida no fosse apaixonante, mas havia demasiado 
sofrimento no mundo e, por vezes, sentia desespero por no ser possvel aliviar tantos infortnios.
- Mas, Hlne, basta a tua presena para ajudar algum. Julgas que no me fizeste um bem enorme? Quem sabe se sem ti e estes dias passados em Diguleville eu me teria 
curado? A cura na clnica  uma coisa... mas depois? Terei necessidade de te contar quantos dos meus amigos tiveram uma recada depois de uma cura que os devia ter 
desintoxicado completamente? Claro que  til ser tratado, rodeado de enfermeiras, mdicos e psiclogos.  bom estar ao abrigo das tentaes, dos maus encontros, 
vigiado de todas as maneiras... Mas, no que me diz respeito, era tambm triste, pois o meu pai no me props voltar para casa. Contentou-se com o gesto que nem sequer 
fez quando eu cortei as veias: enviou-me flores, chocolates, frutas cristalizadas, um relgio de pulso, uma caneta, mas sem que uma s palavra acompanhasse esses 
presentes!
- Pois bem,  preciso esperar. Talvez que um dia, em breve...
Pareceu-me que Hlne se calava mais frequentemente que de costume no meio de cada frase. Estaria a ocultar-me qualquer coisa? Mas o qu? No estou inquieta por 
isso. Dela e de ti nenhum mal pode vir. Se tenho medo... porque pergunto a mim prpria se, duma maneira ou de outra, no irei decepcionar-vos no agindo como esperam 
que eu faa.
Sinto-me muito nervosa. Esta vida, aqui, representa apenas umas frias para mim. Mais uma vez, eu, que estava to adiantada nos meus estudos, me deixei atrasar. 
Foi em Agosto de 83, como sabes, que o pior me sucedeu. Dessa vez no fui responsvel, enfim,  uma maneira de dizer. Digo que no quis o que me sucedeu. Mas o resultado 
foi que faltei ao comeo das aulas e que agora tenho dois trimestres completamente perdidos.
Mesmo que possa voltar ao liceu... no recuperarei o tempo perdido. Passar nos exames nessas condies seria impossvel. Pergunto a mim mesma se no ser melhor 
estudar durante as frias e apresentar-me a exame em Setembro? Estarei  altura de o conseguir? No me respondas, meu querido, que s devo preocupar-me em casar 
contigo... que poderei recomear os estudos um pouco mais tarde, quando me encontrar inteiramente recomposta, slida. De qualquer modo, j me avisaste de que no 
devemos ter filhos seno daqui a dois ou trs anos: sou demasiado jovem, criana de mais e excessivamente vulnervel.
Mas se isso nos sucedesse? Avisei-te. Nunca mais serei capaz de abortar. Aceito o aborto para as outras, aprovo-o, mas eu no poderei resolver-me a faz-los. S 
 ideia de suprimir um embrio que, se vivesse, seria "o teu filho" estremeo de horror. Compreendes isso?

Acabei por acompanhar Hlne  igreja, nessa manh, muito cedo. Quando voltmos, ela ps brioches no forno, depois sugeriu-me, como o tempo estava magnfico, que 
fosse passear o dia inteiro, porque ela queria fazer uma limpeza geral  casa e gostava de a fazer sozinha. Eu s poderia atrapalh-la, se ali ficasse.
- De resto, seria melhor que terminasses o teu "dirio" antes da Pscoa.
- No  um dirio!
- Ou o teu romance, ou l o que . Garanto-te que seria uma boa coisa que te livrasses definitivamente daquilo que te pesa ao ponto de teres de o escrever. Desejava 
que as festas da Ressurreio fossem para ns o incio de uma nova era, de uma era de felicidade e de paz.  a mensagem desta data: pensa bem... morrera toda a esperana... 
e eis que a esperana renascia!
J no consigo acreditar no Deus da minha infncia, mas a f da tua av impressiona-me:  to calma, to segura de si, d um tal sentido a cada um dos nossos sofrimentos 
e mesmo ao mal que existe no mundo. Mais do que qualquer discurso, que as pregaes dos padres, a vida de Hlne e o seu comportamento com os outros conseguiriam 
convencer-me de que existe em ns uma centelha divina e que cada uma das etapas da nossa vida, mesmo as piores, tem um sentido.
Hoje no me dirigi imediatamente para o mar. As rvores, despidas desde h uma dezena de dias, esto agora envoltas numa tenra folhagem de um verde suave, por vezes 
dourado ou ligeiramente avermelhado, pois existe uma grande variedade de rvores nesta regio. Aps um desvio por Omonville-la-Petite, onde me recolhi diante do 
tmulo de Jacques Prvert, recordando alguns dos seus poemas, desci para Omonville-la-Rogue, at ao porto. Por fim, decidi-me a seguir pela estrada do farol de Jardehen.
A, numa pequena praia que a mar alta tornava estreita, instalei-me confortavelmente para escrever, pensando que iria simultaneamente bronzear-me e terminar a minha 
confisso.
Imagino-te a ler este caderno, gravemente, por vezes com um sorriso enternecido, exclamaes perante as minhas ingenuidades, sobrolhos franzidos, angstias, mesmo 
cleras. Quando tiveres acabado de ler estes gatafunhos, queima-os, esquece o passado, como tantas vezes me tens ordenado que faa. Ele  to lamentvel!
Entretanto, desconfio do que pensars quando chegares a esta Quarta-Feira de Cinzas que devia ser um pouco triste e cinzenta mas que o sol torna radiosa. "Ela afasta 
o essencial... no se atreve a reviver essa noite em que quase morreu, no por o desejar mas por a escalada iniciada ter chegado ao cume e, depois disso, s poder 
haver uma queda espectacular."
E ficarias inquieto, pois sabes que, para me sentir livre, preciso de pr a descoberto a ltima chaga, pois no h outro meio de evitar a infeco e por fim a morte... 
se no a do meu corpo, pelo menos a morte da minha alma, do meu corao.
Mas neste ambiente deslumbrante como evocar as trevas, o inferno, a lama? E os malditos que eram, nessa noite, os meus companheiros de desespero, de degradao... 
e todavia tnhamos julgado organizar uma grande e alegre festa!

Pierre-Jean, como eu, dava-se com rapazes e raparigas mais velhos que ns, mas no do gnero daqueles que eu encontrara em casa de Patrcia de A. Apesar do dinheiro 
que tinha e do meio social a que pertencia, os seus amigos eram verdadeiros marginais, daqueles que tinham h muito deixado a
famlia e os amigos de infncia, sem dvida por esse meio estar na origem da sua revolta, daquilo que eles queriam esquecer. No eram tambm junkies ou amadores 
de cocana como na comunidade em que eu vivera aquando da minha chegada a Paris.  certo que todos, ricos ou pobres, punks, baba-cools e new-waves, se conhecem melhor 
ou pior.
Mas, como sabes, cada grupo forma uma espcie de cl que tem os seus locais de encontro privilegiados, os seus fornecedores especficos, os seus "truques" cuidadosamente 
mantidos em segredo, para esconder a droga em caso de necessidade, os seus esconderijos quando, por sua vez, se tornam dealers. A sua reputao varia, pois h os 
dealers honestos, integrando na mercadoria, outros produtos apenas numa pequena proporo, e outros... aqueles que por terem grande necessidade de dinheiro acabam 
por fornecer herona apenas numa proporo de vinte e s vezes de dez por cento!
Devamos felicit-los, diro os ignorantes,  menos veneno! Infelizmente, essas misturas esto muitas vezes na origem de acidentes mortais, na medida em que esses 
"porcos", que no tm outro nome, substituem a herona por detergentes e at por arsnico! O que explica, que os acidentes de overdose se contem mais frequentemente 
entre os drogados sem dinheiro ou entre os que esto mal informados sobre os problemas da droga: os adolescentes inexperientes, as crianas ou pessoas rudes que 
comearam por tomar anfetaminas - como alguns camionistas - para fugirem  fadiga. Um dia, um dealer vai prospectar esses meios de trabalhadores, faz-lhes um grande 
desconto, tenta-os, oferece-lhes gratuitamente a sua "picadela" de brown sugar, ou o mata-borro impregnado de LSD ou de STP: o que se segue j tu sabes.
Pierre-Jean levou-me primeiro para um bar do Boulevard Sbastopol. Estvamos quase exclusivamente rodeados de emigrantes. Encontravam-se ali tambm, evidentemente, 
alguns amigos do Quartier Latin, alm de prostitutas e de personagens indefinidos. Sabiam que Pierre-Jean tinha dinheiro e
que no pertencia a qualquer grupo, por isso tinham-lhe respeito. Esqueci-me de te dizer que ele era muito alto e muito forte. Toda a gente lhe dava entre dezoito, 
e dezanove anos. Entre essa fauna viam-se alguns indivduos mais velhos, vestidos de um modo mais convencional, mas os seus fatos eram sempre muito novos, os seus 
anis demasiado largos, os seus sapatos de crocodilo rutilantes de mais, as unhas visivelmente bem manicuradas, as suas expresses demasiado alerta. Isso divertia-me, 
e o mesmo sucedia quando ele me levava a Belleville e se cruzava com um dos seus fornecedores, lhe metia na mo um mao de notas enquanto o outro lhe sussurrava 
qualquer coisa ao ouvido. Pierre-Jean conduzia-me imediatamente para junto de um caixote de fixo e ordenava-me:
- Tu levantas a tampa com este jornal. Do lado esquerdo est um pequeno saco de plstico coberto de legumes apodrecidos. Pega-lhe.

Apesar da sujidade, guardvamos o plstico no elegante saco de couro Pierre Cardin que Pierre-Jean trazia ao ombro. Logo a seguir, ele fazia sinal a um txi e amos 
ou para a casa dos pais dele ou para o meu pequeno estdio.
Em seguida, injectvamo-nos um ao outro. Depois, durante algumas horas, era evidentemente o paraso, ramos felizes, ouvamos msica, falvamos de poetas, de filsofos, 
da vida, do mundo. Contvamos tambm os nossos desejos, os nossos
amores... e tudo isso, contrariamente ao que pensam os adultos, era sentimental, verdadeiramente assexuado! A herona, como a morfina, afinal, diminui a sexualidade 
mais do que a excita, acalma qualquer dor fsica ou moral, apazigua as nossas veleidades de agressividade... e s quando ela falta
 que o drogado enlouquece e  capaz de matar se o impedem de se injectar! Estou a repetir-me, mas a verdade  que o problema  este. 
Deixei novamente de ir assistir s aulas.  muito mais fcil suceder isso do que pensam os nossos pais. A vigilncia  frouxa e h inmeros truques para que no 
nos sejam marcadas faltas. De resto, h quem se injecte mesmo no liceu ou aproveite os intervalos para ir  casa de banho snifar. A maior parte dos professores no 
vm problema nisso... os outros... bem... no  mistrio para ningum que muitos vigilantes se drogam, que h cumplicidades.
Graas a Pierre-Jean, que me amava como se eu fosse a irm que ele sempre desejara ter, no era forada a prostituir-me, nem a retomar esse abominvel negcio com 
as crianas. Em suma, de certo modo, sentia-me bastante feliz. Mas ao mesmo tempo tinha verdadeira conscincia de que esse estado de coisas no podia durar. Um dia, 
Brigitte descobriria o que se passava. No fundo, ela ficara sobretudo inquieta com a minha tentativa de suicdio, mas julgava-me agora protegida contra "as ms companhias", 
visto eu ir regularmente a casa dos Michelet e apresentar boas "notas", inventadas por um amigo, falsas,  claro! Escrevi, como prometera, algumas cartas aos meus 
irmos, cheias de banalidades e de mentiras, mas que pareciam provar que a minha vida em Paris se desenrolava normalmente e que eu me sentia bem no meu pequeno estdio. 
Era, de momento, tudo quanto esperavam de mim.
Admiraste-te muitas vezes, quando me interrogavas, por constatar o abandono em que eu fora deixada. Com efeito, e sem j falar do meu pai, a quem a minha fuga ferira 
profundamente,  preciso compreender que Brigitte tinha uma vida muito ocupada, com as suas obrigaes mundanas, a casa, os estudos dos filhos... alm disso, eu 
no a recebera muito bem no hospital, e a disposio do meu pai no devia ser das melhores depois do meu "escndalo". Que queres? Eles so assim e no so os nicos! 
 minha volta havia inmeros rapazes e raparigas em "questinculas" com os pais, quer por eles terem fugido e os pais no os terem procurado, fingindo que os filhos 
se encontravam em casa de amigos, quer raparigas que tinham sido expulsas de casa... por estarem grvidas (sim, ainda sucede em 1984 um pai dizer: "Tu j no s 
minha filha... no queremos um bastardo... nem que faas um aborto!", quer rapazes repelidos por um pai ou uma me juntos com outra pessoa que no seja o marido 
ou a mulher... e alm disso, como agora somos maiores aos dezoito anos,  menor veleidade de desobedincia, os pais dizem aos filhos: "Queres ser livre, gostas de 
proceder como um pequeno crpula... pois bem, vai para onde quiseres, mas no julgues que te vou manter."

No creias, Etienne, que eu acuse, por definio, todos os pais como os verdadeiros responsveis pelos nossos disparates. No penses que eu afirme que se nos drogamos 
 por causa deles. Existem tambm milhares de casais que fazem tudo quanto podem, ou julgam razovel, para tornar os filhos felizes. Mas so muitas vezes desajeitados 
e cegos, fazendo como a avestruz, recusando-se a ver o que  evidente. E, com o medo que tm da droga, iludem-se. Quando os primeiros sintomas os alertam, apenas 
lhes sabem dizer: "Espero que no te drogues!" Evidentemente, o interpelado protesta, que nunca o fez e que nunca o far, enquanto, na verdade, j adquiriu o vcio 
da coca ou das anfetaminas e faz desaparecer pequenas quantias do porta-moedas da me ou da carteira do pai, vende livros escolares e passa a vida a pedir dinheiro, 
para objectos que lhe so "necessrios" para a escola... enfim, a interminvel lista de pequenas mentiras imprescindveis para se abastecer, traficar...
Desde a altura em que conheci Pierre-Jean tornei-me mais ou menos livre dos expedientes geralmente utilizados para a obteno de droga. Mas quanto tempo iria isso 
durar? Essa chuva de ouro, iria, irremediavelmente, acabar. O dinheiro que eu tinha no me permitiria comprar a dose mnima para mais de trs ou quatro dias e, mesmo 
assim, s se fosse de m qualidade. E depois?
No entanto, assustava-me com o que poderia esperar-me. Teria gostado que algum me pegasse na mo e me conduzisse de novo a um centro de desintoxicao. Todas as 
manhs, ao acordar, jurava a mim mesma ir a Marmottan e suplicar que me curasem de-fi-ni-ti-va-men-te!
Mas, a dez passos da entrada, retrocedia, voltava precipitadamente para casa, tentava resistir um pouco, mas logo a seguir vinham as angstias, as dores, o pnico. 
O frio apoderava-se de mim e s tinha um meio de atenuar tanto sofrimento: a colher com um pouco de gua em que dissolvia um pacotinho, a chama do isqueiro para 
aquecer a mistura, o garrote e a agulha espetada nas veias j feridas, onde era difcil encontrar um stio para injectar...
Estvamos justamente em pleno flash quando um amigo telefonou a informar-nos da hora da festa combinada. Era um sbado. No me recordo da hora exacta, nem me quero 
recordar, pois se soubesse que era a 8 ou a 17, por exemplo, todos os dias 8 e 17 de cada ms comearia a tremer, recordando aquilo que se passou...

Os exames tinham terminado e eu julgava ter passado, pois durante quinze dias enchera-me de coca e de anfetaminas para compensar o efeito das minhas injeces de 
herona, que fui espaando durante esse perodo. Havia meses que eu mal comia, ingerindo apenas, e s uma vez por dia, alimentos j cozinhados. Mas, em compensao, 
bebia muito caf. Era o regime da maior parte dos meus companheiros, e  claro que estvamos muito excitados. Surgiam discusses a propsito de qualquer ninharia. 
Havia gestos disparatados, como o de um companheiro que, ao passar cerca das sete da tarde pela Rue de Saint-Andr-des-Arts - cheia de gente, suja pelos inmeros 
pacotes de batatas fritas vazios e latas de refrigerantes espalhados pelo cho -, deu de repente duas enormes bofetadas a uma rapariga que se cruzou com ele. A rapariga 
caiu, e os que ali se encontravam rodearam o rapaz para lhe dar uma lio. A polcia apareceu rapidamente e preparava-se para o prender, mas nesse momento a multido 
mudou de ideias e resolveu defend-lo. A violncia generalizou-se... Uma hora
depois, seis estudantes e trs raparigas iam a caminho da priso, enquanto outros quatro, gravemente feridos, eram levados para o hospital. Todos tinham haxixe com 
eles, alguns herona. Esses no passariam nos seus exames. Na imprensa apareceram artigos sobre o perigoso aumento da droga. Todo o bairro passou a ser vigiado e 
foram feitas outras prises. Uma delas perturbou-me muito. Tratava-se de uma amiga nossa, um pouco mais velha do que ns, que tivera de renunciar aos seus estudos 
secundrios e trabalhava agora numa gelataria do Boulevard Saint-Michel. Para pagar a sua rao diria de p fazia um pouco de trfico, apenas o que lhe era necessrio, 
e eu comprara-lhe, duas ou trs vezes, brown sugar quando no tinha dinheiro para mercadoria melhor. Foi presa em flagrante delito, na casa de banho mesmo em frente 
da casa onde trabalhava. Com a pressa, no fechara a porta e injectava-se na coxa, por cima da roupa, se bem que uma injeco intramuscular seja menos eficaz que 
uma intravenosa. Mas receava que notassem a falta dela na loja. Vtima de denncia? Certamente. Elas so numerosas. Partem por vezes
de pessoas que julgam fazer bem, pois o flagelo da droga apavora-as, e com razo... embora aqueles que elas denunciam no sejam os verdadeiros criminosos, como todos 
sabem.
Esses so as vtimas, as verdadeiras vtimas da droga. H tambm milhares de denncias feitas pelos prprios drogados, devido a ajustes de contas, quer sentimentais 
quer polticos, feitos com o pretexto de aniquilar algum dealer desonesto ou
perigoso... enfim, a moral dos drogados no , certamente, a de pessoas como tu, meu querido!
A minha experincia com Patrcia de A. e com os pais dela, a morte trgica de Jean-Marie tinham-me escaldado demasiado e eu desconfiava agora dos "muito ricos". 
Se tinha confiana em Pierre-Jean, apesar da "massa" que ele gastava, era por ele partilhar o meu horror por esse meio. - Assim, quando ele me transmitiu o convite 
para uma festa "sublime"... em casa de uma amiga que tinha um apartamento, na ilha Saint-Louis, com jardim no terrao, a minha primeira impresso foi para recusar.

- Tu s doida,  um stio maravilhoso, absolutamente fantstico! Os pais dela j esto em frias. Ela ir ter com eles daqui a oito dias... Decidiu que ser uma 
festa ininterrupta... como o cinema em sesses contnuas... at  sua partida! No seremos muitos, mas poderemos ficar l instalados... ser ela que nos fornecer 
a mercadoria,  de crer que o seu amiguinho, que  farmacutico, perdeu a cabea.  muito mais velho do que ela, um senhor bem estabelecido, louco por ela... e agora, 
graas aos seus cuidados, totalmente stoned. No te inquietes tambm com as companhias. Parece que at vai l um que escreveu um livro genial. Creio que encontrou 
h dias um editor, o que  mais uma razo para haver festa. Tambm l estar um seminarista que parece estar convencido de que Deus se encontra no fim do caminho 
no s de todos os alucinogneos mas tambm de qualquer droga: um verdadeiro missionrio! De resto, o sonho dele  ir para a Tailndia... creio tambm que tem tendncia 
para fazer adeptos entre os rapazinhos... por razes mais carnais.  o problema dele.
Nada disso me atraa, mas acabei por aceitar. Muitos amigos tinham j partido para frias e eu iria certamente ficar sozinha durante o ms de Agosto. No recebera 
qualquer convite de Tours para ir passar as frias com os meus pais e com os meus irmos. Eu tambm no teria certamente aceitado o convite. Indo a essa festa tinha 
a possibilidade de encontrar novos amigos franceses ou estrangeiros. E poderia partir de frias com alguns deles.
Pierre-Jean citou ainda alguns convidados susceptveis de me intrigarem. Falou de um psicanalista j muito conhecido, apesar de ser ainda muito novo, e pelo qual 
muitas mulheres, e at muitos homens, estavam apaixonados.
Tu, Etienne, confessaste-me que por vezes te sentiste tentado a experimentar, mas que as drogas te metiam medo. Outros so mais fracos ou mais inconscientes.  fora 
de nos ouvirem falar dos nossos xtases, do bem-estar que sentimos com os alucinogneos, ou quaisquer outras drogas... acham que  uma experincia a tentar. Depois... 
muitas vezes 
tarde de mais, e percorrem os mesmos crculos demonacos do nosso inferno. Um pouco mais conscientemente, sem dvida. 
Preparei-me portanto para essa festa, tornando-me o mais bonita possvel. Lavei a cabea, pintei demoradamente os olhos. Quanto  pele e aos lbios, no precisava 
de me preocupar com eles. Apesar da minha vida desregrada, certamente devido  minha extrema juventude, era fresca, tinha um ar inocente e, sem falsa modstia, muito 
atraente, mesmo excitante.
As mini-saias estavam na moda, e as minhas pernas permitiam que eu as usasse ultracurtas. Ao receber a minha ltima mensalidade, cometera uma loucura... comprara 
uma saia e uma camisa de cabedal branco, macio como tecido. Esse vestido no o conheces. Deitei-o fora algumas semanas mais tarde... quando ressuscitei.
Ter-me-ia lembrado, de cada vez que o vestisse, do horror desse instante em que me sentira cair no abismo, numa queda que nunca mais acabava. Tinha manchas que nunca 
mais poderiam sair: de sangue, o sangue de outra pessoa.

Captulo 19

Quinta-Feira Santa! O tempo continua magnfico. Hlne continua a no me querer em casa, que resplandece de limpeza. Agora fecha-se na cozinha, onde parece estar 
a fazer preparativos para um banquete. No entanto, no nosso dia-a-dia, aplica as leis antigas... da Quaresma! Comemos peixe, leite e nem sequer h vinho  mesa...
Pessoalmente, no me importo. Alimentei-me durante tanto tempo to pouco e to mal que agora sou capaz de me contentar com o mais asctico dos regimes. Pelo contrrio, 
at estou contente. A alimentao demasiado rica da tua av fez-me engordar um quilo ou dois! Bem sei que isso no me prejudica. Sou do tipo filiforme. Mas mesmo 
assim... de resto, isto no ir durar. A partir de domingo, as refeies suculentas voltaro.
Visto teres inteno de passar aqui uma semana, sei que ela te prepara verdadeiros manjares. Quando regresso dos meus passeios, vem-me s narinas o cheiro delicioso, 
de bolos. E no s. Tenho a impresso de que prepara tambm pastis, empadas. Estar  espera de outros convidados alm de ti? Pessoas importantes? Sinto-me intrigada. 
A todas as minhas perguntas, Hlne responde apenas com olhares de incompreenso, como se nada tivesse mudado na sua vida.
Voltei outra vez  baa de Ecalgrain; , na verdade, o local que mais me agrada na regio, apesar de gostar de muitos outros. E escrevo, escrevo-te...
Dirigi-me, portanto, para a festa em casa dessa Vera desconhecida. Pierre-Jean ia vestido de branco, como eu. Tnhamos ar de meninos da primeira comunho, demasiado 
crescidos, sem dvida, e no de pessoas que se encaminhavam para uma festa de drogados.
De certo modo, o acidente de que fui vtima nessa noite foi talvez o milagre que permitiu que eu me salvasse, mesmo contra a minha vontade, da catstrofe que me 
ameaava, inevitavelmente, se percorresse, uma segunda vez, etapa aps etapa, o caminho que me levara a querer acabar com a vida. E mesmo que no atentasse contra 
a minha vida, a morte prematura estaria no extremo do terrvel calvrio, como o que foi percorrido por tantos dos meus amigos, rapazes e raparigas simpticos, sensveis, 
infelizmente demasiado fracos e vulnerveis. Nesses dois anos, quantos no conheci eu que esto hoje mortos ou, ainda pior, em hospitais psiquitricos? Outros esto 
na priso ou vagueiam de pas em pas, como verdadeiros farrapos humanos, desprezados por toda a gente, acabando por se transformar em lamentveis mendigos, verdadeiros 
detritos humanos votados a um fim atroz, esqueletos vivos, literalmente "enlouquecidos" pela sua existncia miservel, totalmente irrecuperveis...

Sim, tive sorte em quase ter morrido nessa noite: foi assim que te conheci. Evitando os fantasmas torturadores que me teriam sem dvida assaltado, os sofrimentos 
infernais de que seria testemunha, que faziam gritar alguns dos meus companheiros, suplicar que lhes dessem fosse o que fosse... mesmo urina de um drogado, para 
se injectarem, porque isso teria ainda restos de herona! E evitar as feridas infectadas, provocadas por agulhas sujas, produtos falsificados, e os abcessos nos 
pulmes, misteriosos, devoradores, consequncia da ingesto de uma droga ou outra, emagrecimentos at  caquexia, as crises de loucura furiosa... e, por fim, todos 
os actos mortferos cometidos durante os perodos de carncia de droga! Poderia tambm ter assistido ao descalabro irremedivel do meu crebro, depois deixaria mesmo 
de me aperceber disso e seguiria os impulsos comandados por essas clulas deterioradas.
Etienne, meu querido,  agora que tenho medo do que poderia ter feito se tivesse recado. Quem sabe se, um dia, eu no me teria tornado parricida, eu, que considerava 
o meu pai o principal responsvel pelo que me tinha sucedido? Quem sabe at onde  que teria chegado o massacre? E seria apenas uma notcia mais para as pessoas 
normais, bem inseridas na sociedade, mas que qualquer de ns teria absolvido. Na verdade, aquilo que Brigitte fazia por mim, materialmente, s servia para irritar 
o meu ressentimento a respeito dela e do meu pai. Chegara quase a incluir os meus irmos nesse ressentimento, nesse dio nada razovel e, sobretudo, incontrolvel.
.. A noite estava muito bonita, no muito quente apesar da poca. Seguindo pelo cais Bourbon, vamos, Pierre-Jean e eu, passar um comboio de lanches. Os candeeiros, 
do outro lado do Sena, eram apenas ponto amarelados num cu ainda claro. Raros transeuntes, ribeirinhos, sorriam-nos ao passar por ns, porque formvamos um casal 
bonito.
Entrmos num apartamento admiravelmente mobilado, com belos mveis, pesados cortinados, num tom entre o vermelho e o violeta, iluminado apenas por velas. Volutas 
de fumo chegavam s vigas pintadas do tecto, do sculo XVIII, derivadas dos pauzinhos de incenso cujas pontas vermelhas brilhavam na penumbra. Sobre uma comprida 
mesa de mrmore preto havia cristais e pratos cheios de iguarias como as que preparam os Tailandeses e os Cambojanos. De resto, duas jovens asiticas, encantadoras, 
vestindo sarongs, iam de um convidado para outro, oferecendo bombons, guloseimas multicolores, grossos charros enrolados  mo, em papis cor-de-rosa-vivo,
azul-claro ou amilado.
Ns no ramos os primeiros a chegar. Havia j l muita gente. Parecia que cada um queria rivalizar em originalidade; alguns eram incondicionalmente punks, com cristas 
de cabelos verdes e amarelas, vermelho-vermelho; outros, talvez mais snobs, new-wave, ou at new-new-wave, envergavam trajes visivelmente comprados na feira da 
ladra, de uma elegncia muito 1950 ou at 1930.
A nossa chegada, vestidos de branco, sem jias e sem penteados extravagantes, no fundo, muito banalmente 1983, provocou uma certa admirao. Mas quando Vera exclamou, 
dirigindo-se para ns:
- Oh, meu pequeno Pierre-Jean, que maravilha... e tu - disse ela, inclinando-se para mim para me beijar nos lbios, o que me sobressaltou -, tu s sublime. Dir-se-ia 
que saste de um quadro de Burne-Jones... uma pequena maravilha
pr-rafalica. Ah, conheo algum que vai ficar loucamente apaixonada por ti!

No tinha dito "apaixonado", mas sim "apaixonada", mas sim "apaixonada", e eu vi imediatamente que naquela assembleia havia grande nmero de homossexuais dos dois 
sexos, na medida em que nem todos os drogados so atrados pela sexualidade, mas sim por amores que consideram mais requintados, mais subtis, menos vulgares.
A nossa anfitri voltou-se, fez um sinal com a mo a algum que eu no reparei, pois estava muito ocupada a estender a mo a um homem dos seus trinta anos, com o 
crnio rapado, uns olhos hipnticos, que se apresentou com uma certa rigidez, murmurando:
- Sim, um Burne-Jones... ou melhor, talvez a Batrice de Batrice de Beardsley... e a Beatriz de Dante, tal como ela era, ainda infantil, quando ele foi deslumbrado 
pela vida. Voc ser muito mais velha que ela?
Corei. Aquele era o primeiro a descobrir que eu era provavelmente o benjamim da reunio, que talvez no devesse ali estar. Ao mesmo tempo, o seu olhar confessava 
aquilo que as palavras confirmavam:
- Que importa! Tal como , acho-a infinitamente desejvel. Permita-me que a acompanhe ao bufete, enquanto espero poder lev-la para alimentos menos grosseiros! H, 
nesta casa, alguns stios encantadores, seria para mim um precioso prazer poder mostrar-lhe a magia que possuem.
Aquela linguagem elaborada, inusitada entre os amigos da minha idade, fez-me sorrir, voluntariamente trocista. Mas subitamente o meu sorriso desapareceu: a rapariga 
que acompanhava a dona da casa estendia teatralmente as duas mos para mim e exclamava:
- A minha pequena Jlia! Cada vez mais bela! Mas que boa surpresa encontrar-te aqui.
Eu sentira-me empalidecer. Percebia que estava a ser observada por aqueles que nos rodeavam, pois no correspondi quele acolhimento amigvel... Fitava a minha interlocutora 
com um olhar quase assustado. Patrcia de A. parecia totalmente consolada da morte de Jean-Marie. Sorria, maquinalmente. Recuei, prestes a fugir. Uma mo de ferro 
segurou-me por um ombro.
- Viu algum fantasma... o de Lady Macbeth, por exemplo?
O homem com o crnio rapado devia conhecer as razes da morte de Jean-Marie. Inclinou-se para mim e murmurou-me ao ouvido:
- No v que ela est completamente stoned? Venha, no tarda que ela caia nos braos de um qualquer. Mas no se fie: ela est sifiltica at aos ossos... o que no 
 de admirar, visto estar farta de mandar buscar vadios que dormem debaixo das pontes e putas...
Meu Deus, Etienne, em que mundo fora eu cair? 
Fiz notar quele que queria fazer papel de cavaleiro andante que preferia estar no meio dos outros a acompanh-lo aos stios aonde ele queria levar-me. Fossem quais 
fossem as delcias prometidas. E que ainda por cima tinha sede e queria provar as iguarias que nos ofereciam.

Ele acedeu imediatamente ao meu desejo, interpelou uma das jovens criadas, deu-lhe ordens na lngua delas e conduziu-me para um sof livre, mesmo na extremidade 
da sala. Eu no duvidava um s instante de que aquilo que ia comer estaria condimentado com haxixe ou com pio ou com qualquer outra coisa mais ou menos nociva. 
Claro que ao ponto a que eu tinha chegado isso pouca importncia tinha. Sentia-me at divertida com a ingenuidade do meu companheiro. Imaginaria ele que eu era uma 
principiante tendo at ento no meu activo apenas alguns charros de erva, umas pitadas de coca, uns pedacinhos de acar com LSD?        
Bebi uma primeira bebida aromatizada com xarope de rom ou angustura. Pierre-Jean desaparecera. Patrcia, reparei, observava-me de longe. Eu devia ter desconfiado 
do olhar em que ela me envolvia, assim como ao homem que ainda no me dissera o seu nome. Este aproximou-se de mim, quase boca com boca, e perguntou:
- Onde a conheceu? Quando? O seu nome  Jlia? Conheceu Jean-Marie Mesurat, o amante da Patrcia? Sabe que ele morreu?
- Sim. De overdose. 
Chamo-me Eric Vallagne e sou arquitecto. 
De overdose, certamente. Mas quem foi que lhe deu o speed que o matou?
Senti-me invadir por esse frio glacial que nos faz
bater os dentes quando estamos em carncia de droga. No podia estar ainda a senti-la. Eu e Pierre-Jean tnhamo-nos injectado antes de sairmos do meu estdio e subirmos 
para a moto dele. Pierre-Jean conduzia uma Yamaha 1.000 com uma carta de conduo falsificada!
- Por favor, no me fale nisso! Patrcia no me interessa, nem Jean-Marie, nem voc, nem ningum. - Ele obrigou-me a levantar e conduziu-me ao bufete, onde pediu 
uma taa de champanhe. Era, ao lado das outras, uma bebida inocente. A festa apenas comeava. Algum reclamou silncio. Encontrava-se entre ns uma cantora de variedades 
cuja carreira se anunciava brilhante. Comeou a cantar uma cano de amor, desesperada. Pedi mais champanhe, o cheiro do incenso misturado com os perfumes fortes 
das mulheres, e o aroma xaporoso do haxixe, mergulhavam-me numa perigosa euforia. Eric Vallagne fez de novo sinal a uma das tailandesas e falou-lhe demoradamente. 
Ela inclinou-se na frente dele, com as mos juntas sob o rosto, que permanecia impenetrvel.
- Viveu em Banguecoque? - perguntei-lhe eu.
- No, em Chang-Mai, no Norte... no muito longe do Tringulo de Ouro... e dos belos campos de papoilas brancas. No se assuste, no sou um traficante. Sou antes 
um diletante ou um esteta... os meus pais morreram novos... eu herdei... bem,  quase como num mau romance. Vamos, menina, acalma-te e trata-me por tu se no me 
achas demasiado velho para isso. No tenho inteno nem de te violar nem de te fazer seja o que for que no desejes! No ficaremos aqui at tarde. Permites-me que 
te conduza a um local mais saudvel? No, para minha casa no. Mas  Vero, a noite est boa, poderemos ir de carro, at Deauville. Dentro de hora e meia estaremos 
l. Cearemos... depois, escolhers: ou vamos ao Casino ou danar no Rgine.
- E para terminar a tua cama? 
Tratei-o por tu porque assim a resposta me parecia mais insolente.
- No obrigatoriamente. No quero ser acusado de desvio de uma menor.
Algum fez "chiu"... A canonetista comeava uma nova cano. Nesse momento, vi Patrcia aproximar-se de ns, com um copo em cada mo. Entregou-me um deles e eu 
peguei-lhe, colocando-o em seguida sobre uma mesinha, junto de mim.
- O que  isso? - perguntou Eric a Patrcia.

- Tu desconfias de mim...  apenas um gin fizz... exactamente o que convm a uma rapariguinha... como tu gostas delas, no  verdade? Para ti  algo de mais forte.
Trocaram novamente um estranho olhar, e eu percebi desprezo da parte do homem e dio em Patrcia. Eric tambm no bebeu imediatamente, observando a bebida como se 
tentasse detectar qual a sua composio. Patrcia voltou-lhe subitamente as costas e afastou-se.
Nesse momento preciso, um rapaz interpelou o meu companheiro e pediu-lhe para ir urgentemente arbitrar o diferendo que surgira entre dois convidados a propsito 
da data de construo de no sei que complexo da regio parisiense. Ele voltou-se, para mim e disse:
- Espera-me. Volto j! 
E seguiu aquele que reclamava a opinio dele. Aquiesci. Depois, como ele no voltasse, e ningum parecesse interessar-se pela minha presena, lentamente, a pequenos 
goles, fui bebendo o contedo do copo que Patrcia me oferecera. A bebida tinha, com efeito, um gosto a gin e a limo.
Mas de repente senti-me cair num precipcio. Depressa, cada vez mais depressa...
Terei gritado, como me pareceu, enquanto tudo ficava escuro  minha volta, eriado de rochedos com pontas agudas sobre as quais eu iria empalar-me? Quem mo dir? 
S de pensar nisso sinto-me invadir pelo terror... Vou gritar, Etienne. Tenho medo, medo...

Captulo 20

Hlne encontrou-me lavada em lgrimas, metida na cama s cinco horas da tarde, com o caderno encostado ao peito, a tremer como se estivesse transida de frio, apesar 
dos cobertores quentes que me tapavam at ao queixo.
- O que  que fizeste? 
Percebi, pelo medo que evidenciava, o que ela imaginava. Abanei a cabea num gesto frentico de negao. No, no tinha tomado qualquer medicamento, susceptvel 
de me drogar que tivesse escondido nas minhas bagagens! Fora suficiente recordar-me...
Quando se esteve verdadeiramente intoxicado, s as recordaes chegam, por vezes, para nos fazer reviver todas as sensaes, primeiro maravilhosas, depois, de vertigem 
em vertigem, atrozes, flash antes da carncia.
- Julgava que tinhas sado, minha querida. No me ouviste chamar-te?
- Sim! E como o telefone tocou pouco antes, pensei que tivesse sido Etienne... mas no me apetecia falar-lhe.
- No era Etienne. Mas porque no querias falar-lhe?
- Era Brigitte?
- No... o teu pai. - Sentei-me. Estava nua na cama, mas no se tratava de uma questo de pudor. Deixara de sentir frio. Escaldava.
- Isso no  verdade... ou ento vai-me acontecer alguma desgraa. Ele recusa-se a deixar-me estar aqui contigo? Quer encerrar-me nalguma clnica psiquitrica?
Hlne fitou-me com uma certa tristeza e uma certa expresso de clera no olhar! Falou mais lentamente do que de costume, como para se certificar de que eu iria 
perceber perfeitamente cada uma das suas palavras:
- Alguma vez me apanhaste em flagrante delito de mentira desde que aqui chegaste? Mesmo quando fazias perguntas indiscretas? Tentei, ao menos, uma s vez, camuflar-te 
qualquer verdade? O teu pai telefonou-te... queria falar contigo. Agora penso que era ainda um pouco cedo de mais.
- Peo-te perdo - murmurei por fim. - Mas vs em que estado estou? Acabo de reviver o pior momento da minha vida. Experimentei o mesmo terror.  abominvel, Hlne, 
abominvel! Depois vens dizer-me que o meu pai telefonou! Como  que ele sabe que eu estou aqui? E quem lhe deu o teu nmero do telefone?
Ela recompusera-se. Obrigou-me a deitar-me, destapou-me as pernas, mas tapou-me o peito.
- Vou fazer-te uma massagem nos ps, vai descontrair-te.  um mtodo chins. Vers,  fantstico. Em seguida, quando te sentires mais calma, conversaremos. No tenhas 
medo... trata-se apenas de fazer o ponto da situao, para ti, para Etienne, para toda a gente.
Os nicos momentos de despreocupao que tinha conhecido desde h dois anos devia-os a Hlne, pois mesmo perante ti, meu amor, nunca deixei de me sentir inquieta. 
Mas a recordao dessa queda num buraco negro sem fim continuava a perturbar-me. Encolhi os ombros e resmunguei:

- Estou cansada das lies de moral. Mesmo os mdicos mas fizeram, incluindo Etienne.  certo... que eu no devia ter-me drogado, nem prostitudo, nem devia ter 
frequentado os bares suspeitos, nem traficado, nem... nem... Mas j imaginaram a impresso que nos causa descobrir que vocs, os mais velhos, no so capazes de 
ter confiana em ns? A vossa sociedade  hipcrita e pode dizer: Faz o que eu digo, no faas o que eu fao: mentir, enganar a minha mulher ou o meu marido, roubar 
os meus clientes, aldrabar os meus superiores e os meus inferiores..." Uma bela moral, na verdade. Primeiro o haxixe... para esquecer, para nos sentirmos bem, para 
termos relaes amigveis com os outros... Quem poder imaginar o despertar torturador? Esse buraco negro do qual muitos no saem?
Sei bem, meu querido, que aps semanas de inconscincia voltei  superfcie. Quantos outros mdicos, alm de ti, se debruaram sobre mim com solicitude, para estudar 
o caso aparentemente desesperado que eu era, quando a ambulncia me levou do cais de Bourbon para o Htel-Dieu, quantas enfermeiras se revezaram  minha cabeceira 
com uma pacincia infinita para tratarem a espcie de cadver vivo em que eu me transformara, como elas velaram por mim, evitando que eu me estrangulasse com os 
lenis ou batesse com a cabea nas paredes, com a possibilidade de partir o crnio, ou de cortar a lngua quando estivesse em crise. Sei tambm que se no fosse 
a delicada operao ao abcesso pulmonar que eu tinha teria morrido, no meio dos mais terrveis sofrimentos, apesar dos calmantes que j no faziam qualquer efeito 
sobre mim!
No entanto, quando penso: "Estou salva, fui salva",  s de ti que me lembro.  o teu rosto que me aparece, o teu rosto com uma indizvel expresso de bondade, os 
teus lbios que me dizem:
- Ento, Jlia, o pesadelo, acabou. Livraste-te desta complicao. Agora  preciso aprender a viver, a ser feliz. Vamos dedicar-nos os dois a essa tarefa. Est bem?
Lembras-te dos meus olhos encarquilhados a fixarem-te? Da minha boca aberta que no conseguia emitir um nico som? No sei o que exprimia o meu rosto, mas devia 
ser o assombro, a incredulidade de um nufrago no meio do oceano que descobre, no momento em que se vai afundar, uma embarcao a remos que se dirige para ele, que 
lhe estendem j uma mo salvadora.
Tu pareceste incomodado, murmuraste: "No sou o bom Deus. E se o fosse... conheces o provrbio: "Faz a tua parte que Eu te ajudarei." Preciso que me ajudes, Jlia. 
Se assim no for, nada conseguiremos."
No sei, meu querido, qual foi o momento preciso em que tu te apaixonaste por mim. O que posso dizer-te  que ao primeiro olhar que lanaste sobre mim, um olhar 
de mdico, ou pior... de psiquiatra...  primeira entoao da tua voz, eu pensei, e isso foi maravilhoso: "Este  diferente, neste poderei ter confiana!" Foi to 
excitante... como o meu primeiro flash, perdoa-me a comparao.
- Ests a ouvir-me, Jlia? Onde ests tu? 
A tua av chamava-me  ordem. J no tinha frio, sorri e declarei:
- Desculpa... ms recordaes... depois boas... estava muito longe.

- Eu vi. Gosto muito de ti, minha pequena Jlia, tu sabes, mas s demasiado impulsiva e talvez que a maior censura que se possa fazer aos teus pais  de te terem 
protegido demasiadamente das realidades da vida, tanto das materiais como das sentimentais... ou das dos sentidos!  preciso por vezes compreender certas fraquezas... 
mas...
Interrompi-a.
- As de Brigitte? Brigitte no  "os meus pais". Quanto a meu pai, foi ele ao menos uma vez ver-me ao hospital, quando ningum esperava que eu me salvasse? No? 
Nem sequer me enviou umas palavras, ou me telefonou, ou me mandou uma flor, ou uma caixa de chocolates.
- Como o sabes? 
Querida Hlne, indulgente, demasiado indulgente. Tanto para o egosmo masculino, como para as fraquezas das mulheres! No chegou ela ao ponto de afirmar que se 
tivesse a minha idade em 84 tambm se teria sem dvida drogado, e teria percorrido as mesmas etapas infernais que eu percorri, e que a sorte dela fora faltar-lhe 
imaginao quando era nova, fora ser dcil e viver em casa de uns pais bastante severos.
Protestei:
- Que queres fazer-me acreditar? Que Brigitte e o meu pai gostam de mim? Por que motivo me mentiu ela? Para que me deixou crer que era minha me at ao momento em 
que o amante... - Hlne preparou-se para me interromper, mas eu no deixei, continuando: - Eu gostava dela como de uma mam, tinha confiana!
- E se tivesses razo para gostar dela e no tivesses motivo para deixar de confiar nela? E se cometeste um grave erro, Jlia? Essa eventualidade nunca te ocorreu?
- Ela enganou o meu pai, no o ama, casou com ele por causa do dinheiro, da sua posio social.
Mais uma vez, Hlne replicou:
- E se isso no for verdade? Brigitte  muito bela, ao que parece, e bastar-lhe-ia escolher, com certeza. Preferiu o teu pai, e no  muito fcil viver com um homem 
quinze anos mais velho e criar a filha de outra mulher. Outra mulher que fora adorada. Tu mesma reconheces que Brigitte se mostrou perfeita contigo, durante anos, 
no fazendo qualquer diferena entre ti e os teus jovens irmos, considerando-te realmente como uma filha mais velha. Os teus irmos no sabem a verdade, nem agora.
Perguntava a mim mesma onde quereria Hlne chegar. Para acabar com o interrogatrio, enfiei umas calas, uma camisa e disse:
- Vou passear. No precisas de mim, pois no?
- Toma cuidado com as cobras. Leva um pau e no venhas muito tarde. Quero jantar cedo. Amanh vou  igreja s dez. No precisas de me acompanhar. Basta que vs  
tarde, para a missa de Sexta-Feira Santa.
Sa. Depois de uma longa caminhada pelos campos, de numerosas paragens  beira-mar e junto dos inmeros riachos cujas guas corriam rapidamente para o mar, subi 
a um muro que cercava um prado. Belas vacas brancas e pretas olharam-me com espanto mas sem se incomodarem. Pastavam. A erva era ainda pouca. Vi um riacho que se 
insinuava por entre os tufos de primaveras amarelas. Sentei-me com o sol a bater-me nas costas para no ficar cheia de sardas. E escrevo-te, escrevo-te...

Como eu gostava que fosse uma longa carta de amor e como gostaria tambm de escrever ao pap, a Brigitte, para lhes anunciar que tu me amas e que sou a rapariga 
mais feliz do mundo! Gritar a todos que tambm eu vos amo, que fui louca mas que tu e a tua av me ajudaram a esquecer, que o passado se apaga, que o universo monstruoso 
que eu conheci no , obrigatoriamente, o de toda a juventude. Mas ser isso possvel? No ser tarde de mais? Meu Deus, porque  que depois de ter dito que no 
me sentia digna de ti fraquejo agora e espero? Oh, Etienne, porque  to difcil viver?...
Sonhei longamente, ouvindo os rudos  minha volta, respirando o aroma da erva florida... respirando-o de tal maneira que me senti subitamente tomada por uma ligeira 
vertigem, como no incio de uma embriaguez, prestes a desmaiar de prazer! Mas esse prazer transformou-se subitamente em terror, pois tive a impresso que... uma 
impresso que eu conhecia muito bem, a mesma que me provocavam as primeiras baforadas de haxixe... Serei eu ento como esses alcolicos cujo sangue est de tal modo 
impregnado que s o facto de sentirem o cheiro de uma garrafa de uisque ou de conhaque os pe  beira da embriaguez?
 algo que no podem avaliar aqueles que nunca se drogaram. Imaginam que a nossa habituao a um estupefaciente exige, para fazer efeito, o aumento incessante das 
doses. Isso  verdade, mas infelizmente  verdade tambm que a habituao  maior parte dos estupefacientes no  apenas fsica mas tambm psquica. A cura desta 
ltima  mais difcil. Isto  de tal modo verdadeiro que um drogado pode sentir-se bem por aspirar seja o que for. E quando digo seja o que for  exactamente isso 
que quero dizer. No so apenas os produtos de substituio, como fazem muitos de ns com a gasolina, por exemplo, que vo roubar aos depsitos dos carros para cheirar, 
ou as raparigas que cheiram o dissolvente do verniz das unhas... No vou fazer aqui uma lista, que tu de resto conheces, dos xaropes, colas, bebidas aparentemente 
andinas, que servem de droga aos que j esto viciados e que se querem drogar  fora, em quaisquer circunstncias e por quaisquer meios! A esses, julgo que at 
uma injeco de gua pura bastaria para os drogar. Isso seria, em qualquer caso, menos nocivo. Mas estou a desviar-me do assunto. Perdoa-me, meu querido...
Deitei fora as flores que tinha colhido, e voltei a casa para acabar de te contar o meu dia. Dentro de alguns minutos acompanharei Hlne  igreja de Landemer. Iremos 
de carro. Espero que ela no me fale de ningum a no ser de ti.

Captulo 21

Estou um pouco desiludida, meu amor: tu s chegas amanh, domingo. Vieram de Cherbourg umas flores soberbas, com estas palavras: "Amo-te..."
Depois, uma hora mais tarde, de outra florista, chegaram outras flores, sem qualquer carto... e uma hora mais tarde um terceiro ramo, tambm annimo. No compreendo, 
s podes ter sido tu a envi-las. Enlouqueceste ou ganhaste a Lotaria?
Hlne ergueu as sobrancelhas e murmurou: "No compreendo..." Mas fiquei com a impresso de que estava a mentir. Como lhe fiz notar que ela se tinha confessado ontem, 
para poder comungar na missa da meia-noite, ela respondeu com o seu ar mais srio:
- Pedi para ser absolvida, antecipadamente, de todos os pecados que pudesse cometer daqui at  missa da Pscoa!
Existe decididamente, desde h alguns dias, uma atmosfera misteriosa nesta casa. De resto, neste momento, estou sozinha. So quase dez da noite. Hlne disse que 
eu devia deitar-me cedo para estar bonita amanh, para te receber. A tua querida av bem diz que  moderna, mas continua convencida de que as raparigas  que devem 
agradar aos rapazes e no o contrrio. Perdoo-lhe isso. Tambm eu desejo estar bonita para te receber. Desse modo, talvez tenhas pena de mim.
Lavei cuidadosamente a cabea, pus um leite amaciador na cara.  verdade que precisava dele. A minha "pele de beb"  muito frgil, e o sol e o vento... Bem, no 
quero aproveitar estas ltimas linhas da minha confisso para te fazer um curso de esttica. Mas no tenho sono. A1m disso, sinto-me perturbada porque julgava estar 
preparada para o que te ia dizer, para que saibas que te amo apaixonadamente, que certamente no voltarei a amar mais ningum... mas que devemos separar-nos, renunciar 
 felicidade de nos casarmos!
 que a ideia de no mais te voltar a ver -me insuportvel. Tenho necessidade de ti, pelo menos da tua amizade, preciso que me guies pelo menos at eu ser uma pessoa 
de corpo inteiro, capaz de assumir o meu passado. Entretanto, ters encontrado uma rapariga digna de ti, digna de te dar belos filhos... pronto, estou a chorar!
Acalmada a minha crise de lgrimas, pareceu-me de repente adivinhar algo que de novo me d vontade de chorar, mas  impossvel, tu ter-me-ias preparado, no  verdade? 
As coisas assim s sucedem nos contos de fadas, um pouco ridculos, nos quais h muito tempo no acredito. Foi esse o sentido do teu soberbo ramo de flores brancas 
e cor-de-rosa, como para um ramo de noiva? Ns no somos noivos, no o seremos amanh. Afinal, eu tambm tenho uma palavra a dizer a esse respeito. No quero...
E os outros dois ramos tambm de flores brancas e cor-de-rosa? E o minsculo embrulho preso por uma fita com dois pequenos coraes vermelhos nas pontas, que no 
 com certeza um ovo da Pscoa?  alguma jia, com certeza. Porqu uma jia, meu Deus? At a preparao da mesa, na casa de jantar, foi um mistrio. A porta est 
fechada  chave. Tanto pior, no aguento mais, vou espreitar. Sei onde Hlne guarda as chaves. Vou abrir, vou saber.

Pronto! J fui ver. Quantos minutos fiquei eu parada  entrada da porta? Estava petrificada! Sobre a toalha bordada, engomada, nove talheres, pratas e cristais, 
flores brancas e cor-de-rosa, taas de champanhe. Percebi imediatamente que aquela mesa assim posta no se destinava a receber vizinhos e decidi imediatamente fugir! 
No posso imaginar que estejas ao corrente do que se passa, que possas ter dado o teu acordo. Voltei a fechar a porta e subi ao meu quarto. Vou apagar a luz e fechar 
definitivamente o caderno da minha confisso. Deix-lo-ei bem  vista sobre a mesinha-de-cabeceira. Hlne, depois tu e aqueles que convidaste ho-de v-lo. Eu terei 
fugido. No, nada receies, no tenho inteno de fazer um disparate, de me suicidar ou pior... de voltar para o meio daqueles que vivem num inferno que eu nunca 
mais terei a coragem de enfrentar. Ento o qu? Eu arranjar-me-ei:  possvel. Trabalharei, e vocs no me mandaro procurar pela polcia. Se for necessrio, irei 
ter com os meus antigos companheiros, que me arranjaro uma documentao falsa at eu atingir a maioridade. Aos dezoito anos serei livre para estragar a minha vida, 
ou para ser feliz, sozinha!
Mais tarde, muito mais tarde, dar-vos-ei notcias minhas, a todos.
Agora  cedo de mais. Para todos, mas sobretudo para o encontro que Hlne, adivinho-o, desejou, pois ela, mais do que eu, acredita nos contos de fadas, e sem dvida 
conseguiu convencer os outros, a ti... a eles...
Para ter a certeza de acordar a tempo, Jlia deixou os cortinados do quarto abertos, e agora o cu est claro, rosado, porque o Sol apareceu por detrs da casa. 
Levantou-se. Os seus gestos cautelosos eram no entanto precisos. Continha a respirao, caminhando nas pontas dos ps, tendo o cuidado de no fazer ranger algumas 
tbuas do soalho cuidadosamente arranjado. Por fim, acariciou o bonito vestido de piqu branco que Hlne lhe mandara fazer em Cherbourg para esse domingo "diferente 
dos outros". Vestiu em seguida umas calas de ganga, uma Tee-shirt j desbotada, dobrou outras duas que meteu no seu saco e saiu do quarto sem olhar mais para aquele 
compartimento que to querido lhe fora. Desceu as escadas com os tnis na mo. Depois comeou a correr pela estrada em direco beira-mar, por onde passariam bastantes 
carros, mesmo quela hora, a quem ela pudesse pedir boleia.
O Sol levantara-se j e coloria o mar de mil tons, como um deslumbrante traje de palhao, mas Jlia no queria ver tamanha beleza, tal serenidade para glorificarem 
a Ressurreio.
Passou por ela um camio que avanava a grande velocidade e no teve tempo de o chamar. Comeou ento a correr cada vez mais depressa, para pr uma distncia maior 
entre si e a casa de Hlne, entre Etienne, entre aqueles que iriam chegar e ela mesma!
Nove talheres! Maquinalmente, e acelerando ainda mais o passo, contava-os: Hlne, Etienne, ela, os pais de Etienne... eram cinco. E os outros quatro? Quatro desconhecidos?

Jlia viu-se obrigada a parar, ofegante. Deixou-se cair na berma da estrada. As ervas e as primaveras estavam cobertas de gotinhas de orvalho que o sol tornava cintilantes 
e cada ramo, orvalhado, fazia lembrar os fios do vu da Virgem. Jlia estremeceu. Ouviu o rudo de um carro que se aproximava por detrs e ergueu-se antes de ver 
o veculo aparecer na curva da estrada. Jlia ergueu um brao, comeando a andar, como se nem sequer quisesse ver o rosto do condutor.
O rudo dos traves f-la finalmente voltar-se. No eram pessoas da regio. O carro tinha matrcula de Paris. Um casal de uma certa idade, com uma expresso extraordinariamente 
surpreendida, olhava-a.
- Para onde deseja ir, menina?
A voz fez sobressaltar Jlia. Achava-lhe algo de familiar. Mas seria parecida com a de quem? Agradvel, um pouco abafada. No, no conhecia nenhuma mulher que tivesse 
aquele tom de voz, simultaneamente quente e um pouco rouco.
- Para Cherbourg, minha senhora. A minha bicicleta avariou-se e ainda so vinte quilmetros at l. Vou chegar atrasada.
- Muito bem, suba. Esperam-nos em Omonville-la-Rogue, bem, no exactamente, mas est bem, levamo-la a Cherbourg primeiro. De qualquer modo, ainda  muito cedo e 
poderamos ir acordar toda a gente. Conhece bem a regio, ou est aqui a passar frias?
O homem limitara-se a sorrir e durante uma fraco de segundo Jlia teve a impresso de que aquele sorriso lhe recordava um outro. O carro pusera-se de novo em andamento, 
devagar, quando subitamente o condutor perguntou:
- Como se chama? Para parisiense  muito madrugadora. No me engano quando digo que  parisiense, pois no?
Era preciso inventar uma resposta no muito precisa. Quando a sua fuga fosse descoberta, Hlne e a famlia comeariam a interrogar os vizinhos e talvez fizessem 
um apelo pela rdio. Aquele casal poderia inform-los de que lhe tinham dado boleia. Devia ficar numa das ruas das proximidades do porto e no perto da estao de 
caminho de ferro. Tinha muito tempo. O primeiro comboio para Paris partia por volta das nove horas. De resto, desceria em Caen, para os despistar, no caso de a mandarem 
procurar.
- Vm de Saint-Michel? - perguntou por sua vez para quebrar um silncio que se estava a tornar inquietante.
- Sim. Ficmos l desde ontem, pois aqui s nos esperavam hoje.  um grande dia para ns... para toda a famlia. Com certeza um dia tambm ficar noiva. Agora  
a vez do nosso filho!
- Quero descer! - gritou Jlia. - Parem, estou doente. Quero descer!
- Doente?
O carro parou perto de um atalho que seguia ao longo de um pequeno riacho, e o condutor voltou-se lentamente, enquanto a mulher, levando a mo  boca, continha uma 
exclamao assustada.
- No, Jlia, tu no ests doente, tens apenas medo, pois tu chamas-te Jlia, no  verdade? Fugiste... porqu? No queres casar com o meu filho? Que se passa? Ele 
desgostou-te? J no o amas?
O carro que parara para lhe dar boleia era o dos pais de Etienne, e agora os dois olhavam para ela com um ar grave e triste. No pareciam zangados nem escandalizados, 
os seus olhos tentavam sorrir-lhe, mas os da me de Etienne encheram-se de lgrimas, e ela murmurou:

- No percebo, ele ama-a profundamente, h meses. Receava de tal maneira ser demasiado velho para si. Vai sentir-se terrivelmente infeliz. Ns sentamos uma tal 
alegria ao pensar...
O condutor, pondo a mo no ombro da mulher, imps-lhe silncio. Depois dirigiu-se a Jlia:
- Vamos dar meia-volta, queres?  normal que estejas um pouco nervosa,  um grande dia para uma rapariga, no podias dormir, querias ver aparecer o Sol para desceres 
 praia, mas estavas fatigada e no querias que se inquietassem com a tua ausncia, e ento pediste-nos boleia. No h nada de extraordinrio nisso.  normal teres 
encontrado os pais do teu noivo. Ele chegar mais tarde. Vem de Paris.  bom que nessa altura j tenhamos travado conhecimento. No te preocupes. Tudo correr bem. 
- Voltando-se novamente para a mulher, resmungou: - No chores mais. Ficas com os olhos vermelhos e com a cara inchada, e Etienne no gostar disso. Ele que certamente 
disse a Jlia que tu s... depois dela... a mulher mais bonita do mundo.
- Oh, no, no. Peo-vos! 
Houve um silncio interminvel. O mdico no desfitava Jlia, como se quisesse hipnotiz-la, esperando a reaco dela, enquanto a me de Etienne escondia o rosto 
nas mos.
- Ns apenas sabemos uma coisa, Jlia. Que Etienne te ama e que fez bem.
- Foi ele que os chamou? Ele sabe?
- Foi por ele saber muito mais coisas do que tu... por exemplo, que o teu pai envelheceu dez anos por no poder perdoar a si prprio a sua intransigncia, e as consequncias 
que ela teve. Pronto, no digas nada, no queremos saber o teu segredo. E tu fars bem em esquecer.  preciso sempre esquecer os sofrimentos, os erros, os rancores, 
e tu f-lo-s.
- A minha madrasta tambm vir? 
Os lbios de Jlia tremiam.
- Ela no deixou de se preocupar contigo um s dia, contou-nos Etienne, e os teus irmos cresceram tanto que poders no os reconhecer.
Foi mais forte que ela. Jlia queixou-se:
- Eles fizeram-me tanto mal. Se no me tivessem expulsado...
O seu interlocutor levou um dedo aos lbios, depois suspirou:
- Tambm tu lhes fizeste muito mal. Isso tem de acabar, no achas?
Eles no lhe faziam qualquer censura, no lhe perguntavam sequer como  que ela tencionava arranjar-se sozinha em Paris, sem ter terminado os seus estudos, antecipadamente 
entregue ao pior. Fingiam ignorar que ela se drogara, que cometera actos abjectos para alimentar o seu vcio. No entanto, mesmo que Etienne nada lhes tivesse dito, 
o mdico teria certamente adivinhado tudo.
- Eu no sou digna dele.
- No mintas, no  do julgamento de Etienne que tu tens medo. Ele nada tem a perdoar-te. Ama-te e confia. Queres que te diga, como um diagnstico mdico, o que 
te fez fugir, pronta a cometer mais uma vez um disparate que seria, agora, irremedivel?
Jlia esperava. Sabia o que iria ouvir.

- Tiveste vergonha de olhar de frente algum a quem odiaste injustamente. Creio que Brigitte,  o nome dela, no , te ama como se fosses de facto a sua filha mais 
velha. O resto deves t-lo inventado. Tem-se tanta imaginao aos quinze anos!  perigosa, essa imaginao. V, vamos!
Jlia aquiesceu em silncio, e a cada curva da estrada o seu corao batia mais depressa, mas de alegria.. No perderia Etienne. Ele conserv-la-ia bem apertada 
contra ele, para que ela no tropeasse quando avanassem, juntos, para um homem que apertaria os maxilares para ocultar a sua comoo, para uma mulher encantadora, 
ainda mais comovida do que ele.
E os dois, ela no duvidava que seria assim, diriam: "Perdoem-nos."
Ela atirar-se-ia primeiro para os braos do homem, depois para os da mulher, e murmuraria por sua vez: "Perdo."
- Terei o tempo necessrio para mudar de roupa - disse. - Hlne comprou-me um vestido, um vestido lindo. Um verdadeiro vestido de noivado. E preparou um destes 
almoos. Etienne j vos disse que me tornei uma excelente cozinheira?
- No. Disse apenas que tu eras a rapariga mais formidvel do mundo, a mais corajosa.
Jlia no queria ouvir mais. Ia recomear a chorar e no era decididamente o dia para isso. Quando o carro parou, viu Hlne no limiar da porta. Correu para ela 
e abraou-a, murmurando:
- Porque  que no me avisaste? Quis fugir porque tive medo!
No mesmo tom confidencial, Hlne replicou:
- Medo de qu? De estares por fim apaziguada, feliz! Parece-me que j pagaste o teu preo. De resto, vers, a felicidade no  simples. Mas agora tenho a certeza 
de que sers capaz de ser feliz. Eles chegam ao meio-dia. No fundo, estou contente por tu teres aberto a porta da casa de jantar, e esta manh senti-te fugir, mas 
queria que voltasses por tua vontade.
- E se eu os no tivesse encontrado, por acaso, na estrada?
Hlne, como o filho, respondeu gravemente:
- No h acaso, foi a Providncia. E agora s te resta fazer uma coisa.
Jlia recuou um passo, sem largar as mos de Hlne.
- Arrumar o meu quarto, destruir esse caderno que se tornou intil e voltar a descer para comer esses brioches cujo aroma me chega s narinas...
O pai e a me de Etienne esperavam, sem se admirarem com aquela troca de palavras entre Hlne e Jlia.
- No destruas o teu caderno. No tinhas inteno de o dar a ler a Etienne? Pelo menos, ele casar com conhecimento de causa. Nem todos os homens podem dizer o mesmo. 
Mas tenta acrescentar-lhe algumas palavras, por exemplo, que o amas e que s isso conta. Penso que ser o melhor ponto final. E agora deixa-me ir beijar o meu filho. 
H meses que espero poder faz-lo. Quem sabe? Talvez tambm os teus pais esperem h muitos meses. Os filhos, vers, no so uma coisa simples!
De sbito, ao longe, o repicar alegre dos sinos anunciou a primeira missa da manh.

FIM
